Comemoração dos 50 anos de One-dimensional man, de Herbert Marcuse: 5 a 7 de novembro de 2014, na PUC-SP

18 de outubro de 2014

ONE-DIMENSIONAL MAN, de Marcuse

 

50 Anos

 

 

Filosofia Política Contemporânea

(Grupo de Pesquisa PUC-SP/CNPq)

 

 

Dias 05 e 07 de Novembro de 2014

 

 

05/11 – 19h/22h30 – “A Sociedade Administrada, segundo Marcuse”

 

(Anderson Alves Esteves –Doutorando PUC-SP)

 

 

“Marcuse e o horizonte de negação”

 

(Antonio José Romera Valverde – PUC-SP)

 

 

 

06/11 – 17h/22h30 – Projeção do vídeo “Herbert’s Hippopotamus. A Story about Revolution in Paradise”

 

18h15 – “Marcuse, segundo Douglas Kellner”

 

(Vicente Cláudio Jannarelli – Doutorando PUC-SP)

 

 

19h – “One-dimensional Man – 50 anos”

 

(Wolfgang Leo Maar- UFSCAR)

 

 

07/11 – 19h/22h30 – “Por que ler Herbert Marcuse hoje? Sobre a atualidade e a obsolescência da crítica da sociedade industrial”

 

(Marília Mello Pisani – UFABC)

 

 

 

Organização:

Antonio José Romera Valverde

e

Grupo de Estudos Filosofia Política Contemporânea (PUC-SP/CNPq)

 

Local: Auditório da APROPUC

Rua Bartira, 407

Perdizes

São Paulo – SP.

 

 

Evento na página da PUC-SP: http://www8.pucsp.br/assessoria-de-comunicacao-institucional/noticias/one-dimensional-man-de-marcuse-50-anos

A “CLASSE C” VAI AO PARAÍSO? A ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL DO BRASIL NO SÉCULO XXI [PARTE J]

1 de julho de 2014

XXIV

  O membro da “classe C” declara-se feliz[ver VIII] – tal mensuração da felicidade contabiliza apenas o que convém à própria sociedade de consumo [todos são iguais para adquirirem os valores de uso existentes e as estatísticas que apontam o crescimento de consumo indicam, assim, aumento da felicidade] e não a fruição interior, a independência dos olhos dos outros, uma vez que ambas excluem a necessidade de consumo. Mensura-se maior consumo e crescimento do PIB, mas tais indicadores não seguem o compasso da felicidade, uma vez que estão submetidos à ordem econômica de crescimento do lucro, não às necessidades verdadeiras que as pessoas podem satisfazer. Contudo, o próprio membro da “classe C” não é um tribunal confiável para julgar seu estado e a inexistência de outro melhor que ele, que não seja condenável epistemológica e eticamente, não invalida a necessidade de desconfiar dos juízos que emite. Marcuse argumentou que apenas indivíduos não manipulados por falsas necessidades que operam dentro deles mesmos fariam declarações não manipuladas; do contrário, tais declarações são suspeitas e reveladoras de como as pessoas pensam e agem contra a própria libertação[1], tal como o voto que dão contra si mesmos em eleições parlamentares. Tal consideração parece válida para o membro da “classe C” brasileira à medida que, manipulado para não frear o consumo, aposta que a felicidade, terrena e não apenas transcendente, é instantânea à aquisição da cesta de consumo que o apraz, mas invalidada sem demora à medida que a capacidade de consumo tem um limite e que embarga a continuidade das aquisições, que a realidade que incentiva o consumo é a mesma que estressa e deprime, que aumenta a jornada de trabalho, que deteriora relações humanas[2], que aumenta a violência urbana, que exclui aqueles que não querem ou que não conseguem consumir,  que, ao equalizar felicidade e consumo, promove a perenidade da insatisfação para que o consumo nunca cesse e mantenha a ilusão de que a próxima satisfação alcançará a felicidade. Processo descrito por Marcuse como “dessublimação repressiva” e que Wolfgang Leo Maar, retirando conclusões políticas da atual hegemonia às avessas no Brasil, considera que o dominado é agente da própria dominação a qual está submetido à medida que, administrado pelo todo que produz e distribui quinquilharias, submete-se à administração do cálculo racional – o próprio todo produtivo e distributivo como ideologia – que metamorfoseia a política em administração, os sujeitos em objetos, o desconforto em conforto, os antigos potenciais coveiros da ordem em atuais sustentáculos da mesma, a antiga oposição em governo[3]. Tal elenco de fenômenos mostra, conforme o argumento de Baudrillard, que não basta captar um signo de felicidade para se alcançar a própria felicidade[4]. O membro da “classe C” perpetua a insatisfação pela estratégia de desvalorizar o que já foi adquirido e tem açuladas novas necessidades pretensamente satisfeitas com a vasta oferta de novos artigos a serem consumidos e/ou com a conversão de necessidades primárias em bens de luxo [como encontrar água mineral em um ambiente fortemente poluído], transformando o procedimento em um “vício”[5] para o membro da “classe C” e, assim, subtraído de sua plenitude racional e de tal forma narcotizado, ele declara-se feliz com a sociedade narcotizante, não notando que, pela oferta abundante de mercadorias, o que se perpetua é a carência à medida que as necessidades de distinção crescem ilimitadamente e jamais satisfeitas plenamente, que é condicionado à obediência de um código de artigos que lhe dariam distinção, mas que apenas submetem à “penúria luxuosa e espetacular”[6].   [1] “[…] Enquanto eles [os ‘indivíduos’] forem mantidos incapazes de ser autônomos, enquanto forem doutrinados e manipulados [até os seus próprios instintos] a resposta que derem a essa questão não poderá ser tomada por sua. E, por sinal, nenhum tribunal pode com justiça se arrogar o direito de decidir quais necessidades devam ser incrementadas e satisfeitas. Qualquer tribunal do gênero é repreensível, embora a nossa revulsão não elimine a questão: como podem as pessoas que tenham sido objeto de dominação eficaz e produtiva criar elas próprias as condições de liberdade?” [“(…) As long as they are kept incapable of being autonomous, as long as they are indoctrinated and manipulated (down to their very instincts), their answer to this question cannot be taken as their own. By the same token, however, no tribunal can justly arrogate to itself the right to decide which needs should be developed and satisfied. Any such tribunal is reprehensible, although our revulsion does not do away with the question: how can the people who have been the object of effective and productive domination by themselves create the conditions of freedom?”]. MARCUSE, H. One-dimensional man: studies in the ideology of advanced industrial society. 2° printing. London/New York: Routledge, 2002, pp. 08-09. [2] Bauman oferece m exemplo com a diferença entre o antigo jantar em família e o hábito atual de alimentação em redes de fast food:  “[…] Na mesa de jantar, e apenas nela, era possível encontrar comida pronta para comer: a reunião na mesa de jantar comum era o último estágio [distributivo] de um longo processo produtivo iniciado na cozinha ou até  fora dela, no campo ou na oficina da família. O que unia os comensais, transformando-os num grupo, era a cooperação, concretizada ou esperada, no processo precedente do trabalho produtivo, e compartilhar o consumo do que foi produzido deriva disso. Podemos supor que a ‘consequência indesejada’ das ‘fast food’, ‘para viagem’ ou ‘comida congelada’ [ou talvez sua ‘função latente’ e verdadeira causa da irresistível ascensão de sua popularidade] seja tornar as reuniões em torno da mesa de jantar redundantes, pondo fim ao consumo compartilhado, ou endossar simbolicamente a perda, por um ato de comensalidade [o consumo em conjunto], das onerosas características de estabelecimento e reafirmação de vínculos que teve no passado, mas que se tornaram irrelevantes ou mesmo indesejáveis na sociedade líquido-moderna de consumidores. A ‘fast food’ está aí para proteger a solidão dos consumidores solitários” [BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. Tradução de Carlos Alberto Medeiros, Rio de Janeiro: Zahar, 2008, pp. 101-102]. [3] MAAR, W. L. “Política como práxis: hegemonia às avessas, um exercício teórico” In: OLIVEIRA, F.; BRAGA; R.; RIZEK, C. [Orgs.] Hegemonia às avessas: economia, política e cultura na era da servidão financeira. São Paulo: Boitempo, 2010, p. 356 et seq. [4] Para Baudrillard, trata-se de um mito: esperamos, a exemplo dos melanésios que fizeram simulacros de avião para que estes pousassem próximos a suas moradias, que o consumo nos dê o milagre de que a felicidade pouse em nós: trata-se de uma mentalidade primitiva [onipotência do pensamento transfigurada em onipotência dos signos] à medida que se crê que, para ser feliz, basta acumular signos de felicidade – tal como os melanésios não perdem a crença de que o avião possa pousar, também acreditamos nos signos oriundos da televisão, cuja característica são atenuar o princípio da realidade social e, por isso, captamos a mesma de forma miraculosa. Em segundo lugar, ao apreendermos os bens de consumo abundantes e não trabalhados por nós mesmos, acreditamos que a generosa natureza, aventada pela publicidade, sempre nos abastecerá com abundância pelo mito de três deuses, a Técnica, o Progresso, o Crescimento. Cf: BAUDRILLARD, J. A sociedade de consumo. Tradução de Artur Morão, Lisboa: Edições 70, 2010, pp. 21-24. [5] BAUMAN, Z. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. Trad. de Carlos Alberto Medeiros, Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 64. [6] BAUDRILLARD, J. A sociedade de consumo. Trad. de Artur Morão, Lisboa: Edições 70, 2010, p. 77.

A “CLASSE C” VAI AO PARAÍSO? A ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL DO BRASIL NO INÍCIO DO SÉCULO XXI [PARTE I]

1 de junho de 2014

XXIII

 

A geração da década de 1930 – Caio Prado Júnior, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda –, a despeito das diferenças teórico-metodológicas, alavancou o conhecimento acerca da cultura do povo brasileiro a um patamar antes inalcançado[1]. Estaria tal cultura perturbada pelo atual modo de vida da “classe C” ou esta penetrada por aquela? O quão mais a “classe C” crescer e expandir o mercado interno mais o patriarcalismo diminui ou mais se arraiga? Caio Prado Júnior considerou que, com a escravidão e a grande propriedade de produção de bens primários para exportação, a unidade econômica rural era, também, a unidade social, administrativa, religiosa da Colônia: o poder do proprietário, maior que o da autoridade pública, estendia-se até os limites de sua propriedade, onde esbarrava em outro senhor, e dele dependiam os escravos, os agregados e mesmo as autoridades religiosas – tratava-se de uma unidade econômica que também era uma “célula orgânica da sociedade colonial”[2] e que, à medida que as gerações se sucederam, criaram laços que perenizaram uma situação “patriarcal”[3] de dependência na qual a grande propriedade era o locus onde escravos, trabalhadores livres e agregados sobreviviam e o senhor tornava-se uma espécie de protetor, de pai, o que era atestado no ritual católico de batismo e de casamento que intitulavam as pessoas como padrinhos, afilhados e compadres[4]. Se na captura de índios e de negros por portugueses os laços sociais limitavam-se à dominação física, desta vez a cimentação dos vínculos societários era mais sutil e contava com o importante papel do catolicismo. Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda mostraram a característica “híbrida”[5] entre as etnias constituintes do povo brasileiro: o português, que de modo algum constituía-se de uma cultura autóctone-europeia, vivia em um “todo social plástico”[6], uma vez que a história de Portugal – uma “zona fronteiriça”[7] e mesmo uma “região indecisa entre Europa e África”[8], por isso, de um europeísmo menos estreito – já combinava elementos europeus, africanos, asiáticos, católicos, muçulmanos, semitas, decorrentes da escravização de mouros e de africanos e do enraizamento da vida socioeconômica mais na mobilidade comercial do que na vida fixa da agricultura[9], contribuindo para a miscigenação de sua população e na consideração de que o fenômeno não fosse um problema e, ainda, resolvia a questão da falta de capital humano para ocupação do território e para a colonização de suas novas terras na América, onde miscigenou-se com ameríndios. Tal contexto contribuiu para que o orgulho étnico, por parte do português, não fosse tão forte como ocorrera nos povos ao norte da Europa, onde a questão alcançou a situação de obstinação e embargo de compromissos[10]. No século XVI, já existia, no Brasil, uma geração visível de mamelucos[11] que, em conjunto com índios escravizados ou amigos, ajudaram a desbravar o interior e combater invasores que pretendiam piratear os engenhos –, mas que, nômades e desacostumados ao trabalho sedentário da agricultura[12], não foram eficazes nesta atividade. Foram os africanos que trabalharam com mais eficácia por possuírem uma cultura, nos tempos em que foram escravizados, agrícola [para as Minas Gerais, foram importados escravos afeitos no trabalho com metais[13]] e que também sabiam lidar com a pecuária e a culinária[14] – eram, principalmente, bantos e sudaneses; contudo, na Colônia, a atividade comandada pelos portugueses foi, por conta de ausência de organização comercial voltada à acumulação de capital na população autóctone encontrada, o cultivo de artigos para a exportação e, assim, com o uso de trabalho escravo, os portugueses donatários, mais que meros comerciantes, enraizaram-se no território colonial e empreenderam a grande lavoura escravocrata, trazendo também para dentro da família, na casa-grande, os escravos, principalmente mulheres [que contribuíam com o asseio e a educação, também, dos filhos dos senhores e, assim, com a facilitação da aculturação dos brancos com a cultura oriunda de etnias oriundas da África], para toda a sorte de trabalho doméstico e para o convívio em um ambiente de relaxamento da vida sexual que dava à família um contingente considerável de bastardos e dependentes do patriarca – são tais famílias que exercem, realmente, o poder, cabendo ao rei de Portugal, o poder formal: eis a formação histórico-sociológica de base agrícola do “oligarquismo”[15] pessoal e familiar característico por séculos na política brasileira, do “mandonismo”[16] e do sadismo de uns correlatos ao masoquismo de outros – tudo parece legar de uma organização social baseada no antagonismo entre senhores, proprietários de terras, e de escravos e com hegemonia política dos primeiros sobre os segundos e todo o resto: poderoso nos campos, mas também nas cidades, uma vez que o engenho procurara bastar-se a si mesmo tanto em termos de artigos para consumo [alimentação abastecida com criações, atividades de caça, pesca] como instituições necessárias à vida social [capela, escola, serrarias para fazer mobílias], o senhor de engenho estendia seu domínio do campo para as cidades e as privatizava segundo seus interesses, instalando a “respeitabilidade”, a “obediência”, a “coesão entre os homens”, a “invasão do público pelo privado, do Estado pela família”[17], em suma, a colonização da casa-grande sobre tudo o que deveria ser público à medida que para qualquer função da administração eram naturalmente recrutados os senhores da terra ou representantes de seus interesses.  Monocultura, escravidão, alimentação ruim: contra os determinismos geográfico e biológico, a Geração de 30 do século XX propôs a explicação de fenômenos como o patriarcalismo, a indolência, a lascívia, o sadismo, o masoquismo […] por fatores históricos e culturais. E se são históricos, tais traços declinaram com a transição para a sociedade de trabalho assalariado e de vida cada vez mais urbana? Seria a atual “classe C” o grupo social pujante que superaria os seculares traços patriarcais da civilização brasileira? Muito antes da atual “classe C”, Gilberto Freyre mostrou que traços patriarcais produzidos nos engenhos persistiram na vida urbana em formação sob liderança de uma estratificação social diferente na transição monarquia-república: a despeito da centralização política resultante da chegada da família real ao Brasil, da pressão inglesa pela abolição da escravidão e pelo consumo de artigos importados de sua economia, da europeização de trajes e de reortodoxicação de rituais religiosos, da emergência de hotéis, bancos, hospitais e edifícios, da iluminação a gás e elétrica, de novos meios e técnicas de transporte e estradas de ferro e de rodagem, do sepultamento em cemitérios, do casamento civil, da diminuição do tamanho das famílias, da separação entre Igreja e Estado, da irradiação do protestantismo, do desenvolvimento da imprensa, de colégios que aplicavam métodos anglo-americanos de ensino, de algum saneamento, de regras de etiqueta e de padrões estéticos importados, de práticas esportivas importadas da Europa, notadamente da Inglaterra, da voga do habeas corpus com o advento da República, da importância maior de agentes [médicos, diretores de colégio, chefes de polícia, juízes] e instituições [igreja com bispos independentes, governo, bancos, escolas, fábricas] que quebraram o monopólio dos senhores de engenho, o que resultou não foi o fim do patriarcalismo, mas um patriarcado urbano[18] ou um “semipatriarcalismo”[19] – correlatos à transição da monarquia absoluta à constitucional –  não vencido pelos ricos moradores das cidades [Recife, Salvador, São Luis, Vila Rica, Rio de Janeiro, São Paulo: algumas destas, importantes apenas a partir do século XIX], geralmente mascates e negociantes de escravos, ainda no século XVII, e mesmo banqueiros, no XIX, e proprietários de atividades citadinas [fábricas de sabão, de vela, de pano, oficinas, lojas] – que, em uma sociedade ainda não verdadeiramente liberal, acostumaram-se às características do velho patriarcalismo, tais como a contemporização, a imitação romântica da vida sertaneja e da opulência dos engenhos, a acomodação entre patrão e empregado, rico e pobre, pai e filho, marido e mulher, branco e negro, público e privado. Eis mestiçagens desenvolvidas na rua, nos rituais religiosos, no mercado, nas escolas, no carnaval que permitiram uma “média”, um “padrão de cultura”[20] propriamente brasileiro[21]; já no século XIX, casamentos entre bacharéis pobres e mulatos com moças ricas e brancas tornaram-se frequentes, ex-escravos e mulatos aprenderam ofícios de manuseio e de reparo de máquinas e movimentaram-se socialmente em sentido vertical com a aprendizagem de ofícios anteriormente pertencentes a técnicos e artesãos estrangeiros – tais mulatos peritos [alguns seguiram carreira no exército ou tornaram-se bacharéis] formaram uma “classe média”[22] no século XIX . Tratam-se de relações de poder que estabilizam o domínio “semipatriarcal” de um grupo sobre outros também no período de transição monarquia-república:  o enclausuramento das mulheres dentro de casa e suas saídas permitidas apenas para irem à igreja [aprisionamento sofria a resistência pelo recebimento de mascates e de negras vendedoras de doces que especializavam-se em noticiar todo tipo de informações] são procedimentos patriarcais que reduzem a mulher à reprodutora e criadora de crianças, que evitam a concorrência com outros homens e mantém a moral [para a mulher, exigia-se a passividade característica à dos escravos] repressora para a divisão sexual do trabalho com atividades específicas para os sexos; na relação entre pai e filho, o semipatriarcalismo ensejava a aliança entre mãe e filho contra a disciplinarização rígida do pai; sobrados [que em Recife alcançavam até seis andares na primeira metade do século XIX] construídos nas cidades com quartos para criados – que dormiam na casa dos senhores[23] – em substituição/perenidade às senzalas, com móveis dispostos expressando a importância do patriarca, uma vez que a ele eram destinados as melhores cadeiras e à cabeceira da mesa, de onde o patriarca parecia localizar-se em um trono; a maioria dos escravos libertos e transformados em um proletariado incipiente continuava dependente à medida que os “mucambos”[24] e os cortiços eram constituídos de pessoas com um padrão de vida degradante que precisavam, para sobreviverem, se submeterem a toda sorte de biscates e trabalhos e/ou atividades ilegais; hábitos de republicanos ilustres que, nas vidas privada e pública [antigos conselheiros, barões e viscondes do Império colaboraram com os bacharéis da República e contribuíram com a nova administração[25]], eram idênticos aos dos homens monarquistas criticados por eles: ministros e deputados frequentavam os mesmos cabeleireiros, camiseiros, perfumistas, hotéis, teatros, confeiteiros, charutarias, os mesmos meios de transporte de tração animal, bebiam os mesmos vinhos, liam o mesmo Jornal do Commercio com artigos de defesa da ordem [desta vez republicana], lançavam mão da mesma retórica pedante para expressar qualquer ponto de vista[26]; em literatura, a recepção de Júlio Verne expressava o encanto de muitos pelo novo e pelo futuro, mas também continuava grande, no início da República, a recepção de José de Alencar e exaltação de valores pretensamente concernentes à tradição brasileira, como a autenticidade e a sinceridade próprias aos ameríndios[27]; republicanos que, a exemplo dos títulos nobiliários [conde, barão, duque] da extinta monarquia, mostravam-se à sociedade com títulos de bacharéis [na prática, considerados como doutores] ou militares[28] e cujos apelidos [Marechal de Ferro, Papai Grande, Papa Verde, Barão, Chefe, Conselheiro] expressavam o estilo monárquico-aristocrático de conduzir o governo pretensamente republicano[29];  a “anatomia política”[30] – para usar uma expressão de Foucault – que constituía as pessoas de hábitos correspondentes à classe a que pertenciam, tal como os gritos que os senhores davam às pessoas subservientes e estas falarem de modo brando e disciplinado com os senhores; Gilberto Freyre explicou a “simpatia”[31] do brasileiro, tão comum ao mulato [o grupo intermediário, também nas cidades industrializadas do século XX, entre os bairros nobres e as favelas e que, por isso, faz os dois pólos extremos se comunicarem], como uma amabilidade decorrente da atividade de servir, peculiar à escravidão, mas usada como tática de mobilidade social à medida que, contextualizado sob a necessidade da venda livre de trabalho, o brasileiro [e não somente o mulato] adotou a solicitude e o exagero em agradar como mecanismos de vencer o concorrente – a xícara de café, o tapinha nas costas, o riso fácil, o cumprimento com beijo logo no primeiro contato interpessoal, os oferecimentos de toda sorte e que incluem o da própria casa, o uso da linguagem com expressões no diminutivo para denotar carinho e familiaridade, em suma, simpatias que expressam a formação de uma intimidade cujo objetivo é encurtar a distância entre si mesmo e o grupo dominante, mas que guardam um quê de patriarcalismo. Por isso, em 1961, Gilberto Freyre, com sua Sociologia Genética, considerava que a desintegração do patriarcalismo era tão lenta que ainda era possível notá-lo nos hábitos e nas casas brasileiras[32]: tanto que foi pela “despersonalização das relações senhores e escravos”[33] pela via da transformação de engenhos em fábricas, da exploração de fazendas sem a presença do senhor, do comércio interno de escravos como se fossem animais e máquinas, fenômenos que redundaram em impessoalização das relações entre senhor e seus subservientes, que se constituem fatores explicativos de algumas insatisfações, tal como a Revolta de marinheiros contra a chibata, em 1910[34]. Sob o ponto de vista de duração ainda mais longa, como o empreendeu Sérgio Buarque de Holanda ao caracterizar a “cultura da personalidade”[35] peculiar  aos povos da Península Ibérica, pode-se observar que a ética nobiliária [glória, fama, honra cavalheiresca e palaciana][36], a valorização da pessoa e sua independência em relação a instituições estranhas a ela, como o Estado, contribuiu para ensejar um personalismo das famílias em detrimento de uma ordem rigidamente hierárquica, formal, mecânica e impessoal; tal personalismo se manteve em um contexto no qual mercadores ibéricos não encontravam resistências feudais tão fortes, ao contrário de outras regiões europeias, que os obrigassem a lutar por uma ordem social que substituísse a vigente, bastou a associação com os setores dominantes e a assimilação de seus valores – parte do personalismo brasileiro tem raízes ultramarinas e ainda sobrevive. Concernente a desintegração de tal personalismo, Sérgio Buarque de Holanda o considera como a uma “revolução lenta”[37] à medida que o agrarismo e o iberismo se confundem no Brasil e na América Latina e é pela decadência do mundo rural que o personalismo também decai; contudo, trata-se de um “processo demorado”[38], de “dissolução lenta”[39], uma vez que o caráter dependente do país, seja na era do pau-brasil ou na da acumulação financeira, não foi completamente vencido – personalismo e patriarcalismo não são superados sem o fim completo do colonialismo. Por isso, Sérgio Buarque de Holanda considerava que não havia nada mais parecido com um saquarema do que um luzia no poder e, hoje, de sua pena poderia sair que nada há de mais parecido com um tucano que um petista no poder. Mesmo a divisão técnica do trabalho peculiar à produção manufatureira, cuja especialização redundou em forte antagonismo de classes, assalariamento, administração formal e burocrática dos empregados, redução do trabalhador a um elemento impessoalizado na folha de pagamento, não foi suficiente para eliminar o personalismo que, há séculos, caracterizou o ethos[40] do brasileiro. Mesmo a urbanização não substituiu vínculos societários marcados pelo personalismo e pelo patrimonialismo centrados em relações familiares à medida que eles permearam a instituição estatal brasileira fazendo com que os funcionários da administração pública fizessem valer seus interesses pessoais em lugar do interesse público. Sérgio Buarque de Holanda, com a ideia de “homem cordial”[41], mostrou como uma administração burocrática pôde ser combinada com traços patrimonialistas: a impessoalização das formas puramente burocráticas ser anexada por interesses pessoais, familiares, sempre acima dos interesses impessoais [e da democracia] – cordialidade, portanto, antidemocrática, à medida que submete a lei pública a afinidades emotivas que aproximam as pessoas mais de umas do que de outras, viciosa, à medida que nenhuma disciplina organizacional a vence, barbarizante, à medida que a sucessão de medidas civilizatórias mostram-se derrotadas uma a uma.  À medida que tudo que parece ser democrático é, em verdade, acomodação de privilégios pessoais, a própria “democracia no Brasil foi sempre um lamentável mal-entendido”[42]. Também Roberto Damatta, em 1986, considera existir um englobamento de perfis liberal e tradicional no que se convencionou chamar de brasileiro e que persistiu, a despeito de todos os esforços industrializantes e modernizantes ocorridos no século XX: o mito do “encontro” entre as três raças, a relação entre regras constitucionais e as normas que ensejam a coexistência do liberalismo formal das leis com as normas pessoais [“Aos amigos tudo, aos inimigos a lei!” “Você sabe com quem está falando?” “Jeitinho”], as relações intermediárias entre o sólido e o líquido na alimentação [feijoada, peixada, cozido]… A rede de benefícios sociais, deveras antidemocrática, não foi eliminada, a despeito da democracia formal; a instrumentalidade, cuja característica é tirar vantagem de tudo e de todos, mesmo dentro do próprio círculo familiar, também não chegou ao fim, a despeito dos processos impessoais de produção e distribuição de mercadorias. Eis um complexo que denota o que Jorge Amado expressou, em Dona Flor e seus dois maridos, com a personagem principal, a metáfora do Brasil, escolhendo os dois maridos, e não apenas um dos lados da herança[43], o que Francisco de Oliveira resumiu com a expressão sociológica de que “a expansão do capitalismo no Brasil se dá introduzindo relações novas no arcaico e reproduzindo relações arcaicas no novo”[44]. Os correlatos antropológico e sociológico têm subjacência histórica em submissão do local ao global para provimentos de capital do primeiro para o segundo, como Florestan Fernandes já havia explicado em 1973[45]: os eixos agrário, industrial e financeiro arquitetaram o brasileiro com um ethos correlato penetrado por mais de quinhentos anos de história ainda não feita inteiramente pelas próprias mãos. E, ainda, sob a era do capital financeiro, na qual as relações entre o dinheiro e o poder [capital e estado] são tão estreitas e passam longe de interesses, verdadeiramente, democráticos, o que se reforça é o compadrio e o privilégio, não o republicanismo. Tal dinâmica, ao obrigar a “classe C” lançar mão de uma abnegada entrega ao trabalho árduo em busca da mobilidade social ascendente ou em busca da manutenção do status adquirido, reforça, em lugar de superar, o “oligarquismo”, o “patriarcalismo”, a “cordialidade”, o “jeitinho”: a necessidade do trabalho árduo e ininterrupto que leva a família da “classe C” a submeter-se às condições objetivas do capitalismo monopolizado, financeiro e toyotista que oferta cada vez menos oportunidades, inclina à habilidade prática de equilibrar-se sobre uma corda estreita para contornar toda a ordem de problemas. Jessé Souza mostra a vida de uma família do interior de Minas Gerais[46] que, não sendo aquela vida da clássica família nuclear burguesa, ilustra o que se procura, aqui, concluir [mesmo que o autor citado pense o tipo de trabalho desempenhado pela “classe C” como algo que corroa o instrumentalismo e o patriarcalismo, os argumentos apresentados por ele mostram a conciliação com a cultura patriarcal secularmente construída]: sacrifício individual materializado no controle das ações presentes diante da imprevisível conjuntura favorável ou desfavorável dos próximos meses e anos e diante da possibilidade de ofertar melhor escolarização para os filhos; sacrifício individual materializado na lembrança da carência do passado e o medo que ele retorne a qualquer momento; resignação diante da jornada de trabalho extenuante entre atividades formais e fugazes que redundam em trabalhos itinerantes [peculiares ao toyotismo] conciliados e intercalados com informais [tão comum para os trabalhadores da construção civil], temporários e irregulares, o que demanda um “jeitinho” para arranjar o dia-a-dia e, em termos de socialização primária, educa as crianças do lar tanto a este traço “brasileiro” de personalidade, como a um outro, o respeito “patriarcal” aos líderes [agora homem e mulher] provedores da família, a despeito da vida não ocorrer mais naquele velho engenho ou nos casarões dos barões do café – educa também à reprodução de uma classe que aprende a viver do trabalho duro e edifica uma moral da longa e dura jornada de trabalho, uma moral importante para a sobrevida do status quo; dependência de favores pessoais que mostram que o mandonismo local é persistente a despeito de regras novas e formais [como o crédito para as classes sociais não privilegiadas]; instrumentalização de familiares e de todo o capital social que circunda a pessoa para que esta atinja seus objetivos, o que denota a corrupção/colonização da esfera afetiva pela esfera econômica e a persistência da cordialidade como artifício de alcance de objetivos. Em tais fenômenos, há tanto algo que mina o “jeitinho” brasileiro como o que o perpetua: a “classe C” é mais um capítulo de conciliação entre o arcaico e o moderno; nela, há tanto a ética da abnegação pelo trabalho que reforça as relações impessoais típicas do par capital e trabalho quanto o reforço de dispositivos que driblam [com personalismo, patriarcalismo e jeitinho] as dificuldades impostas pela impessoalidade; há o que Darcy Ribeiro considera ser uma “marca indelével”[47] do legado da escravidão no que se pode chamar de brasileiro, a saber, o empreendimento da estratégia da cordialidade nos dominados para driblarem as dificuldades correlata à crueldade dos dominantes [cordiais entre si], que os tratam com brutalidade e continuam a reduzi-los a relações instrumentais[48], como os senhores reduziam seus escravos à “mó”[49] de um engenho; o mesmo autor ainda considera que por cordialidade não se pode entender que o brasileiro seja, por excelência, “pacífico”[50], uma vez que capítulos da História do Brasil, como a luta dos Cabanos, de Palmares, de Canudos, do Contestado e dos recentes protestos sociais de 2013 mostram que por motivação econômica, étnica, religiosa e social, o arcaico e o moderno arranham-se [e combinam-se], também, pelas vias de fato, uma vez que os vínculos societários estão constituídos de dominantes e dominados e, nem sempre, estes encontraram soluções com o cordial “jeitinho”, este seria também, e em verdade, um aspecto incipiente e potencial de um conflito maior e não o seu oposto [é impossível prever o que aconteceria se, por alguma crise ou pelo aumento da espoliação, em lugar dos atuais provimentos, o rendimento familiar da “classe C” retornasse aos antigos patamares do século XX], um “estado de guerra latente”[51], uma vez que seria a estratégia de vencer o outro e instrumentalizá-lo – os estratos subalternos lançam mão das armas da lascívia, da obsequiosidade, da solicitude, da prestimosidade, da adulação […] para evitarem problemas ou para recolherem mais migalhas das mesas dos estratos dominantes. São armas de defesa que o povo tropical, composto por crioulos de engenhos, caipiras submetidos às Bandeiras, à mineração e à produção de café, de sertanejos envolvidos com a pecuária, de caboclos coletores de borracha e de drogas da mata, de gaúchos e de imigrantes pastores e pequenos agricultores[52], encontrou para sobreviver em um destino não escrito por ele – composições variantes de um mesmo fio-condutor cuja característica é a pobreza e a heteronomia brasileiras[53]. Por que os atuais operários, empregados e desempregados, os trabalhadores dos setores primário e terciário, os batalhadores que sobrevivem sob a informalidade, os trabalhos temporários e sob o mito do empreendedorismo, os contingentes dependentes dos programas governamentais, não repetiriam a mesma estratégia patriarcal se também não são os autores de suas próprias histórias e continuam a repetir uma tradição secular de ser um povo aliciado e produtor de artigos planejados por empreendimentos exógenos e oriundos da metrópole do capitalismo, sejam estes artigos o pau-brasil ou os bens industrializados das atuais e gigantescas corporações, e que mantém o atraso e a posição colonial do Brasil e do brasileiro? Por que a elite abriria mão do seu mandonismo diante dos grupos dominados, tratando-os mais como castas ou estamentos[54] do que como pessoas de classes sociais diferentes, e deixaria de reproduzir o passado colonial no presente? Por que o patriarcalismo de dominantes e dominados terminaria de uma hora para outra se, entre os dominados, a carência e o arcaico são repostos e o desejo particular de superá-los corrói a formação do interesse universal pelo respeito à coisa pública e se, entre os dominantes, o que interessa é a manutenção dos privilégios particulares que coloniza o espaço público e esvazia a democracia[55] de qualquer significado substancial? Se ambos, dominados e dominantes, englobam[56] a rua [público] na casa [privado]? Por fim, seria uma ingenuidade estratosférica imaginar que nada há de pessoal nas relações impessoais à medida que estas são relações pessoais nas quais o que interessa para algumas pessoas está materializado, coagulado, ossificado como pretensamente natural e neutro e é a objetivação [institucionalizada] do domínio pessoal de uns contra outros – dominação higiênica é, ainda, dominação; com efeito, o quão mais impessoais, mais personalistas, patrimonialistas e ajeitadas são as relações sociais da “classe C” à medida que o que interessa para os lobos é praticado pelos cordeiros, o quão maiores e mais impessoais as regras de procedimentos de conduta, maior a anatomia política para aceitá-las ou para resistir a elas.

 

[1] Paulo Prado, em Retrato do Brasil, ainda insistira, na década anterior, em teses oriundas dos determinismos geográfico e biológico para explicar a “tristeza”, o “esgotamento” físico e mental , a “preguiça” e a “melancolia”  [“Numa terra radiosa vive um povo triste”] característicos ao brasileiro e as diferenças regionais que formavam também “traços indeléveis no caráter do brasileiro”: as chaves explicativas foram a combinação entre a “ambição e a sensualidade infrene” produtora de posterior tristeza, a “luxúria”, a “cobiça insaciável”, a “ardência do clima” de uma “contínua primavera”, a mestiçagem das “raças” desterradas que fez do Brasil um “purgatório” e que implica mais vigor para as primeiras gerações, mas que enfraquece as subsequentes [dos primeiros mamelucos fortes alcançou-se o atual “caboclo miserável” de considerável “fraqueza física”]. PRADO, P. Retrato do Brasil: ensaio sobre a tristeza brasileira. 10° ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 39 et seq. Antes mesmo de Paulo Prado, Euclides da Cunha, em Os sertões, lançara mão dos determinismos geográfico e biológico e considerara que o “meio” que isolou o português da Europa e a “mistura de raças” experimentada nos trópicos, deveras “prejudicial”, resultara, notadamente no interior do Brasil, ao homem “desgracioso, desengonçado, torto”, a saber, o “Hércules-Quasímodo”, permanentemente “fatigado”, de “preguiça invencível”. CUNHA, Euclides da. Os sertões. São Paulo: Abril Cultural, 2010, p. 138.

[2] PRADO JR. Caio. Formação do Brasil Contemporâneo: Colônia. São Paulo: Brasiliense; Publifolha, 2000, p. 294.

[3] FREYRE, G. Casa-grande & senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. 34° ed. Rio de Janeiro: Record, 1998, p. 04.

[4] PRADO JR. Caio. Formação do Brasil Contemporâneo: Colônia. São Paulo: Brasiliense; Publifolha, 2000, p. 295.

[5] FREYRE, G. Casa-grande & senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. 34° ed. Rio de Janeiro: Record, 1998, p. 04.

[6] Idem, p. 201.

[7] HOLANDA, S. B. de. Raízes do Brasil. 26° ed., São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 31.

[8] Idem, p. 32.

[9] […] Há séculos que em Portugal o mercantilismo burguês e semita, por um lado, e, por outro, a escravidão moura sucedida pela negra, haviam transformado o antigo povo de reis lavradores no mais comercializado e menos rural da Europa. No século XVI é o próprio rei que dá despacho não em nenhum castelo gótico cercado de pinheiros mas por cima de uns armazéns à beira do rio; e ele e tudo que é grande fidalgo enriquecem no tráfico de especiarias asiáticas”. FREYRE, G. Casa-grande & senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. 34° ed. Rio de Janeiro: Record, 1998, p. 23.

[10] HOLANDA, S. B. de. Raízes do Brasil. 26° ed., São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 53.

[11] A miscigenação aculturou os portugueses a hábitos aprendidos com os indígenas: “[…] Uma série de alimentos ainda hoje em uso, de drogas e remédios caseiros, de tradições ligadas ao desenvolvimento das crianças, de um conjunto de utensílios de cozinha, de processos de higiene tropical – inclusive o banho frequente ou pelo menos diário, que tanto deve ter escandalizado o europeu porcalhão do século XVI”. FREYRE, G. Casa-grande & senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. 34° ed. Rio de Janeiro: Record, 1998, p. 94.

[12] Idem, p. 243.

[13] Idem, p. 306.

[14] Idem, p. 288, 308

[15] Idem, p. 23.

[16] Idem, p. 51.

[17] HOLANDA, S. B. de. Raízes do Brasil. 26° ed., São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 82.

[18] FREYRE, G. Sobrados e mucambos: introdução à história da sociedade patriarcal no Brasil – 2: decadência do patriarcado rural e desenvolvimento urbano. 10º ed. Rio de Janeiro: Record, 1998, pp. 08, p. 22, p. 386.

[19] Idem, p. 111, p. 114, p. 122.

[20] Idem, p. XLVI.

[21] Gilberto Freyre comenta como alguns africanismos, além de não serem reprimidos com sucesso pelos brancos tornaram-se parte constituinte do brasileiro, e não apenas hábitos exclusivos de um grupo étnico: “[…] É curioso observar-se hoje […] que os descendentes dos bailarinos da navalha e da faca como que se vêm sublimando nos bailarinos da bola, isto é, da bola de foot-ball, do tipo dos nossos jogadores mais dionisíacos como o preto Leônidas; os passos do samba se arredondando na dança antes baiana que africana, dançada pela artista Carmem Miranda sob os aplausos de requintadas plateias internacionais; as sobrevivências do culto de Ogum e do culto de Alá dissolvendo-se em práticas marginalmente católico-romanas como a lavagem da Igreja de Nosso Senhor do Bonfim na Bahia, há pouco transferida para uma das igrejas do Rio de Janeiro”. Idem, pp. 522-523.

[22] Idem, p. 534.

[23] FREYRE, G. Ordem e progresso: processo de desintegração das sociedades patriarcal e semipatriarcal no Brasil sob o regime de trabalho livre: aspectos de um quase meio século de transição do trabalho escravo para o trabalho livre; e da monarquia para a república. 6° ed. São Paulo: Global, 2004, p. 445.

[24] “Os mucambos conservaram até hoje, na paisagem social do Brasil, a primitividade dos primeiros tempos de colonização. Neles foi-se refugiando o caboclo; refugiando-se o negro fugido; refugiando-se o preto livre. O próprio branco integrado na situação social de caboclo. […] O antagonismo agudo de qualidade de material e, principalmente, de zona ou situação da casa, se estabeleceria entre a casa-grande e a palhoça do morador livre – de tantas vezes mais difícil que a do escravo. Entre o sobrado e o mucambo de centro de cidade ou de subúrbio de capital. […] Estabeleceram-se desde então contrastes violentos de espaço dentro da área urbana e suburbana: o sobrado ou a chácara, grande e isolada, no alto, ou dominando espaços enormes; e as aldeias de mucambos e os cortiços de palhoças embaixo, um casebre por cima do outro, os moradores também, um por cima do outro, numa angústia anti-higiênica do espaço. Isto nas cidades de altos e baixos como o Rio de Janeiro e a capital da Bahia. No Recife os contrastes de espaços não precisaram das diferenças de nível. Impuseram-se de outro modo: pelo contraste entre o solo preciosamente enxuto e o desprezivelmente alagado, onde se foram estendendo as aldeias de mucambos ou casas de palha”. FREYRE, G. Sobrados e mucambos: introdução à história da sociedade patriarcal no Brasil – 2: decadência do patriarcado rural e desenvolvimento urbano. 10º ed. Rio de Janeiro: Record, 1998, p. 233.

[25] FREYRE, G. Ordem e progresso: processo de desintegração das sociedades patriarcal e semipatriarcal no Brasil sob o regime de trabalho livre: aspectos de um quase meio século de transição do trabalho escravo para o trabalho livre; e da monarquia para a república. 6° ed. São Paulo: Global, 2004, p. 627.

[26] Idem, pp. 333-334.

[27] Idem, p. 503.

[28] Idem, p. 536.

[29] Idem, p. 892.

[30] FOUCAULT, M. Vigiar e punir: história da violência nas prisões. 25° ed. Trad. De Raquel Ramalhete, Petrópolis: Vozes, 2002, p. 119.

[31] FREYRE, G. Sobrados e mucambos: introdução à história da sociedade patriarcal no Brasil – 2: decadência do patriarcado rural e desenvolvimento urbano. 10º ed. Rio de Janeiro: Record, 1998, pp. 08, p. 22, p. 644.

[32] Idem, p. CXI.

[33] Idem, p. 525.

[34] “Eram eles [os marinheiros], […] rapazes – quase todos negros e mulatos – para quem o serviço naval era simples meio de vida. Faltava a quase todos a mística do Brasil e sobretudo a da República: muitos dos ex-escravos e descendentes de escravos, dos quais esses rapazes descendiam, que viviam no Brasil ao proclamar-se a República eram devotos da princesa Isabel. Quando escravos, haviam sido beneficiados pela assistência patriarcal da parte das famílias a que serviam; depois de livres vinham sendo abandonados à sua própria sorte por um governo republicano cujos carinhos paternalistas passaram, depois de 88, a concentrar-se em torno dos imigrantes europeus para o Sul do País. Aprofundara-se assim entre eles, rapazes pobres de cor – quase todos do Norte – e os demais brasileiros, a distância social criada menos pela sua condição étnica que pela sua situação de descendentes de escravos abandonados tanto pelos velhos senhores dos seus pais como pelos novos senhores do País: os republicanos”. FREYRE, G. Ordem e progresso: processo de desintegração das sociedades patriarcal e semipatriarcal no Brasil sob o regime de trabalho livre: aspectos de um quase meio século de transição do trabalho escravo para o trabalho livre; e da monarquia para a república. 6° ed. São Paulo: Global, 2004, p. 880.

[35] HOLANDA, S. B. de. Raízes do Brasil. 26° ed., São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 32.

[36] “[…] A repulsa firme a todas as modalidades de racionalização e, por conseguinte, de despersonalização tem sido, até aos nossos dias, um dos traços mais constantes dos povos de estirpe ibérica. Para retirar vantagens seguras em transações com portugueses e castelhanos, sabem muitos comerciantes de outros países que é da maior conveniência estabelecerem  com eles vínculos mais imediatos do que as relações formais que constituem norma ordinária nos tratas e contratos”. Idem, p. 133.

[37] Idem, p. 171.

[38] Idem, p. 171.

[39] Idem, p. 180.

[40] FREYRE, G. Ordem e progresso: processo de desintegração das sociedades patriarcal e semipatriarcal no Brasil sob o regime de trabalho livre: aspectos de um quase meio século de transição do trabalho escravo para o trabalho livre; e da monarquia para a república. 6° ed. São Paulo: Global, 2004, p. 37.

[41] HOLANDA, S. B. de. Raízes do Brasil. 26° ed., São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 146.

[42] Idem, p. 160.

[43] DAMATTA, R. “Para uma Antropologia da tradição brasileira” In: Conta de mentiroso: sete ensaios de antropologia brasileira. Rio de Janeiro: Rocco, 1993, p. 130 et seq.

[44] OLIVEIRA, F. de. Crítica à razão dualista; O ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003, p. 60.

[45] “Com a eclosão e a consolidação de um mercado capitalista moderno, a gradual expansão de um sistema de produção capitalista e a formação de uma nova ordem econômica, social e política fundada na existência e no predomínio das relações de classe, acentuou-se a perda de importância relativa dos componentes dinâmicos tradicionais. Eles só não foram confinados a certas relações de caráter muito geral [no comportamento econômico, familial, religioso, político etc.], destituídas de significação histórica, porque a descolonização não se processou segundo ritmos históricos intensos e de forma completa. À medida que a própria ordem social competitiva retinha e dinamizava certas estruturas e funções de natureza tradicional, a dominação tradicionalista [não só ao nível das elites, mas com significado histórico somente nele] continuava a preencher influências dinâmicas em ações e relações orientadas estamentalmente, bem como em ações e relações de classe [embora como mero elemento estrutural e dinâmico de reforço, persistente por anacronismo]”. FERNANDES, F. Capitalismo dependente e classes sociais na América Latina. Rio de Janeiro: Zahar, 1973, pp. 73-74.

[46] “Paulo, pedreiro, trabalha ‘por conta própria’ desde a década de 1990, quando teve a sua carteira de trabalho assinada pela última vez; ele não tem ‘patrão’, é seu próprio capataz. A entrada definitiva de Paulo ‘no universo dos autônomos’ coincide, de forma muito sintomática, com a ascensão do modo de acumulação flexível, típica da dominação do novo capitalismo financeiro, em que o controle do trabalho passa a ser cada vez menos regulamentado por leis e contratos, e frequentemente o trabalhador passa a exercer o controle sobre a sua força de trabalho, reduzindo o seu custo. Há um crescimento exorbitante do ‘trabalho autônomo’ principalmente nas áreas de serviços. Inicialmente trabalhador da construção civil, com o tempo passa a prestar serviços como pedreiro. Mas Paulo sempre esteve, marginalmente, inserido na classe trabalhadora tradicional, já que a função de pedreiro é, geralmente, dentro das empresas, temporária e irregular. Por isso ele sempre trabalhou ‘por fora’, mesmo quando estava empregado fazia dupla jornada, complementando o salário com uma renda extra retirada em noites de ‘trabalho duro’. A sua rápida, total e relativamente bem-sucedida inserção no ‘mercado autônomo’ se deve à ‘disposição’ incorporada, ou seja, inclinação tornada corpo, desde a infância, para o trabalho duro, que permitiu a ele adaptar a uma dupla jornada [diurna e noturna], trabalhando cerca de 15 horas diárias”. SOUZA, J. Os batalhadores brasileiros: nova classe média ou nova classe trabalhadora. 2° ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2012, pp. 128-129.

[47] RIBEIRO, D. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 108.

[48] “A classe dominante bifurcou sua conduta em dois estilos contrapostos. Um, presidido pela mais viva cordialidade nas relações com seus pares; outro, remarcado pelo descaso no trato com os que lhe são socialmente inferiores. Assim é que na mesma pessoa se pode observar a representação de papéis, conforme encarne a etiqueta prescrita do anfitrião hospitaleiro, gentil, generoso diante de um visitante, ou o papel senhorial, em face de um subordinado. Ambos vividos com uma espontaneidade que só se explica pela conformação bipartida da personalidade. A essa corrupção senhorial corresponde uma deterioração da dignidade pessoal das camadas mais humildes, condicionadas a um tratamento gritantemente assimétrico, predispostas a assumir atitudes de subserviência, compelidas a se deixarem explorar até a exaustão. São mais castas que classes, pela imutabilidade de sua condição social”. Idem, p. 199.

[49] Idem, p. 106.

[50] Idem, p. 152.

[51] Idem, p. 153.

[52] Idem, p. 246.

[53] Idem, p. 389.

[54] FERNANDES, F. “As mudanças sociais no Brasil” In: Florestan Fernandes: Sociologia. São Paulo: Ática, 2008 [Col. Grandes Cientistas Sociais], p. 150.

[55] CHAUÍ, M. “Uma nova classe trabalhadora” In: SADER, E. [Org.] Lula e Dilma: 10 anos de governos pós-neoliberais. São Paulo/Rio de Janeiro: Boitempo/ FLACSO, 2013, p. 132.

[56] DAMATTA, R. A casa e a rua: espaço, cidadania, mulher e morte no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1985, p. 14.

A “CLASSE C” VAI AO PARAÍSO? A ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL DO BRASIL NO INÍCIO DO SÉCULO XXI [PARTE H]

1 de maio de 2014

XXI

 

O que fazer contra o frenesi consumista que, no limite, resulta em transtornos compulsivos, endividamento desenfreado, dependência de jogos eletrônicos e de medicamentos, bulimias, obesidades…? A ideia de que vale a pena consumir o que faz bem a si mesmo e não o que faz mal, o que é socialmente exigido do membro da “classe C” e o que é socialmente estabelecido como “bem”, faz com que o singular mimetize o todo, colocando o primeiro em subserviência em relação ao segundo.  Ademais, a própria ideia de bem é colonizada pelo consumo à medida que é considerada como um artigo a mais a ser adquirido: técnicas de desenvolvimento pessoal, sabedorias orientais, livros de autoajuda, alimentos para o equilíbrio mental e corporal, guias estéticos, medicalização da existência [pílula da felicidade, psicotrópicos em geral, cirurgias plásticas] compõem o que a indústria oferta para o consumo em massa – trata-se de um despotismo do bem-estar que inculca remorso em quem não se sinta bem e de uma “indústria do medo”[1] que combate as ansiedades pela comercialização de artigos e pela submissão a especialistas com saberes pretensamente amortecedores do mal-estar generalizado. Caso o membro da “classe C” perceba tal colonização e decida apartar-se de tudo o que se aproxime da fruição, da satisfação corporal, das pulsões e do irracional, acreditando-se mais feliz se se orientar por sua autonomia que redunde em virtude e liberdade interior, termina, contudo, submetendo as necessidades e os prazeres à moral resignada e automutiladora. Caso pense sua libertação pela mediação da hipertrofia da espiritualidade, o membro da “classe C” também cava a própria cova à medida que o neocristianismo, adaptado à era do consumismo, valoriza mais a felicidade intramundana e os valores como a solidariedade, o amor, a harmonia, a paz interior e realização pessoal do que a antiga provação, o sacrifício e a renúncia[2] – mesmo as atividades religiosas, cristãs ou não, foram mercantilizadas como nichos específicos a serem explorados pelo supermercado religioso composto de livrarias, indústrias fonográficas, salões de exposição, artigos de vestuário, cursos e turismo religioso que ofertam, incessantemente, promessa de novas sensações tais como aquelas apregoadas por quaisquer mercadorias apresentadas pela indústria publicitária [alimentos, carros, artigos de higiene etc]; contudo, a exuberante quantidade de artigos religiosos a serem consumidos empreende a vertigem e a ansiedade, em lugar da paz espiritual, à medida que logo se torna obsoleta em relação a outros artigos da indústria religiosa que profanam as mercadorias já consumidas em nome do caráter sagrado daquela a consumir. Como as liturgias agora valorizam os sentidos à medida que sacerdotes e seguidores cantam e dançam, como no neopentecostalismo e no catolicismo [Renovação Carismática], a mercantilização é facilitada e, assim, anula o amor, a harmonia, a paz interior e a realização pessoal à medida que joga o bom cristão na luta encarniçada pela aquisição de mais “bens”. Notadamente no neopentecostalismo, nota-se a afinidade eletiva com o espírito de alcance do bem pelo consumo e com o capitalismo periférico sob a era toyotista e financeira[3]: massas de desempregados, subempregados, imigrantes rurais recém-chegados às cidades, ansiosos pela promessa de futuro, consomem identificações com exemplos mágicos do presente para anteciparem o lugar que pensam estar reservado a eles em algum momento e, para tal, contam com a proximidade de sacerdotes capilarizados [tal como o setor de serviços formal e informal que se desenvolveu capilar e horizontalmente nas cidades] também nos bairros mais inacessíveis graças à visão celular da igreja neopentecostal e do modo como ela não coloca entrepostos de mediação entre o crente e seu deus; com efeito, o convertido à igreja compra um estilo de vida garantidor de segurança contra a mobilidade social descendente – quando a socialização primária não estruturou condutas peculiares a formigas, e sim a cigarras, a igreja, como agência de socialização secundária, vende-as, acoplando religião e família ressocializada à medida que o convertido é inclinado a repetir em todos os âmbitos de sua vida os exemplos que encontra nas células da igreja e que são compatíveis com as exigências do status quo, tal como a resignação em trocar o prazer pelas jornadas extenuantes de trabalho insípido que pretende dar segurança ao convertido – e quando ele, de fato, cai, tal como quando entra nas fileiras do desemprego, abriga-se na rede de proteção familiar da qual agora faz parte, uma vez que seu capital social não é o dos desclassificados, mas o das famílias celulares que ofertam, a exemplo de uma previdência social privada, provimentos básicos e que mostram, mais uma vez, a relação estreita entre o neopentecostalismo e a atual “classe C”. Caso a estratégia do membro da “classe C” seja, outrossim, blindar-se do consumo com as esferas da amizade e do amor, transporta para elas a lógica da qual procura escapar: o ideal de felicidade a dois é alvo da indústria publicitária e contribui para construir nas pessoas a necessidade de viver em casal constituído, as amizades e os amores particulares mostram-se colonizados pelo universal alienado e alienante, promovendo, como no casamento, a redução de um à propriedade do outro, tal como uma mercadoria ao ser apropriada pelo consumidor, e a diminuição do número de casamentos em âmbito mundial e o aumento do número de divórcios mostram o compasso com a preferência pelas estratégias temporárias do consumidor atual [vincado mais pela publicidade estimuladora de novas sensações do que pelas sanções normativas como a do que “até que a morte os separe”, conforme argumentou Bauman[4]], mais acostumado a uma multiplicidade de produtos e marcas e menos dependente de um único produto, loja e marca [em âmbito nacional, os números apontam maior rotatividade ente os casais, com aumento do número de divórcios, e aumento da idade média com que homens e mulheres se casam[5]]; expressa o fenômeno o número desenfreado da indústria pornográfica [mais de 11 mil filmes no mundo em 2004 e um grande número de sites pornográficos na internet (1,6 milhão[6]), embora o setor tenha começado a viver uma crise que o obrigou a substituir a tradicional venda de filme pornográfico pela interação característica à rede mundial de computadores[7]] que não se limita apenas a sex-shop e a revistas especializadas: à medida que a sexualidade invade todos os horários e lugares, a diferença entre produtos e programas para “adultos” ou para a “família” são de difícil demarcação – por mais rígido que seja o material que constitui a blindagem, ele continua sendo permeável; os particulares continuam dentro do universal. Mobilizados pelos anúncios e convencidos de que precisam de muitas coisas, os membros da “classe C” precisam trabalhar cada vez mais, e nunca menos, para adquirirem dinheiro para o consumo e, assim, longe do lar, compensam a ausência com a compra de presentes nas datas sazonais [páscoa, dia das mães, dia dos namorados, dia dos pais, natal…] ou em qualquer momento; contudo, a estratégia não dá resultado à medida que, a despeito do espasmódico momento da entrega do presente, a exaustão da longa jornada de trabalho coloniza o lar com a impaciência do mercado e transfere para o primeiro a impaciência do segundo: falta habilidade para solucionar os diversos conflitos da vida em família e a edificação de tal habilidade sequer é vista como importante, o que está no primeiro plano é a necessidade sisífica e tantâlica de trabalhar, acumular dinheiro e consumir.

 

XXII

O membro da “classe C” possui um “eu” suficientemente equipado para dizer não? Freud, na Viena da primeira metade do século XX, para explicar a constituição e a característica do aparelho psíquico do indivíduo, argumentou com duas hipóteses complementares. Ontogeneticamente, a estrutura mental, então dividida em id, ego e superego, constituía-se de pulsões primárias, do id, sublimadas pelas duas outras partes e redirecionadas para dentro pela última, processo do qual emergiram o complexo de Édipo, a consciência, o sentimento de culpa, a necessidade de autopunição e a extensa série de patologias psíquicas da era liberal. Contudo, a mesma estrutura mental modificou-se, de acordo com Marcuse em Eros e civilização, na era dos monopólios, para uma divisão em apenas duas partes, uma vez que o ego foi corroído: como os “indivíduos” se formam não mais sob o controle do pai provedor e da sua empresa familiar – no Brasil, fenômeno intumescido pelo contexto da família patriarcal vigente até o século XIX –, mas sob os monopólios e instituições gigantescas, eles se mimetizaram a elas para o alcance da autopreservação – a produção e a distribuição em massa formaram, também, pessoas com um superego pré-formado e com um ego encolhido a ponto de serem administradas e controladas de tal forma que se limitam à “escolha” automática entre as mercadorias disponibilizadas no mercado. A socialização, na era liberal, ocorria na luta entre a criança e o pai e deste confronto a primeira formava sua personalidade; sob a era dos monopólios, ocorre a administração direta da sociedade e sem luta entre ela e os “indivíduos”; por isso, enfraquece de tal maneira o ego que este não se diferencia mais do id ou do superego, transformando o antigo indivíduo em um átomo social [que, reunido a outros átomos, forma a massa] sem a menor capacidade crítica, uma vez que está mimetizado com a sociedade e não vê a menor necessidade de empreender uma sociedade diferente [algo psiquicamente impossível de conceber para o átomo, uma vez que está fundido]. Filogeneticamente, Freud expôs uma metapsicologia que mostrou a vereda hipotética da constituição da civilização ocidental: a antiga dominação do pai sobre os membros da família, a rebelião dos filhos, a edificação do matriarcado, a contrarrevolução patriarcal e a institucionalização do sentimento de culpa e da autopunição, uma vez que as pulsões de morte introjetadas tencionaram o superego inflacionado contra o ego e promoveram o retorno do reprimido – todos estes capítulos da filogênese freudiana tinham a carência como pano de fundo. Mas a antiga família burguesa foi substituída, na era dos monopólios, por agências de educação que controlam diretamente o “indivíduo” desde o berço e mudaram o quadro da filogênese freudiana: a escola, a indústria do entretenimento com a mídia e o tempo absurdamente grande que ela dedica ao esporte e aos clichês culturais, os bandos de jovens, os clubes e as associações, os jogos eletrônicos e a internet, em suma, todas as agências de socialização extrafamiliar, operam uma socialização direta da sociedade sobre um ego que, ainda não desenvolvido completamente e cooptado desde cedo, torna-se enfraquecido e adere automaticamente à sociedade e que, ao substituir o pai restritivo pelo pai permissivo [o consumo], pereniza a infantilização à medida que o ego não se forma completamente e exige a [falsa] satisfação pelo consumo [meio transformado em fim] incessantemente e em contato direto com o id e com o superego, eternizando a carência. Ir à escola, teclar on, start, play, enter, fazer um download, gritar gol, reunir amigos para ir ao shopping é dizer sim à sociedade e não à antiga família liberal, mas não se trata de um sim e de um não após reflexão crítica, tal como pediam Rousseau ou Kant, e sim um sim e um não automáticos e sem a mediação do próprio Eu, uma vez que não se trata apenas de uma suspensão temporária do superego em nome da fruição individual, mas como um superego autômato e formado desde tenra idade que dita o que é aprazível e que exige “dessublimações repressivas”[8] que acorrentam o particular ao geral, conforme Marcuse argumentou. Reunidos, os átomos sociais não formam uma comunidade, mas uma massa que perverte a individualidade. A erosão do “eu” que a Teoria Crítica esforçou-se em mostrar ao longo do século XX, não exclui, no século XXI, a “classe C” à medida que, identificada ao status quo que é diferente daquele da carência absoluta ou semiabsoluta, está organizada e administrada sobre uma base material também monopolista e ainda mais produtora de heteronomia, uma vez que o capitalismo financeiro subtrai de todas as outras personagens a decisão acerca das veredas a tomar. A expressão de Adorno permanece atual e, agora, também inclui o Brasil: “Em muitas pessoas já é um descaramento dizerem ‘Eu’”[9]. O que evita a ruína absoluta é que, na mesma expressão, Adorno teve o cuidado de dizer “em muitas pessoas”, e não todas: há quem consiga mesmo dizer “não” – e não apenas por limitação orçamentária, mas por decidirem não se deixar cooptar pelo consumismo e pelo império do efêmero. Se forem anticonsumistas militantes, como o são alguns grupos contraculturais, de um lado, ao consumirem indumentárias que garantem distinção em relação e oposição aos demais, também se tornam consumistas das mesmas e público-alvo de um nicho de mercado específico; de outro, são imediatamente vistos como uma “sujeira”[10] que corrompe a pureza dos templos de consumo tradicionais, como “estranhos”[11] a serem expurgados e denunciados pelas câmeras de vigilância, alarmes eletrônicos e seguranças armados, ademais, contra eles e qualquer espécie de delinquentes, os consumidores comuns, átomos sociais, procuram se proteger e se tornarem impermeáveis à medida que erguem seus muros, eletrificam-nos com cercas de segurança, apartam-se em condomínios-guetos, transitam em carros repletos de engenhocas de segurança – trata-se de um totalitarismo contra os elementos residuais que arranham, turvam e poluem a pureza de uma sociedade que se pretende consumista e, por isso, a velha estratégia de isolar, como a dos campos de concentração, pulsa dentro do mercado livre [totalitário].

 

[1] BAUMAN, Z. “A sociedade do medo” In: Capitalismo parasitário: e outros temas contemporâneos. Trad. de Eliana Aguiar, Rio de Janeiro: Zahar, 2010, p. 74.

[2] LIPOVETSKY, G. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. Trad. de Maria Lucia Machado, São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 131.

[3] “O elemento que dá liga e em parte explica o sucesso dessa religiosidade é a sua sintonia com um habitus de classe comum. É a partir da formação de uma classe social [e suas frações] que se marcou o desenvolvimento do capitalismo na periferia, que o destino dos batalhadores e do pentecostalismo começa a se encontrar. E quanto a isso as velhas narrativas sociológicas e seus principais conceitos não conseguem abranger todo esse universo. Os modelos religiosos e ideológicos tradicionais eram produtos moldados para o consumo das clivagens tradicionais de classe, ou seja, a burguesia e o proletariado, este último até então como a classe urbana também trabalhadora, porém não integrada ao modelo de mercado de trabalho fordista. Assim, o desafio de se perceber a relação do pentecostalismo com a classe social é o de perceber a existência de uma classe que tradicionalmente foi concebida como uma subclasse, com um papel coadjuvante na dinâmica da vida social, ou mesmo associada equivocadamente a categorias como pré-moderno, atrasado, como se estas fossem resíduos de vestígios tradicionais que desapareceriam frente à expansão da modernização”. SOUZA, J. Os batalhadores brasileiros: nova classe média ou nova classe trabalhadora. 2° ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2012, p. 314 et seq.

[4] BAUMAN, Z. O mal-estar da pós-modernidade. Trad. de Mauro Gama, Cláudia Martinelli Gama. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 185.

[5] Disponível em: http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2011/11/30/casamentos-aumentam-mas-homens-e-mulheres-preferem-casar-mais-tarde.htm . Acesso em: 16-07-2012.

[6] LIPOVETSKY, G. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. Trad. de Maria Lucia Machado, São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 242.

[7] Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/multimidia/videocasts/1063497-em-crise-industria-porno-se-reinventa-para-nao-morrer.shtml . Acesso em: 16-07-2012.

[8] “MARCUSE, H. One-dimensional man: studies in the ideology of advanced industrial society. 2° printing. London/New York: Routledge, 2002, p. 59.

[9] ADORNO, T. Minima Moralia: reflexões a partir da vida danificada. 2° ed. Trad. de Luiz Eduardo Bicca, São Paulo: Ática, 1993, aforismo 29, p. 42.

[10] BAUMAN, Z. O mal-estar da pós-modernidade. Trad. de Mauro Gama, Cláudia Martinelli Gama. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 23.

[11] Idem, p. 27.

A “CLASSE C” VAI AO PARAÍSO? A ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL DO BRASIL NO INÍCIO DO SÉCULO XXI [PARTE G]

1 de abril de 2014

XIX

Se, a despeito da deterioração de suas faculdades, o membro da “classe C” conseguir perceber que consumo e felicidade não são identitários e, ainda, discernir que o prazer de consumir algo não é, necessariamente, um bem – procedimento semelhante, mutatis mutantis, ao feito por Platão, quando mostrou que a culinária redundava em prazer, mas a medicina em bem [Górgias, 499d] –, mas forma de controle social, o que pode fazer? Ao notar que todos os espaços são planejados para cooptá-lo [aeroportos, estações de metrô, trem e ônibus, hospitais, postos de gasolina, universidades, escolas, praias (há duzentas mil pessoas que trabalham em “negócios de praia ou “economia de praia” nas praias da capital do Rio de Janeiro[1]), campings são, cada vez mais, também centros comerciais; antigos centros de produção industrial são recuperados, transformados e estetizados para espetáculos, festas temáticas e festivais de toda ordem, antigas instalações industriais tornam-se shopping-centers; a indústria do turismo reduz a circulação de pessoas à mercadoria e corrompe os mais diversos lugares como valor-de-troca e, de tal forma, dissolve-os do seu antigo elemento distintivo à medida que o enclausura no formato de centro comercial], o que o membro da “classe C” pode fazer, supondo que não queira ser capturado pelo fundamentalismo econômico, se seja onde for, irá para o mesmo, uma vez que o espaço foi homogeneizado[2], se lugares foram corrompidos, para usar a expressão de Marc Augé, em “não-lugares”[3] [ambientes que aceleram a circulação de pessoas, tais como vias de trânsito rápido, meios de transporte de grandes cidades com seus pontos de embarque e desembarque que reúnem multidões que não se relacionam, estacionamentos, grandes centros comerciais e supermercados, bancos, clínicas e hospitais, hotéis, campos de refugiados e que em nada contribuem para a formação da identidade e de relação entre as pessoas, em lugar das relações sociais diretas, os não-lugares são ocupados por multidões de átomos sociais solitários subservientes a toda sorte de imperativos: pare, desvio à direita, 110km, não ultrapasse a linha amarela, banheiro, não fume, caixa preferencial, silêncio] veiculadores dos mesmos anúncios e mercadorias e regulados por relações contratuais, tais como a posse de dinheiro, cartão de crédito, passaporte, vestimenta correlata ao ambiente etc? Se o espaço humano é anti-humano à medida que tenta cooptar o homem[4]? Se, no “não-lugar”, tudo está mediado pelo mercado, a comunicação humana somente pode ser uma “não-fala”[5]: correlata às formas mercantis de espaços, a comunicação também não  seria mercantilizada à medida que não ultrapassa o vazio de uma small talk limitada à reprodução da idiotia dos imperativos e da indústria cultural e que, assim, corromper-se-ia em anticomunicação? Mesmo os espaços que são diferentes [diferentes?] de todo o resto, somente os são por serem marcados por uma “arquitetura rentista”[6] reduzida à publicidade e ao entretenimento em meio ao cinza das megacidades: para alcançarem uma exclusividade decorrente da situação monopolística de um capital específico que valoriza-se ainda mais pela circulação da imagem arquitetônica divulgadora de uma marca, prédios são construídos para fazerem referência à marca e veicularem o próprio monopólio mediante o capital simbólico gerado, espetacularizando o capital para além da mercadoria produzida por ele e criando valor na própria marca de modo independente dos objetos produzidos para serem consumidos como mercadorias – trata-se de uma arquitetura que colabora em criar um sobrevalor a ser pago pelos consumidores daquela marca. E mesmo aquele que visita lugares na expectativa de colaborar com a luta social dos que vivem à margem das benesses do capitalismo, colabora com a redução da luta social a um nicho de mercado como outro qualquer e, assim, emaranha-se ainda mais na rede da qual quer fugir: o turismo em favelas, como o que ocorre na Rocinha [RJ], aquece a economia de centros de comércio de souvenirs e faz de locais específicos da favela, como a Rua 1 da Rocinha, a encenação de como é a vida no morro – agências de turismo especializadas no passeio cobram U$ 35,00 para este reality tour, uma mercadoria que vende a pobreza como artigo turístico[7].

XX

O que fazer em relação ao tempo subvertido para cooptá-lo [lojas abertas aos feriados, aos domingos e à noite; cinemas funcionando no período matutino e na madrugada; colonização da hora do almoço pelas contas a pagar e a fazer; alimentação em tempo incrivelmente rápido em redes de fast food; compras pela internet e pelo telefone; festas religiosas como páscoa ou natal reduzidas a consumo de artigos sazonais; consumo de gadgets que prometem economia de tempo, como uma máquina de lavar roupas que economiza o tempo da lavagem para que a pessoa possa usá-lo com o consumo de publicidade na televisão e na internet], impondo o hedonismo do presente em relação ao passado e ao futuro [mesmo a relativização do tempo presente é absorvida pelo mercado à medida que resorts, spas, espaços para relaxamento, excursões também são valores-de-troca]? O que fazer para se conseguir pensar temporalmente se o membro da “classe C” não desfrutou de tempo para gozar da infância livre totalmente do trabalho, do planejamento da vida marcado pela duração do tempo escolar e universitário livres totalmente do trabalho, se teve de abrir mão do que sonhou para vencer a pressão do cotidiano e, assim, submeter-se à aprendizagem e à atividade técnica e pragmática que ofertam maiores chances de ocupação assalariada? O que fazer sob o tempo que, de acordo com Debord[8], é a-histórico e, por isso, milita contra a mudança? Para consumir mercadorias, o membro da “classe C” vende seu trabalho [e seu tempo como tempo de trabalho], submete-se ao cronômetro da produção e às coisas que produz, desapossa-se de si mesmo, fragmenta seu horário, repete diária e perenemente o ritual de trabalhar-consumir em um eterno retorno do mesmo. Também o presente não estaria ameaçado à medida que o consumo e o crédito, ao anteciparem a próxima compra de maneira cada vez mais rápida, diminuem o intervalo entre o presente e o futuro? E com o tempo a-histórico, também a memória não estaria corroendo-se à medida que a repetição ininterrupta de uma mesma multidão de coisas, todas sem importância e rapidamente esquecidas, transformam-na em uma espécie de “fita de vídeo” disponível para ser apagada e gravada com outras imagens, conforme argumentou Bauman[9]? Colonizado como valor de troca, é preciso considerar que o tempo que se diz “livre” não o seja, verdadeiramente: se é cronometrado em semanas, dias, horas, se é conquistado após o último ano de trabalho, se é um investimento conquistado e se se deve gastá-lo com o máximo de eficácia, se é um artigo de luxo que se goza para expressar distinção sobre os demais, não se trata de “tempo livre”, mas de “tempo constrangido”[10] – expressão bem pensada por Baudrillard – por ser uma mercadoria, por transferir as normas do trabalho para o “tempo de lazer”, colonizando-o com o cálculo [do próprio tempo], com a impossibilidade de perder tempo, à medida que a maximização de atividades torna o turista subserviente ao pacote de férias consumido como uma das mercadorias de que é proprietário e, por isso, deve gastá-la com eficácia otimizada. Com o fim da possibilidade autônoma de simplesmente perder tempo, a obediência do trabalho é transportada para o “tempo livre”, corrompendo-o. A despeito do aumento da expectativa de vida, a “superabundância de acontecimentos do mundo contemporâneo”[11] parece deteriorar o tempo das pessoas e, assim, elas parecem sentir-se com menos, e não com mais tempo. Mesmo colecionar coisas, fazer artesanato, pescar […] são atividades enquadradas sob a divisão do trabalho e o constrangimento que o mercado impõe e que, assim, subtraem a satisfação: o artesão e o turista que consideram “usar seu tempo livre” não conseguem abandonarem-se a si mesmos e, assim, não conseguem nem a autonomia e nem satisfação, conseguem apenas gastar, investir, ou demonstrar riqueza mediante o valor de troca “tempo livre” não-livre. Uma pesquisa de 2006 acerca de hábitos alimentares urbanos no Brasil, e analisada antropologicamente por Lívia Barbosa [aqui reanalisada sem o mito antropológico-liberal da individualidade blindada como uma mônada leibniziana], mostrou que a família, com suas alimentações sequenciais, tem sua sociabilidade pervertida à medida que seu tempo é colonizado pelo tempo do que vem de fora: durante a semana, o café da manhã é feito de modo colonizado pela pressa que as outras atividades demandam [“Eu vou tomando café e arrumando minha filha (Mulher, renda C)”[12]], quando se trata de um café da manhã de negócios, subtrai o participante de seu círculo familiar e o coloca em uma refeição na qual o negócio invadiu e eliminou sua vida privada e quando, outrossim, um café da manhã é partilhado pela família, ao fim de semana, em uma padaria sofisticada, trata-se de uma atividade peculiar aos estratos sociais mais elevados, não à “classe C”; no almoço, a característica de alimentação sequencial permanece à medida que uma mãe espera um filho terminar de comer para deixá-lo, em seguida, na escola, que caracteriza-se por um entra-e-sai de pai, mãe, filhos, avós, netos, diaristas que muito falam, mas pouco conversam, e fazem a refeição não como atividade de lazer e de relaxamento, mas de acordo com o tempo que as atividades exteriores ao lar exige, que membros da família são obrigados a almoçarem fora de casa por conta do trabalho, que mesmo o almoço de domingo, uma fugaz vitória sobre a sequencialidade, é o início da tristeza resultante da proximidade da segunda-feira e que aumenta conforme o dia se aproxima do fim; no jantar, a sociabilidade da família tem a forte concorrência da televisão [ligada em 69% dos lares[13], e também dos computadores e dos pratos feitos na cozinha e conduzidos para os quartos] durante a refeição e que coloniza os assuntos da conversa familiar e que, assim, deixa de ser privada, livre e independente da indústria cultural, notadamente em estratos de renda mais baixa, uma vez que a televisão é um veículo de comunicação consumido mais extensa e intensivamente, a sequencialidade da alimentação também continua em famílias que têm membros que chegam mais tarde do trabalho ou de escolas e universidades, dificultando as conversas afetivas a respeito de como foi o dia. Se, por um lado, a “classe C” brasileira está longe do grau de consumo das classes médias norte-americana e dos países ricos da Europa, ela está próxima do constrangimento que passa para manter seu padrão de vida: falta tempo para todas.


[1] CORRÊA, S. B. “Lazer, trabalho e sociabilidade na praia de Copacabana” In: BARBOSA, L.; PORTILHO, F.; VELOSO, L. [Orgs.] Consumo: cosmologias e sociabilidades. Rio de Janeiro: Edur; Mauad X, 2009, p. 135.

[2] DEBORD, G. A sociedade do espetáculo. Tradução de Estela dos Santos Abreu, Rio de Janeiro: Contraponto, 1997, aforismo 165, p. 111.

[3] AUGÉ, M. Los no lugares: una Antropología de la sobremodernidad. Trad. de Margarita Mizraji, Barcelona: Gedisa , 2004, p. 40.

[4] DURÃO, F. A. “Da superprodução semiótica: caracterização e implicações estéticas” In: DURÃO, F. A.; ZUIN, A.; VAZ, A. F [Orgs.]. A indústria cultural hoje. São Paulo: Boitempo, 2008, p. 46.

[5] RAMOS DE OLIVEIRA, N. “Comunicação num mundo distópico: small talk – conversas vazias” In: DURÃO, F. A.; ZUIN, A.; VAZ, A. F [Orgs.]. A indústria cultural hoje. São Paulo: Boitempo, 2008, p. 130.

[6] ARANTES, P. F. “A renda da forma na arquitetura da era rentista” In: OLIVEIRA, F.; BRAGA; R.; RIZEK, C. [Orgs.] Hegemonia às avessas: economia, política e cultura na era da servidão financeira. São Paulo: Boitempo, 2010, p. 164.

[7] FREIRE-MEDEIROS, B.; MENEZES, P.; NUNES, F. “Consumindo a favela carioca” In: BARBOSA, L.; PORTILHO, F.; VELOSO, L. [Orgs.] Consumo: cosmologias e sociabilidades. Rio de Janeiro: Edur; Mauad X, 2009, p. 120 et seq.

[8] DEBORD, G. A sociedade do espetáculo. Tradução de Estela dos Santos Abreu, Rio de Janeiro: Contraponto, 1997, aforismos 145, 147, 153, 154.

[9] BAUMAN, Z. O mal-estar da pós-modernidade. Trad. de Mauro Gama, Cláudia Martinelli Gama. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 37.

[10] BAUDRILLARD, J. A sociedade de consumo. Tradução de Artur Morão, Lisboa: Edições 70, 2010, p. 207.

[11] AUGÉ, M. Los no lugares: una Antropología de la sobremodernidad. Trad. de Margarita Mizraji, Barcelona: Gedisa , 2004, p. 37.

[12] BARBOSA, L. “Comida e sociabilidade no prato do brasileiro” In: BARBOSA, L.; PORTILHO, F.; VELOSO, L. [Orgs.] Consumo: cosmologias e sociabilidades. Rio de Janeiro: Edur; Mauad X, 2009, p. 45.

[13] Idem, p. 51.

A “CLASSE C” VAI AO PARAÍSO? A ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL DO BRASIL NO INÍCIO DO SÉCULO XXI [PARTE F*]

1 de março de 2014

“Sou capaz de revoltadamente obedecer, eu a
inliberta” [Clarice Lispector. A via crucis do corpo].

XVIII

Politicamente, o membro da “classe C” limita-se ao comportamento de cidadão-consumidor: ao invés de engajamento político e emancipatório em organizações de classe, ao gosto do marxismo ortodoxo, empreende campanhas, como as dos estratos mais altos, por produção e consumo “sustentáveis” para evitar a agressão ao meio-ambiente e ao homem[1]; ao invés de filiação aos interesses de classe, há as campanhas e os espetáculos que redundam em acúmulo de material para filantropia; votando, orienta-se mais pelas figuras dos candidatos do que pelos programas dos partidos, escolhe mais como consumidor, cliente e contribuinte do que como membro de classe com um partido tradicional a representá-lo; organizando-se, age não mais como aquele antigo militante que, pertencente a movimentos sociais, lutou contra a ditadura e reivindicou a promoção de direitos sociais nas décadas de oitenta e noventa do século XX, mas como “organizador das clientelas usuárias dos serviços sociais”[2] à medida que é pertencente a alguma ONG [ou sindicato, entidade estudantil etc.] que presta serviço com recursos oriundos do Estado ou de empresas privadas que abriram mão do papel de executores ou prestadores diretos de serviços para apenas promovê-los e regulá-los – o atual quadro de ação política prima pela anexação dos ativistas mediante um contrato que atribui ao terceiro setor a característica heterônoma de ações substitutivas à presença estatal. Ademais, o conservadorismo característico a todos os matizes da classe média brasileira enraíza-se na dependência social e econômica que tem em relação ao grande capital: subordinados aos conglomerados que monopolizaram o mercado mundial, a autonomia que resta a eles ou inexiste ou é relativa à medida que, para se reproduzirem, dependem[3] das ações do centro da economia mundial e, por isso, não anseiam alterá-las – o quão mais se desenvolve o país [desenvolvimento como mito, como explicou Celso Furtado e como os governistas o sabem[4]], mais dependente e conservadora se torna a “classe C”[5], uma vez que se desinteressa de um projeto nacional à medida que agarra-se aos programas oriundos do centro do capitalismo mundial e a privilégios recém-adquiridos [empregadas domésticas, faxineiras], não anseia que serviços de baixa qualificação e com péssima remuneração deixem de existir ou ocorram em situações mais dignas, uma vez que lhes subtrairiam os privilégios. Precisa-se considerar, ainda, que, caudatária de setores mais organizados do antigo proletariado convertido em administrador de fundos previdenciários complementares[6], a “classe C” ajudou a eleger e reeleger os governos conservadores e comprometidos com a acumulação financeira, a saber, Collor e os dois governos do PSDB, de verniz neoliberal, e os atuais do PT, de verniz neodesenvolvimentista, superficialmente opostos, mas convergentes em, a despeito de adotarem a crença nos dois mitos supracitados e respectivos, tentarem distribuir migalhas da acumulação, neoliberal ou neodesenvolvimentista, para a “classe C”, colocando-a em suas bases de apoio e formando um pluriclassismo – que vai do capital financeiro internacional, passando por um proletariado financeiro [aquele mais aristocratizado] até o subproletariado, marginalizado há séculos –, de acordo com a extrapolação aqui presente do argumento de Francisco de Oliveira em O ornitorrinco e de sua alocação de um ciclo, que vai do governo de Fernando Collor aos governos petistas, qualificado como “ciclo neoliberal”[7] [o denominador comum da abertura inconsequente de tudo para o capital estrangeiro sob Collor, da destruição do estado sob FHC e da cooptação da sociedade sob Lula foi a autonomia generalizada ao capital para colonizar todos os âmbitos da vida social]. Outro fator que fez a “classe C” legitimar do bloco PSDB, PT, capital toyotista e financeiro, foi, ao adotar a ideologia de outro estrato, e, portanto, ao não ser uma classe social para-si, ser orquestrada para preocupar-se com o bom andamento do trem e, assim, a empenhar-se em apoiar a governança corporativa que nada mais é do que outra ideologia, a saber, a colonização da política pela produção flexível toyotista e financeira conforme Jessé Souza argumenta: governo eficiente e que merece apoio é o que não assusta o capital internacional, o que não obstaculiza o giro de capital e que o permite entrar ou sair em nichos de mercado para formarem novas mercadorias e novas [falsas] necessidades de consumo da mesma forma que entra e sai de países quando e como bem entendem, que valoriza mais o empreendedorismo como capitulação ao toyotismo do que apregoa a política já reacionária de insistir no aumento ostensivo do parque industrial, que mantém os juros altos em proveito de um punhado de financistas como ganho suplementar e compensatório à medida que lida com a corrupção generalizada que provoca gastos inesperados em toda a trajetória do dinheiro[8]; ou, conforme Carlos Nelson Coutinho, articulando conceitos gramscianos, mais do que não assustar o capital, PSDB e PT submeteram-se ao seu domínio e não o questionaram e, assim, os dois partidos são parte da hegemonia financeira e veículos de uma forma de controle social consensual que, com as mesmas medidas para todos os problemas  [“reforma”, a bandeira de qualquer projeto social-democrata, passou a significar apenas desmonte de regulamentações para que o capital atue sem qualquer forma de obstáculo, como atestam as privatizações e as alterações na legislação do trabalho[9], defendidas e levadas a cabo por lideranças históricas da luta pela democracia, pelo renascimento do sindicalismo e dos movimentos sociais, contribuindo para imobilizar as lutas na sociedade civil], apenas revezam-se no poder sem tocar na raiz deles e consentido em administrá-los tecnicamente e em agenciar “contrarreformas”[10] interessantes à reestruturação produtiva que continuam a desmontar o Estado e as poucas políticas sociais desde Getúlio Vargas, a Ditadura de 1964-1985 e a Constituição de 1988. Jessé Souza[11] e André Singer especificam a questão da filiação eleitoral da “classe C” quando relacionam o “lulismo” aos programas de redução da pobreza implementados no primeiro governo Lula e que deu ensejo a uma aliança tão estreita entre governo e “classes” C, D e E que, mesmo com as denúncias de corrupção, aquele governo alcançou a reeleição e, em seguida, ainda elegeu sua sucessora, Dilma Rousseff: o eleitorado, dividido entre ricos e pobres – mais um mito, uma vez que se o Brasil tivesse tantos ricos quanto supõe a tese de André Singer, já estaria no Primeiro Mundo[12] –, mostrou que os últimos, mesmo sem organização política como a dos antigos sindicatos fordistas e dos partidos esquerdistas do século XX, não se deixaram levar pelas campanhas oposicionistas dos mais abastados que procuraram, pelo critério da ideia de meritocracia, ligar os programas do governo a uma espécie de assistencialismo impeditivo da separação republicana entre público e privado e agente do patriarcalismo e o personalismo na sociedade brasileira; com efeito, os setores subjacentes preferiram a política de redução da pobreza monetária e de oferta de garantias mínimas de vida, a despeito do “mensalão”. A estratégia do PT foi, por sua política de combate à pobreza monetária sem enfrentamento com o capital e pelo aproveitamento que conseguiu da conjuntura econômica mundial favorável entre 2003 e 2008 [notadamente, a explosão do preço de commodities que valorizaram o preço de alguns produtos (soja, açúcar, álcool, minério de ferro, petróleo, carne, laranja etc.) em até 89% exatamente sob o primeiro mandato de Lula[13]], ativar o mercado interno pela proteção ao “subproletariado”[14] originado e superxplorado desde a época do Brasil Colônia [na segunda metade da década de 1970, cerca de um século após o fim da escravidão, este estrato representava 48% da PEA, enquanto o proletariado somava 28%. Se o subproletariado aumentasse seus ganhos, o impacto na economia seria interessante na formação de um mercado interno muito mais dinâmico] e pela formalização de sua ocupação, este aderiu ao lulismo e formou um bloco que, desde então, garantiu a governabilidade do presidente, sua reeleição [no primeiro turno das eleições de 2006, entre a população de rendimento até dois salários mínimos, Lula teve 55% dos votos e seu adversário, Geraldo Alckmin, 28%[15]] e a eleição de sua sucessora [para os mesmos estratos sociais, Dilma Rousseff alcançou 53% no primeiro turno, enquanto José Serra 26%[16]] e, por exclusão, afastou o “subproletariado”, concentrado no Norte e no Nordeste do país [o DEM foi subtraído de sua base e o antigo coronelismo agrário foi substituído por um neocoronelismo governamental de sinal invertido], dos estratos mais altos da “classe média” de São Paulo e do Sul do país e que continuaram como base do PSDB; com efeito, houve um “realinhamento eleitoral”[17] [polarizado entre “ricos” x pobres, não entre direita x esquerda] que garantiu o combate à pobreza monetária concomitante à defesa conservadora [que retarda reformas mais significativas, que coloca dirigentes progressistas à frente do governo para empreenderem políticas conservadoras, articulando, mais uma vez, a conciliação brasileira entre o arcaico e o moderno] da ordem e formou, pela comparação que André Singer fez com a análise de Gramsci acerca da Itália dos tempos do filósofo, uma “questão setentrional”[18]. No cotidiano dos brasileiros, eis as ações governamentais que dinamizaram a economia e despertaram nos estratos mais subjacentes a sensação de melhoria e contribuíram para a formação do “lulismo”, ou, nos termos maquiavelianos de André Singer, ações peculiares a virtù auxiliadas pela fortuna da conjuntura internacional[19]: programas como o Bolsa Família atendiam 11,4 milhões de famílias em 2006[20]; controle dos preços que impediu o aumento da cesta básica [que escapou ao controle do governo de Dilma Roussef, ao início de 2013], sobretudo em regiões mais pobres; o aumento real do salário-mínimo [algo muito importante após a crise de 2008-9]; abertura de crédito consignado para aposentados; programa Luz para Todos; regularização de terras de comunidades como as dos quilombolas; programa de construção de cisternas no semiárido[21]; taxa de desemprego em queda e que chega próxima ao do pleno emprego [5,3% em dezembro de 2010] – políticas que apostam na expansão do mercado interno como garantia da estabilidade econômica [ratificadas pelo lançamento do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), em 2007, e pelo Programa Minha Casa Minha Vida, muito importante para a manutenção da taxa de empregabilidade após a crise financeira internacional, e que evitam o enfrentamento com o capital, consolidado ainda mais à medida que é pelo mercado que se tenta evitar as crises mercadológicas; tal consolidação é mais inteligível se se elenca a continuidade de políticas ortodoxas de regulação da economia entre os governos Lula com os do seu antecessor, FHC: controle da inflação, permissão que o câmbio flutue dentro de certos limites, esforço para o alcance de superávit primário em contas públicas, juros altos [mesmo quando caem, não deixam de ser os maiores do mundo],  reforma previdenciária com redução de benefícios, privatizações [já sob o governo de Dilma Rousseff, aeroportos e portos]. Eis ordem e progresso, combate à pobreza monetária pela estratégia desenvolvimentista que tranquiliza o grande capital[22] e que se expressa em contradições entre os programas e estatutos do PT com suas ações governamentais[23], que não acelera o combate à desigualdade para uma velocidade que o contingente de milhões necessita e que combina-se com a não tributação do grande capital, com a não desapropriação de latifúndios, com a não equiparação imediata do salário-mínimo com o que o Dieese considera ser adequado, não impedir que os estratos que conseguiram ascender ao mercado de trabalho formal nele entrem seguindo a lógica da precarização e da flexibilização de direitos trabalhistas históricos – a redução da desigualdade em ritmo que a questão exige depende do avanço contra o capital e não de mãos dadas a ele. O argumento de Francisco de Oliveira aproxima a “classe C”, no comportamento eleitoral, de setores integrados à financeirização do capitalismo; o de Jessé Souza e de André Singer aproxima o mesmo estrato daqueles outros mais subjacentes, mostrando que, por conta da grande desigualdade no país, as “classes” C, D e E elegeram os três últimos governos petistas; o de André Singer considera que os estratos determinantes para a vitória petista foram o D e o E, e que a “classe C” dividiu-se entre Lula e Alckimin com uma leve vantagem do primeiro e, somando os apoiadores de Lula, eis uma massa que, identificada com o líder de Estado, comporta-se de modo semelhante àquela massa descrita por Marx em O 18 Brumário, a saber, sentindo-se representada por não conseguir fazer-se representar: sem confronto com o capital, tenta-se alavancar o desenvolvimento fazendo da base “subproletária”[24] a camada social atendida pelas ações governamentais ao mesmo tempo que aquece a economia interna – eis a necessidade de incessantes investimentos estatais para que este contingente entre no mercado formal e a pressão do capital financeiro para que os gastos públicos não atrapalhem os compromissos do governo em honrar seus pagamentos dos caríssimos juros que deve [um montante maior do que o governo gasta, por exemplo, em educação]. O governo pensa conseguir arbitrar classes tão diferentes para o bem do país e, por isso, Luiz Werneck Vianna considerou, em 2007, que a característica dos governos de Lula era a de um “Estado Novo do PT” que funcionava como contenção às mudanças qualitativas[25]: um pluriclassismo arbitrado pelo Poder Executivo procurava evitar o radicalismo de modo a fazer com que o subproletariado aproveitaria o fenômeno desfrutando de inflação baixa e aumento do poder de consumo; o capital financeiro, obviamente, aproveitaria o dinheiro a receber das contas públicas; o proletariado tradicional sofreria uma pressão menor do gigantesco exército industrial de reserva à medida que contingentes subproletários seriam incorporados ao mercado de trabalho formal [mas não aos moldes do velho padrão fordista e sim do ‘empreendedorismo’ e do trabalho fragmentado em incomensuráveis pequenas unidades produtivas que dificultam a união de classe e a consciência da mesma] – mas, é justamente, por isso, que a desigualdade retarda em cair, uma vez que os investimentos do governo ficam limitados e não contribuem com maior incorporação de contingentes “subproletários” à formalidade. A ilusão de tal pluriclassismo é a cantilena da governabilidade pretensamente boa para todos os estratos e propagada em alto e bom som pelo seu arauto mais representativo, o presidente-mito Lula, em entrevista a Emir Sader e Pablo Gentili, em fevereiro de 2013, quando respondeu se guardava mágoas da oposição: “[…] O que eu guardo é o seguinte: eles nunca ganharam tanto dinheiro na vida como ganharam no meu governo. Nem as emissoras de televisão, que estavam quase todas quebradas; os jornais, quase todos quebrados quando assumi o governo. As empresas e os bancos também nunca ganharam tanto, mas os trabalhadores também ganharam. Agora, obviamente que eu tenho clareza que o trabalhador só pode ganhar se a empresa for bem”[26]. O equilíbrio pensado pelo governo não é neutro, é o equilíbrio imposto pelo capital financeiro que esgota o alargamento da produção [esta é desejada, também, pelo capital industrial e pelos proletários de maior rendimento, o que faz André Singer diagnosticar uma “coalizão produtivista”[27] que une duas classes na luta contra a desindustrialização, mas de tênue colaboração à medida que, incorporados ao proletariado, os trabalhadores exigem condições semelhantes à classe constituída da formalidade de anteriormente para diminuir a precariedade em que se encontra e, assim, aumentar a força do proletariado como tal] e, assim, mesmo produzindo redução de pobreza monetária, o governo pouco consegue fazer em redução da desigualdade social e afoga o subproletariado que, pensando melhorar de vida, convive com os altos juros dos créditos populares. O preço que se paga pela política que, em lugar de anticapitalista, caracteriza-se como “neutra” é a manutenção de velhos dispositivos antissociais na administração do país. Mas com uma diferença a ser considerada: não são mais os meninos de recado dos latifúndios, da Fiesp e dos banqueiros que colocam seus rostos a frente do governo e conduzem a dominação; em seus lugares estão aqueles representantes históricos dos dominados – os últimos governos foram ocupados pelos democratas que lutaram contra a ditadura militar, os ministérios foram ocupados por ex-sindicalistas e ex-líderes de movimentos sociais, todos agora pousando ao lado dos antigos dominadores para compor alianças de governabilidade questionáveis do ponto de vista ético e de classe, tal como a fotografia registrada entre Lula da Silva e Paulo Maluf nas eleições municipais de 2012. Tal fenômeno somente é possível porque, conforme Francisco de Oliveira argumentou, os dominados no poder tornaram-se administradores de fundos de pensão de estatais que financiam a dívida interna e que fazem, no poder, o mesmo que faziam os dominantes, uma vez que foram cooptados material e ideologicamente; eis uma falsa hegemonia, uma falsa revolução passiva da “esquerda” que alcançou o poder, uma hegemonia “às avessas”[28] que iludiu também a André Singer e os que aderiram à singermania e que negligenciam que o conservadorismo em correção da desigualdade social – que aumentou, a despeito da queda da pobreza absoluta – não foi suficiente para, economicamente, alcançar o desenvolvimento, uma vez que, sob o governo de Lula, o crescimento foi inferior ao que, historicamente, o país vinha crescendo e, ainda, converteu o país, novamente, em exportador de commodities e voltou à “vocação agrícola” – além de não ser desenvolvimentismo, é reacionarismo –, o que não acontecia desde 1978. A apologia de que a “reforma gradual”, sob o lulismo, seria uma revolução passiva, não é reforma nem revolução, é a “vanguarda do atraso e o atraso da vanguarda”[29], a contrarreforma: eis o Brasil pluriclassista no qual se aloca um ministério, o da Agricultura, para os proprietários da terra, e outro, o do Desenvolvimento Agrário, ao movimento dos trabalhadores; um ministério, o da Indústria e Comércio, aos empresários, outro, o do Trabalho, a ex-sindicalistas[30]; no qual a Constituição de 1988 indica a saúde como direito universal, mas o Ministério da Saúde oferta, mediante a rede pública, serviços de baixa qualidade e que não concorrem com o mercado privado de saúde[31], embargando a universalidade que se pretendia e empreendendo um modelo parcial e desigual que oferta dois sistemas, um, o privado, para os ricos, e outro, o público, para os pobres – acreditar que se faz os setores à direita deixarem-se cooptar por uma hegemonia à esquerda, apenas porque o governo acena com o diálogo e a participação [pluriclassista] de todos os setores, não é avançar o reformismo, a social-democracia e o Estado de bem-estar social, mas expressão de que os grilhões do capital continuam fortes para retardá-los e que se expressam na não efetivação das reformas agrária, urbana e sanitária.


* Os próximos aforismos serão publicados dia 01-04-2014.

[1] Cf. PORTILHO, F. “Sociabilidade, confiança e consumo na feira de produtos orgânicos” In: BARBOSA, L.; PORTILHO, F.; VELOSO, L. [Org.]. Consumo: cosmologias e sociabilidades. Rio de Janeiro: Mauad X; EDUR, 2009, p. 61.

[2] GOHN, M. da G. Empoderamento e participação da comunidade em políticas sociais” In: Saúde e Sociedade v. 13, n. 2, p. 20-31, maio-agosto, 2004. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/sausoc/v13n2/03.pdf> . Acesso em: 10-12-2011.

[3] Ver como a atualidade corrobora com a tese de Florestan Fernandes, a despeito das quase quatro décadas que as separam, em: FERNANDES, F. Capitalismo dependente e classes sociais na América Latina. 2° ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.

[4] BELUZZO, L. G. “Os anos do povo” In: SADER, E. [Org.] Lula e Dilma: 10 anos de governos pós-neoliberais. São Paulo/Rio de Janeiro: Boitempo/ FLACSO, 2013, p. 109.

[5] POCHMANN, M. [et alli]. Classe média: desenvolvimento e crise. São Paulo: Cortez, 2006 [Atlas da nova estratificação social no Brasil, vol. 1], p. 62.

[6] OLIVEIRA, F. de. Crítica à razão dualista; O ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003, p. 146.

[7] OLIVEIRA, F. “O avesso do avesso” In: OLIVEIRA, F.; BRAGA; R.; RIZEK, C. [Orgs.] Hegemonia às avessas: economia, política e cultura na era da servidão financeira. São Paulo: Boitempo, 2010, p. 375.

[8] SOUZA, J. Os batalhadores brasileiros: nova classe média ou nova classe trabalhadora. 2° ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2012, p. 41 et seq.

[9] Leonardo Mello e Silva cita que algumas delas foram, a partir do governo FHC, as legalizações do Banco de Horas, dos contratos temporários de trabalho, da PLR [Participação nos Lucros e Resultados]. Nesta, a acumulação flexível expressou-se na legislação ao tornar a própria remuneração variável de acordo com os resultados, legalizando as armadilhas de fazer os trabalhadores trabalharem mais para alcançarem menor ou igual rendimento que alcançavam anteriormente e de não incorporar os prêmios [condicionados pela disciplina, pelo baixo absenteísmo e pela performance] aos salários; ademais, para tentarem alcançar as metas [às vezes, impossíveis], os trabalhadores fiscalizam a si mesmos e se dividem e, ainda, mordem a isca de colocarem a negociação salarial em segundo plano diante da possibilidade de, com a PLR, adquirir um acréscimo instantâneo nos vencimentos, argumento sempre usado pelas empresas na hora das negociações de reajustes salariais para puxá-los para baixo. SILVA, L. M. “Trabalho e regresso: entre desregulamentação e re-regulamentação” In: In: OLIVEIRA, F.; BRAGA; R.; RIZEK, C. [Orgs.] Hegemonia às avessas: economia, política e cultura na era da servidão financeira. São Paulo: Boitempo, 2010, p. 70 et seq.

[10] COUTINHO, C. N. “A hegemonia da pequena política” In: OLIVEIRA, F.; BRAGA; R.; RIZEK, C. [Orgs.] Hegemonia às avessas: economia, política e cultura na era da servidão financeira. São Paulo: Boitempo, 2010, p. 34.

[11] SOUZA, J. Os batalhadores brasileiros: nova classe média ou nova classe trabalhadora. 2° ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2012, p. 241 et seq.

[12] Na análise da reeleição de Lula, Francisco de Oliveira ironizou a análise da imprensa, na época, que mostrava que os pobres haviam votado no PT e os ricos no PSDB: “[…] O Brasil havia se dividido entre ricos e pobres. Esqueceram-se de explicar os 40% de votos em Geraldo Alckimin no primeiro turno: aí já seríamos um país de Primeiro Mundo!” OLIVEIRA, F. “Hegemonia às avessas” In: OLIVEIRA, F.; BRAGA; R.; RIZEK, C. [Orgs.] Hegemonia às avessas: economia, política e cultura na era da servidão financeira. São Paulo: Boitempo, 2010, p. 24.

[13] SINGER, A. Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 176.

[14] Idem, p. 14.

[15] Idem, p. 55.

[16] Idem, p. 171.

[17] Idem, p. 13.

[18] Idem, p. 21.

[19] Idem, p. 179.

[20] Mesmo José Serra [PSDB], principal candidato da oposição ao governo em 2010, propunha aumentar o atendimento do programa. Em 2013, para tentar erradicar a pobreza monetária absoluta [renda inferior a meio salário mínimo de acordo com o Ipea], a presidenta Dilma Rousseff aumentou o benefício para as famílias atendidas pelo programa. Há, ainda, a pretensão dos governos petistas em transformar o programa em uma ação perenizada como parte da Consolidação das Leis Sociais [CLS] e deixar, assim, de ser uma ação revogável a qualquer momento.  Tais fenômenos mostram que o programa já é partilhado como uma política propriamente governamental, independentemente da agremiação que faça a gestão.

[21] SINGER, A. Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 64 et seq.

[22] “É notável que, nesse contexto, os ‘grandes’ burgueses estejam tranquilos. Para os donos do capital, a situação é confortável. Os balanços das empresas registram lucratividade elevada. Ou seja, para os super-ricos o lulismo não é um incômodo. A experiência internacional indica, segundo Therborn, que a ‘renda e a riqueza tendem a estar concentradas na ponta do topo. Por exemplo, cerca de metade da renda do decil mais próspero dos norte-americanos foi capturada pelo 1% mais rico’. No Brasil, esse 1% mais rico recebe sozinho o equivalente ao apropriado pelos 50% mais pobres! Para eles, as mudanças ocorridas no período Lula não representam perdas materiais, ao contrário. A proliferação de lojas ‘exclusivas’, templos modernos da estratificação, evita a perda de status. Essa, talvez, a explicação de por que ao longo do governo Lula, e em particular durante o ‘mensalão’, a base oposicionista era mais radical que a cúpula. Além disso, para a burguesia, o reformismo fraco apresenta um caminho possível, embora não o de sua predileção, pra o desenvolvimento do capitalismo no país, sem que a sua posição seja ameaçada”. Idem, pp. 206-207 [grifo do autor].

[23] “[…] O partido defende, simultaneamente, reformas estruturais profundas e a estabilidade econômica; propriedade social dos meios de produção e respeito aos contratos que garantem os direitos do capital; um postulado genérico anticapitalista e o apoio às grandes empresas capitalistas; ‘a formação de uma cultura socialista de massas’ e acordos com partidos de direita’”. Idem, p. 124.

[24] Idem, p. 155.

[25] “Invertem-se, porém, os termos da revolução passiva clássica: é o
elemento de extração jacobina quem, no governo, aciona os freios a fim de deter o movimento das forças da revolução, decapita o seu antagonista, comprometendo-se a realizar, sob seu controle, o programa dele, e coopta muitos dos seus quadros, aos quais destina a direção dos rumos sistêmicos em matéria econômico-financeira. Mas será dele o controle da máquina governamental e o comando sobre as transformações moleculares constitutivas à fórmula do conservar-mudando, direcionadas, fundamentalmente, para a área das políticas públicas aplicadas ao social. Decididamente, o desenlace de 2002 não foi o de uma contrarrevolução”. VIANNA, L. W. O Estado Novo do PT. Disponível em: ≤http://www.acessa.com/gramsci/?page=visualizar&id=755≥. Acesso em 23-02-2013.

[26] LULA DA SILVA, L. I. “O necessário, o possível e o impossível” In: SADER, E. [Org.] Lula e Dilma: 10 anos de governos pós-neoliberais. São Paulo/Rio de Janeiro: Boitempo/ FLACSO, 2013, p. 16.

[27] “A coalizão produtivista, formada por empresários, que observam com preocupação a queda das atividades fabris desde o começo dos anos 1990, e pelos empregados industriais que defendem ‘aplicar política cambial voltada para a defesa da economia nacional’, viu na criação de um Imposto sobre Operações Financeiras [IOF] do capital estrangeiro, que gradativamente subiu para 6% entre 2009 e 2010, um sinal de esperança de que o governo caminharia na direção do controle de capitais. Mas, se a hipótese da arbitragem estiver correta, o controle de capitais não será adotado, pois o projeto lulista não é o de resolver as contradições em favor de uma das coalizões, e sim de mantê-las em relativo equilíbrio, cujo patamar é determinado pela necessidade de favorecer o subproletariado com crescimento e inflação baixa”. SINGER, A. Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 165.

[28]  OLIVEIRA, F. “Hegemonia às avessas” In: OLIVEIRA, F.; BRAGA; R.; RIZEK, C. [Orgs.] Hegemonia às avessas: economia, política e cultura na era da servidão financeira. São Paulo: Boitempo, 2010, p. 21 et seq.

[29] OLIVEIRA, F. “O avesso do avesso” In: OLIVEIRA, F.; BRAGA; R.; RIZEK, C. [Orgs.] Hegemonia às avessas: economia, política e cultura na era da servidão financeira. São Paulo: Boitempo, 2010, p. 376.

[30] HENRIQUE, A. “Um olhar dos trabalhadores: um balanço positivo, uma disputa cotidiana e muitos desafios pela frente” In: SADER, E. [Org.] Lula e Dilma: 10 anos de governos pós-neoliberais. São Paulo/Rio de Janeiro: Boitempo/ FLACSO, 2013, p. 305.

[31] COSTA, A. M. “Saúde é desenvolvimento” In: SADER, E. [Org.] Lula e Dilma: 10 anos de governos pós-neoliberais. São Paulo/Rio de Janeiro: Boitempo/ FLACSO, 2013, p. 245.

A ‘CLASSE C’ VAI AO PARAÍSO? A ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL DO BRASIL NO INÍCIO DO SÉCULO XXI [PARTE E*]

1 de fevereiro de 2014

“Coca-cola nas veias” [Erico Veríssimo. O tempo e o vento].

XIV

O membro da “classe C” é mobilizado, sistematicamente, a consumir artigos correspondentes ao novo ethos, mas a necessidade de antecipar o consumo e de desagrilhoá-lo de qualquer obstáculo coloca o papel fundamental para a indústria da publicidade de ajuda, também sistemática, ao próprio sistema: alvo do ataque ininterrupto de propagandas que procuram persuadi-lo a consumir o que necessita, mas também o que não, o consumidor é a presa do predador que identifica a felicidade ao consumo para administrar as necessidades com, além da facilidade do crédito, o vaivém da moda e com a subtração da autonomia. O membro da “classe C” é mobilizado a satisfazer-se em pseudossatisfações: ao comprar os mais diversos artigos e usufruir de toda a espécie de serviços, ele apropria-se de pequenos nós da teia do mercado, emaranha-se nela, perde a liberdade e torna-se alimento de seu predador. Cada movimento que faz para apropriar-se do que está na moda [ou voltou a ela] é o movimento que tenta alcançar o inalcançável, a saber, um produto com singularidade e que gratifique; contudo, como o artigo foi produzido e distribuído em massa, vulgariza o seu consumidor ao invés de prestigiá-lo e torná-lo distinto, desmente e difama o artigo que estava em moda e será desmentido e difamado pelo que entrará [ou retornará] – trata-se, como argumentou Debord, de uma pseudogratificação que perpetua o consumo e a infelicidade perenemente[1]. E além de inculcar no membro da “classe C” ideias e comportamentos de consumo, a publicidade precisa, ainda, “educar” o consumidor a fazê-lo sem sentir-se culpado com a futilidade de seus gastos, uma vez que o antigo ethos da carência ainda pode estar presente naqueles que ascenderam na estratificação social há pouco tempo – não basta alimentar-se, vestir-se, transportar-se, habitar, divertir-se, é preciso empreender tais atividades de forma cada vez maior [quantitativamente] e apropriando-se de marcas associadas a cada artigo e que são ventiladas pela televisão, internet, outdoors, telefones e que colonizam todos os espaços públicos. Seja pela empoeirada estratégia behaviorista de repetir a mesma mensagem o tempo todo [“Sempre Coca-cola”], ou pela fixação de valores que procuram tornar os consumidores fiéis às marcas [“Just do it” – Nike; “Nothing is impossible” – Adidas; “Think different” – Apple; “Bealeve. Make” – Sony; “O mundo muda. O Itaú muda com você” – Itaú] e formar vínculos afetivos dos primeiros com as segundas, o objetivo é inclinar ao consumo e subtrair o valor do que foi consumido outrora, sabotá-lo, destruí-lo para outro artigo ser consumido em seu lugar. Os efeitos colaterais são conhecidos: a altíssima taxa de desperdício e de produção de lixo à medida que tudo que é durável e tem alguma idade é identificado ao que é defasado e passível de substituição; a tirania da beleza jovial e magra veiculada pela publicidade resulta em ansiedade e obsessão com a manutenção da forma; a tirania da pretensa alimentação rápida e aprazível veiculada pela publicidade resulta em desequilíbrios alimentares e engendram problemas nutricionais e obesidade, expressando o quão contraditória é a busca do prazer ventilada pelo mercado com a aptidão física também apregoada por ele – a introjeção de tal contradição em cada um resulta em bulimia[2]; o bombardeio de produtos veiculados contribui para o consumo impulsivo e resulta em endividamento para as famílias; em aumento da violência para jovens marginalizados que assistem a publicidade divulgar o padrão de consumo de classe média, mas, estando sem condições orçamentárias de adquirir os distintivos de reconhecimento social, tornam-se frustrados e adentram na delinquência para conquistá-los à medida que veem como intransponível a distância entre a realidade e o espetáculo da felicidade via consumo dentro da ordem; em aumento da ansiedade e o declínio da autoestima por não se conseguir saldar as prestações e empréstimos e pelo medo de declinar socialmente[3]. Não parece que a “classe C” brasileira esteja blindada dos problemas aqui elencados à medida que assiste diariamente, segundo o Ibope, mais de cinco horas e meia de televisão[4] e que, educada a não pensar historicamente, cada pessoa aprendeu a pensar o fracasso como um fenômeno individual, como se a socialização familiar, o capital cultural interiorizado e toda espécie de herança imaterial em nada contassem.

XV

            Mas acreditando alcançar reconhecimento pelo consumo, o membro da “classe C” esquece-se que é, ele mesmo, além de consumidor, mercadoria e, por isso, faz publicidade de si mesmo, marketing pessoal (!), e se esforça perenemente para nunca sair de moda – o uso de marcas emblemáticas torna o possuidor destas reconhecido pelo público. Trata-se de um “estilo de vida”[5]: em sociedades de capitalismo avançado, Marcuse, Baudrillard e Bauman mostraram que foi pelo consumo que as pessoas filiavam-se à sociedade ao mesmo tempo em que eram disciplinadas e administradas[6] por ela desde a infância, quando aprendiam a ler [e hoje antes!] e a dependerem das compras – caso não adquirissem certos artigos, eram vitimadas pela humilhação e ridicularização dos pares, não sentiam-se parte da sociedade e viam-se inadequadas, deficientes, excluídas. Com efeito, as pessoas consomem porque acreditam ser um “bom estilo de vida”[7] e porque, com um artigo de uma marca qualquer, promovem-na ao mesmo tempo em que acreditam se promover: trata-se de modelarem-se a si mesmas como mercadorias desejáveis e consumíveis, reciclarem-se, valorizarem-se, ampliarem o próprio valor de mercado com artigos ofertados no próprio mercado, consumirem não apenas como meio, mas como fim à medida que aprendem a identificar o consumo com o aprazível. Por isso, trata-se de percorrerem os salões de beleza e lançarem mão de todos os recursos da indústria de cosméticos, de praticarem atividade física para não deixar a jovialidade escapar, de fazerem do próprio corpo [magro] um módulo combinatório e colecionável entre a tendência em moda [que apresenta os modelos magérrimos], de investirem no próprio corpo – o transformado em capital[8] e em força produtiva, uma vez que o investimento ocorre em sentido econômico para vencer o que resta de concorrência e para fazer parte do monopólio vigente de padronização da estética corporal – e tornarem-se prisioneiras dele à medida que este se torna objeto a ser manipulado e decorado, mas indispensavelmente administrado, reduzindo as pessoas a managers do próprio corpo. Trata-se de não se tornarem invisíveis sob nenhuma hipótese e, assim, atualizar ininterruptamente o perfil nas redes sociais e em tais “confessionários eletrônicos”[9] se exporem inteiramente, aumentarem os pontos em promoções de todos os tipos para alcançar bônus, melhoria de serviços e contemplação em promoções e planos de toda a sorte, frequentarem os mais diversos cursos e treinamentos para valorizar a própria mão-de-obra para dispô-la no mercado, mostrarem-se belas, hábeis e disciplinadas para conseguirem o que desejam – acreditam que a própria subjetividade é uma mercadoria a ser encontrada no mercado. O imperativo do membro da “classe C” é nunca sair de moda: Baudrillard notou na França de sua época que o consumidor esforçava-se em reciclar-se perenemente para nunca ficar excluído de uma “menor cultura comum”[10] na qual era aculturado ininterruptamente desde o berço. Por isso, o consumidor adaptava-se à nova tendência e fazia, da própria história de vida, uma vida a-histórica e nunca conseguia a reciclagem: o passado era sempre engolido pela adequação ao que estava na moda, mas como esta era perenemente uma troca planejada de artigos, o futuro era uma assombração que o inquietava à medida que interrompia a satisfação do que fora adquirido e obrigava a trocá-lo e, assim, atualizar-se para não sair de moda e evitar frustrações é, antes de tudo, frustrar-se. Viver na fugacidade do presente, e apenas nele, é fazer deste um halo que embarga a formação de uma razão histórica, que nunca ultrapassa o que Hegel chamava de “certeza sensível”[11] e a sucessão infinita de tentativa e erro – eis os grilhões do aqui e do agora que fortificam-se por ação do próprio prisioneiro e que problematizam o quadro hegeliano da filosofia da consciência. Para ser reconhecido é preciso estar na moda; portanto, ser reconhecido é estar sempre na guerra da brevidade do presente e nunca vencê-la.   O membro da “classe C” brasileira vive sob tal quadro apocalíptico?  Caso ele se pense como sujeito cuja atividade é escolher mercadorias a consumir, mas não se nota como objeto cuja passividade é estar disponível ao consumo, como iludido por artigos que decidiram, aprioristicamente, as escolhas que ele pensa fazer, a resposta só pode ser positiva à medida que se endivida profunda e ininterruptamente para não se desatualizar: também ele, como mercadoria, pode ser alvo da obsolescência e do descarte,  rebaixado como coisa e rebaixador de outras pessoas a tal, tornando o império das coisas mais importante que a vida dos homens – eis o “fetichismo da mercadoria”[12], como Marx anunciara no primeiro capítulo de O Capital, e a “corrosão do caráter”, como Richard Sennett atualiza o mesmo argumento à era do capitalismo flexível e mostra como as pessoas [des]tratam umas às outras como tratam objetos de consumo e como as corporações [des]tratam os trabalhadores em seus domínios, deixando-as “à deriva”[13].

XVI

O membro da “classe C”, com uma cesta de consumo maior, está, verdadeiramente, em abundância? Se a cesta é maior, mas recheada de artigos que corrompem a elevação do padrão de vida, a resposta é negativa: trata-se de uma “sobrevivência ampliada[14] ou de um “crescimento canceroso”[15], de acordo com Debord e Baudrillard, cujo resultado é o retorno à carência [carência diferente daquela pensada por Freud e por Weber, uma vez que não pelo recalque que a vida é conduzida] – poder gastar mais com gasolina é apenas paliativo para o aumento do trajeto casa-trabalho; poder manter seguro de saúde é apenas paliativo para o número gigantesco de acidentes de trânsito, para a falta de vida saudável em cidades poluídas e estressantes de forma incomparável na história, do aumento do consumo de álcool e da violência urbana; frequentar mais cursos para manter a própria força-de-trabalho consumível pelos capitalistas não evita o desemprego à medida que o toyotismo inventa e elimina profissões ininterruptamente; poder acompanhar a moda de nada adianta se ela sempre se altera de acordo com critérios elaborados por ela mesma ou por outros mais tradicionais, como o das estações do ano e os eventos sazonais. Abundância, nesta sociedade, é carência: aumentar a produção pelo aumento da própria produção, para esgotar toda a energia para apenas sobreviver, é uma penúria semelhante às formas primevas de vida descritas pelos antropólogos. Membros da “classe C” recém-desempregados e que não conseguem recolocação no mercado de trabalho encolhido pelo toyotismo e pela financeirização da economia, problema agravado quando a escolaridade do recém-desempregado é deficitária, são obrigados a lançarem mão do “empreendedorismo” como expectativa de não declinarem na mobilidade social: os recursos adventícios da demissão são, assim, empregados na abertura e manutenção de algum empreendimento [compram-se as primeiras mercadorias, o “ponto” etc] e, para aqueles que sobrevivem ao mercado, o caráter periférico da atividade não permite expansão do negócio mesmo com o emprego de membros da família [muitas vezes, todos, inclusive crianças], tanto por restrição do mercado consumidor como pela quantidade veemente de tais atividades [na feira de Caruaru (PE), são 21 mil feirantes], o que se consegue retirar da atividade é gasto com a sobrevivência ampliada do lar e do próprio empreendimento, a saber, impostos, energia elétrica, água, diarista e funcionários eventuais, alimentação, transporte, saúde, moradia, educação dos filhos – recursos alcançados com uma energia incomum para o trabalho conduzido de modo ascético e que prevê a necessidade do cálculo, da previsão e de reservas para períodos mais difíceis, o que impossibilita os membros da “classe C”, como o caso deste pequeno feirante[16], a algum gozo, ao contrário, as jornadas extenuantes de trabalho são o que permitem os provisões que dão conta da sobrevivência ampliada, da [semi]abundância garantidora de carência.

XVII

O membro da “classe C” considera-se mais feliz porque, agora, pensa-se verdadeiramente como cidadão, mas não por conta da abstração de direitos civis constitutivos ao status quo – sindicatos, agremiações estudantis, associações de moradores, partidos, parlamento […] são instituições da democracia formal de que não participa ou participa muito pouco[17]. A cidadania é exercida por ele, substancialmente, no consumo, é neste âmbito que materializa anseios, uma vez que percebe que a política tal como feita institucionalmente não passa pelo conflito de classes e não resolve problemas seculares, ao contrário, trapaceia e mascarara-os[18]: o cartão de crédito vale mais que o título de eleitor, uma vez que as respostas as suas questões “individuais” são encontradas no mercado e nos meios de comunicação de massa que colonizam a esfera pública, não na pseudodemocracia em vigência – não é gratuito que os partidos políticos também adotem os procedimentos do marketing e pensem os eleitores como consumidores, seus candidatos como mercadorias. O aspecto positivo desta equalização da cidadania ao consumo é a transcendência em relação à abstração ideológica que a noção burguesa de cidadania carrega consigo; contudo, a dissolução da cidadania no consumo desprivatiza o membro da “classe C” à medida que ele é colonizado pela indústria cultural e não transcende a circunscrição a que está submetido pelos esquemas dos grandes conglomerados, desterritorializa-o de suas idiossincrasias locais à medida que o consumo e a comunicação programadas o coloniza, tanto em megacidades[19] como em cidades médias ou menores, uma vez que a recepção de enlatados audiovisuais da indústria cultural alcança-as com facilidade e cimentam a interação dos habitantes. Nestor Canclini exemplifica com o fenômeno ocorrido durante e após a Segunda Guerra na América Latina: com a indústria de Hollywood produzindo filmes propagandísticos para as tropas, houve como os cinemas mexicano e argentino expandirem-se em seus países, mas, com o fim da guerra, a indústria norte-americana avassalou novamente os mercados estrangeiros e, ao fim do século XX, o segundo produto mais rentável nas exportações dos EUA era o entretenimento[20]. E, se o mercado absorver objetos e culturas telúricas para impulsionar o consumo local[21], o membro da “classe C” brasileira, de outro lado, pode reforçar de tal forma a sua identidade em oposição ao restante do mundo que pode formar e arraigar fundamentalismos, regionalismos e preconceitos, a despeito da vida cosmopolita na qual acredita estar inserido – a cidadania dissolvida no consumo apenas administra o membro da “classe C” e o inclina a “escolher” entre mercadorias que, programática e falsamente, opõem-se [artigos nacionais contra estrangeiros, moda jovem contra a vestimenta tradicional…] para intumescer a reprodução de capital: não se trata de cidadania, mas de subserviência aos imperativos econômicos que se sobrepõem ao membro da “classe C” e o alienam por estratégias peculiares à nova conjuntura[22]: não pela normatização, mas pela oferta; não pela regulamentação, mas pela sedução; não por formas de controle tradicionais, como a policialesca; mas por relações sociais desprivatizadas que fazem de uns controladores dos outros; não pela coerção, mas pela criação sistemática de novas necessidades.


* Novos aforismos serão publicados em 01-03-2014.

[1] DEBORD, G. A sociedade do espetáculo. Tradução de Estela dos Santos Abreu, Rio de Janeiro: Contraponto, 1997, aforismos 69 a 71, pp. 46-47.

[2] “(…) Alistair Cook, o grande analista britânico do estilo de vida norte-americano e responsável pelo famoso programa radiofônico Letter from America, assinalou que a lista de livros mais vendidos muda a cada semana nos Estados Unidos, mas dois tipos de leitura estão sempre presentes: os que oferecem receitas de dietas de emagrecimento e os que oferecem receitas para a produção de pratos sofisticados, requintados e caros.

Os dois tipos de livro estão claramente em posições opostas, suas mensagens apontam para direções contrárias, Mas a presença de ambos na lista de best-sellers reflete uma contradição enraizada na cultura de uma sociedade consumista: contradição entre a máxima busca de prazer e a máxima aptidão física”. BAUMAN, Z. “O corpo em contradição” In: Capitalismo parasitário: e outros temas contemporâneos. Trad. de Eliana Aguiar, Rio de Janeiro: Zahar, 2010, pp. 84-85.

[3] LIPOVETSKY, G. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. Tradução de Maria Lucia Machado, São Paulo: Companhia das Letras, 2007, pp. 171-200.

[4] Disponível em: http://noticias.r7.com/blogs/daniel-castro/2012/01/23/brasileiro-ja-assiste-tv-durante-5-horas-e-meia-por-dia-diz-ibope/ . Acesso em 12-07-2012.

[5] BAUMAN, Z. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. Trad. de Carlos Alberto Medeiros, Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 71. A expressão, contudo, é anterior a Bauman e usada por Marcuse na década de 60 do século XX. Ver: MARCUSE, H. One-dimensional man: studies in the ideology of advanced industrial society. 2° printing. London/New York: Routledge, 2002, p. 12.

[6] Em termos de manutenção da ordem e dos vínculos societários, Marcuse afirma que o quadro é o de aprofundamento da dominação pelos próprios dominados, uma vez que foram subtraídos de um “eu” que pudesse resistir à torrente e à disciplinarização; assim, integram-se à opulência de uma sociedade que oferta um consumo que integra a todos, tornando-se sem oposição e, assim, “unidimensional”. Bauman considera que “o segredo de todo sistema social durável [ou seja, que se autorreproduz com sucesso] é transformar seus ‘pré-requisitos funcionais’ em motivos comportamentais dos atores” [BAUMAN, Z. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. Tradução de Carlos Alberto Medeiros, Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 89].

[7] MARCUSE, H. One-dimensional man: studies in the ideology of advanced industrial society. 2° printing. London/New York: Routledge, 2002, p. 12.

[8] BAUDRILLARD, J. A sociedade de consumo. Trad. de Artur Morão, Lisboa: Edições 70, 2010, p. 169.

[9] BAUMAN, Z. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. Tradução de Carlos Alberto Medeiros, Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 09.

[10] BAUDRILLARD, J. A sociedade de consumo. Trad. de Artur Morão, Lisboa: Edições 70, 2010, p. 128.

[11] HEGEL, G. H. F. Fenomenologia do espírito. 7° ed., Trad. de Paulo Menezes, Petrópolis, Bragança Paulista: Vozes, USF, 2002, p. 85.

[12]  MARX, K. O Capital: crítica da economia política – livro primeiro. 14° ed., Tradução de Reginaldo Sant’Anna, Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994, p. 79.

[13] “Como se podem buscar objetivos de longo prazo numa sociedade de curto prazo? Como se podem manter relações sociais duráveis? Como pode um ser humano desenvolver uma narrativa de identidade e história de vida numa sociedade composta de episódios e fragmentos? As condições da nova economia, alimentam, ao contrário, a experiência com a deriva no tempo, de lugar em lugar, de emprego em emprego. Se eu fosse explicar mais amplamente o dilema de Rico, diria que o capitalismo de curto prazo corrói o caráter dele, sobretudo aquelas qualidades de caráter que ligam os seres humanos uns aos outros, e dão a cada um deles um senso de identidade sustentável”. SENNET, R. A corrosão do caráter: consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo. 6° ed. Trad. de Marcos Santarrita, Rio de Janeiro: Record, 2002, p. 27.

[14] DEBORD, G. A sociedade do espetáculo. Trad. de Estela dos Santos Abreu, Rio de Janeiro: Contraponto, 1997, aforismo 40, p. 30 [grifo do autor].

[15] BAUDRILLARD, J. A sociedade de consumo. Tradução de Artur Morão, Lisboa: Edições 70, 2010, p. 36.

[16] SOUZA, J. Os batalhadores brasileiros: nova classe média ou nova classe trabalhadora. 2° ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2012, p. 85 et seq.

[17] “A maior parte dos entrevistados não participa de qualquer organização; entre os que o fazem, a maioria limita-se a participar de uma única organização, em geral de natureza religiosa”. SOUZA, A.; LAMONIER, B. A nova classe média brasileira: ambições, valores e projetos de sociedade. Rio de Janeiro: Elsevier; Brasília: CNI, 2010, p. 160.

[18] Entre votos em branco, nulo e ausências em eleições presidenciais, por exemplo, a porcentagem destes indiferentes com o processo passa dos 30%, número semelhante a países onde o voto não é obrigatório, como nos EUA. OLIVEIRA, F. “Hegemonia às avessas” In: OLIVEIRA, F.; BRAGA; R.; RIZEK, C. [Orgs.] Hegemonia às avessas: economia, política e cultura na era da servidão financeira. São Paulo: Boitempo, 2010, p. 22.

[19] “Nos estudos sobre o consumo nas grandes cidades, que realizamos através o Grupo de Políticas Culturales de Clacso, em Buenos Aires, Santiago do Chile, São Paulo e México, encontramos uma desestruturação das experiências citadinas. Sobretudo nas duas últimas cidades, onde a mancha urbana se disseminou num ritmo muito mais veloz do que a expansão dos equipamentos culturais públicos, observa-se uma atomização das práticas simbólicas e uma baixa assiduidade, e em queda, nos centros comuns de consumo: cinemas, teatros e espetáculos musicais. (…) Os repertórios folclóricos locais, tanto aqueles ligados às artes cultura quanto às populares, não desaparecem. Mas seu peso diminuiu num mercado no qual as culturas eletrônicas transnacionais são hegemônicas, a vida social urbana acontece cada vez menos nos centro históricos e mais nos centros comerciais modernos da periferia, e os passeios se deslocam dos parques característicos de toda cidade para os shoppings, que se parecem em todo o mundo”. CANCLINI, N. G. Consumidores e cidadãos. Trad. de Maurício Santana Dias, Rio de Janeiro: UFRJ, 2010, p. 102 et seq.

[20] Idem, p. 142, p. 161.

[21] “[…] A Coca-cola só tirou proveito do mercado espanhol quando diminuiu o tamanho de suas garrafas ajustando-as às geladeiras existentes no país; uma campanha publicitária rodada na Alemanha, com ídolos do basquete norte-americano, teve pouco apelo, pois os desportistas eram desconhecidos dos europeus; as calças jeans no Brasil são mais apertadas, realçando as curvas femininas; os japoneses sabem que os europeus tendem a adquirir aparelhos estereofônicos fisicamente pequenos, de alto desempenho, mas que possam ser escondidos num armário, já os americanos preferem grandes alto-falantes”. ORTIZ, R. Mundialização e cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 170.

[22] BAUMAN, Z. “A cultura da oferta” In: Capitalismo parasitário: e outros temas contemporâneos. Trad. de Eliana Aguiar, Rio de Janeiro: Zahar, 2010, p. 33.

A “CLASSE C” VAI AO PARAÍSO? A ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL DO BRASIL NO INÍCIO DO SÉCULO XXI [PARTE D*]

1 de janeiro de 2014

“[…] Que somos nós no sistema em que vivemos
senão mercadorias? Estamos à venda, nos oferecemos, fazemos publicidade de nós
mesmos… O importante é que nos aceitem, nos comprem, pois necessitamos
triunfar, ganhar prestígio e dinheiro. Sim, e também simpatia e benevolência. E
nesse jogo mercantil, meu caro, perdemos a identidade, nos transformamos em
coisa…” [Erico Verissimo. Fantoches].

XI

O membro da “classe C” acredita-se mais feliz porque, agora, seu consumo, ao invés de limitar-se à resignação completa, transcende os limites do estritamente necessário, do urgente, do sempre mais barato e/ou de maior durabilidade. Com efeito, forma-se um novo [novo?] ethos do consumo da “classe C”, a saber, o que considera como boa e bela compra a que persegue bens simbólicos que expressam o novo status de pertencimento ao novo estrato social, a que não é circunscrita pelo urgente e imediatamente necessário, a que não se orienta apenas pelo que foi planejado há tempos e que oferta segurança a longo prazo e  resiste à ação do tempo, e a que adquire o que, anteriormente, era classificado como luxuoso e extravagante pelo antigo ethos da carência, da austeridade e do recalque absolutos – trata-se do consumo de artigos suplementares aos da indústria cultural ou, ainda, pertencentes a ela. “Poder econômico é, antes de tudo, o poder de colocar a necessidade econômica à distância”[1], argumentou Bourdieu. Em números médios, os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares de 2002/2003, elaborada pelo IBGE, apontam as diferenças entre o contingente demográfico qualificado como “classe média” e os estratos mais pobres, comparando o que cada um dos grupos gasta do seu orçamento em vários itens da cesta de consumo: em alimentação, a “classe média” gasta metade [16,5%] do que despendem os estratos mais pobres [31%], mas a primeira gasta mais com alimentação fora do domicílio e com produtos industrializados; em transporte urbano, enquanto os estratos mais pobres gastam 1,5% mais do seu orçamento que a “classe média”, esta gasta mais em viagens, em combustível, em aquisição e em manutenção de veículo próprio; em vestuário, os estratos mais humildes também gastam 0,6% mais de seu orçamento que a “classe média”, mas esta gasta mais quando se trata de itens como joias e bijuterias; em assistência à saúde [plano/seguro de saúde, tratamento dentário e consultas médicas], a “classe média” gasta mais que os estratos mais pobres por ter maior poder orçamentário para escapar da baixa qualidade do serviço público de saúde; em educação, também é a classe média que gasta mais que os estratos mais pobres – enquanto a primeira gasta 3,9% do seu orçamento, a segunda gasta 0,9%, números que mostram a perpetuação de um dos fatores de desigualdade para a atual e para as próximas gerações; em recreação e cultura, a classe média gasta o dobro do que gasta os estratos mais pobres; em ativos [aquisição e reforma de imóveis e outros investimentos], a classe média também gasta mais [3,8%]; por fim, em outros itens da cesta de consumo como impostos, contribuições trabalhistas, serviços bancários e previdência privada, a “classe média” gasta 10% do seu orçamento enquanto os estratos mais pobres apenas 3,3%[2].  Contudo, a “classe C” consome produtos não verdadeiramente luxuosos, mas que os imitam, embora sejam distintivos em relação aos estratos mais pobres, também são em relação aos estratos mais ricos; ela afasta-se dos primeiros, mas também dos segundos justamente por que se reduz à condição de emuladora, alcançando distinção do primeiro grupo ao transcendê-lo e do primeiro por não alcançá-lo. Assim, trata-se de um consumo que é alienação em segundo grau, uma vez que a “classe C” ratifica produtos de segunda classe para si mesma, nada elabora de novo, subtrai-se da autonomia de pensar e agir conforme si mesma, atribui às mercadorias que servem de modelo o estatuto de dominantes e, assim, agrilhoa-se ao consumir cópias, bem ou mal feitas, caindo vítima de um “desapossamento de segundo grau”[3] expresso em espumantes que imitam bebidas luxuosas e corino que imita couro[4]. A gratificação que alcança ao consumir imitações dos bens dominantes – vestuário, alimentos e bebidas, cosméticos, mobílias, eletrodomésticos, automóveis e lazeres colonizados pela indústria cultural – é o hedonismo do possível e expressa a diferença do novo ethos do consumo em relação à carência que sentia em décadas anteriores, mas que não deixa de mutilar e alienar à medida que veicula a subserviência à cultura hegemônica e a dominação simbólica; é um pseudo-hedonismo à medida que açula novas necessidades e desejos de modo que estes sempre aumentam, tal como aumenta a ansiedade em satisfazê-las, diminuindo o prazer: a necessidade de renovar as quinquilharias e o próprio ambiente no lar é, para Baudrillard[5], necessidade própria a um tempo de difusão das bugigangas e que expressa as relações sociais mediadas por elas e que distanciam as pessoas uma das outras. Trata-se da interiorização da dominação objetiva, mas de forma mais confortável que em etapas anteriores: o que Bourdieu e a Teoria Crítica diagnosticaram aos seus âmbitos e épocas parece encontrar alguma recepção material, e não apenas acadêmica, no Brasil atual – o controle social ocorre não apenas por coerção, mas por sedução; não apenas pela obrigação, mas pelo hedonismo; não apenas pelo ideal ascético da poupança e do futuro, mas pelo gozo presente. O membro da “classe C” é dominado justamente enquanto desfruta dos bens que, agora, consegue consumir: além daqueles bens materiais tradicionais, também conhece o reino da indústria do turismo em ascensão, dos jogos eletrônicos, dos lazeres que estimulam os sentidos como os parques temáticos, os espetáculos e as práticas esportivas [de busca de alto desempenho ou lúdicas], a visita ao shoppingcenter como atividade lúdica, de diversão e sem uma finalidade que reduza o passeio e o consumo à utilidade, mas que alavanque-os à contemplação e à aquisição de uma amálgama de artigos que resumam o que há em toda a cidade, mas de modo climatizado e a qualquer momento, durante a semana ou aos finais da mesma, ao dia ou à noite, ofertando uma “ambiência”[6] que administra a vida. Quinquilharias como acessórios, souvenirs, objetos de plástico, aparelhos eletrônicos com funções nunca acionadas pelos usuários se proliferam industrialmente e podem ser combinados entre si e com todos os elementos que compõem os ambientes de modo a formar uma panóplia: o kitsche e o gadget[7] são mercadorias-forma-de-controle-social com as quais os dominados divertem-se com a subserviência a qual se submetem. Se, por um lado, o aumento do poder de compra embaralhou o comportamento de consumo das classes sociais à medida que as “classes” A, B e C amam as mesmas marcas e parecem consumir artigos que transcendem a mera necessidade e alcançam o bem-estar, o luxo, o lazer, a primazia do presente em relação ao passado e ao futuro [mesmo que uns sejam imitações de outros] e, de modo geral, problematizam o habitus [“princípio gerador de práticas objetivamente classificáveis e, ao mesmo tempo, sistema de classificação (principium divisionis) de tais práticas”[8]] de classe tal como pensado por Bourdieu, de outro, não dá para negligenciar que há gostos de classe hegemônicos e que estenderam seus tentáculos sobre os estratos emergentes, tal como não é possível desconsiderar que as classes mais abastadas encontram em artigos de maior valor – na transição do Império para a República, um piano de cauda[9], por exemplo; hoje, títulos de novas propriedades de capital – o meio de discernirem sua cesta de consumo, e a si mesmas, das classes inferiores. Do ponto de vista histórico de longa duração, há semelhança entre a atual “classe C” e os recém-endinheirados do Brasil imperial que, de acordo com a descrição de Gilberto Freyre, imitavam os senhores de engenho ao, com a mobilidade social e a posse de dinheiro, alcançarem títulos nobiliários como os de barões e viscondes[10] – a macaqueação dos estratos superiores pelos inferiores não apenas elevava, também rebaixava à medida que o padrão de status era mantido. O mesmo fenômeno ocorreu entre escravos libertos que, para alcançarem status de homens livres, procuraram adquirir distintivos de tal situação: houve quem usou sobrecasaca de doutores, chapéu alto, luvas, botinas de bico fino, farda da Guarda Nacional e do Exército e tudo o que emulava os senhores do sobrado[11]. Da mesma forma, a “classe C” – embora não por títulos nobiliários, mas pelo consumo [e sem o poder dos recém-endinheirados do século XIX] de quinquilharias – enlameia-se à medida que busca o céu do consumo, mas encontra o inferno de um falso novo ethos: a carência é sempre reposta, o arcaico sempre retorna em um admirável mundo novo no qual o anúncio é público e substancial, mas a posse privada e formal, e o próprio gosto de classe atesta, como interiorização da dominação, a posição rebaixada da “classe C” à medida que busca distinção. Torna-se necessário um trabalho acerca do gosto[12] [não gerado espontaneamente, mas enraizado em contingências históricas e agente de autodominação] da “classe C”, semelhante ao que Pierre Bourdieu fez acerca das diferenças de gostos [estéticos, alimentares, decorativos, de vestimenta e de disposições corporais, de escolha de práticas esportivas…] nas classes sociais francesas e no modo como elas foram socializadas na segunda metade do século XX [não apenas o capital econômico conta, o cultural e o social também precisam ser levados em conta nas estratégias de distinção], para completar os dados empíricos acima expostos por Márcio Pochmann.

XII

Interiorização da dominação remete ao modo que a socialização dos mecanismos de controle são absorvidos pelos membros da sociedade: Marx, com o conceito de ideologia, mostrou como os grupos dominados reproduziam as condições de suas próprias dominação; Weber mostrou a afinidade eletiva entre a economia e a ética protestante para a emergência e a manutenção de uma ordem social específica; a Teoria Crítica adicionou as contribuições da Psicanálise à análise da questão e lançou mão de conceitos como retorno do reprimido para explicar comportamentos autoritários mesmo naqueles que declaravam lutar pela liberdade. O consumo que o membro da “classe C” começa a conhecer também pode ser descrito como forma de dominação colocada em prática pelos próprios dominados: no capitalismo monopolizado em vigência, controla-se a produção e a distribuição das mercadorias, administram-se os preços e o que se pode ou deve adquirir em cada faixa salarial – tal como os trabalhadores foram despossuídos dos meios de produção nos primeiros séculos do capitalismo, os consumidores atuais são despossuídos da livre escolha sobre quais mercadorias escolherem à medida que as sondagens, os estudos de mercado, a publicidade e o marketing não deixam espaço para idiossincrasias – de 2006 a 2012, a aumento em consórcio de automóveis por parte da “classe C” cresceu 108,3%, o que expressa a força da ideologia de que todos devem possuir um carro[13]. Os comportamentos dos consumidores, suas necessidades e suas satisfações precisam ser administrados e manipulados para que a lógica de reprodução de capital seja cada vez mais intensificada: vídeos que veiculam anúncios em transporte público, aparelhos de televisão em restaurantes, comerciais em camisas de clubes esportivos são fenômenos expressivos de uma época do anúncio totalitário. Com efeito, superimposição de necessidades, como fenômeno histórico próprio às sociedades opulentas, é uma forma suplementar de imposição de necessidades e de dominação/disciplinarização, conforme argumentou Marcuse[14] [como a sociedade brasileira está distante da opulência norte-americana, é verdade, também, que a dominação/disciplinarização não atinge o mesmo grau]. E é um fenômeno que, para ser bem interpretado, considera as próprias necessidades humanas como históricas, conforme, além de Marcuse, Baudrillard adverte: supor necessidades naturais que se estabilizariam com a redução da oferta exagerada de mercadorias seria supor a existência de necessidades autênticas e a-históricas, o que não explicaria porque os consumidores “mordem o anzol”[15]. Mais que diabólicas estratégias de marketing para manipular o comportamento das pessoas [mesmo que elas continuem importantes e atuantes, ver XIII], há um sistema que, ao invés de manipular necessidades uma a uma e direcioná-las a objetos, um a um, organiza e administra as necessidades como uma força produtiva tão importante como foram os recursos tecnológicos empregados na produção, tal como descritos por Marx, e a ética protestante tal como descrita por Weber. Cada mercadoria consumida é, além do valor de uso nela contida, um denotativo de status e distinção, um signo que expressa e contribui para a acumulação desenfreada de capital. Seja diferente, tenha X. Você que é, deixe de ser para ser assim; interiorize esta mercadoria e não seja. Destarte, o “membro da classe C” perde individualidade à medida que se identifica a todos e, por ter a necessidade de consumir algo que pretensamente lhe dê autonomia, reconhecimento, apenas coloca-se como uma peça da engrenagem que gira dominando-o[16]. O capitalismo monopolista oferta modelos a serem seguidos por quem quer diferenciar-se, mas, em verdade, inclina a renunciar à diferença, uma vez que orquestra sistematicamente os estilos que prometem distinção e, assim, subtrai as idiossincrasias de cada um à medida que há subserviência ao modelo universalizado industrial e comercialmente.

XIII

O membro da “classe C” acredita-se mais feliz porque, em apoio ao aparente novo ethos de consumo, usa as benesses da indústria do crédito fácil [de entrar, mas não de sair] para não postergar a realização dos desejos; a austeridade e o recalque, importantes para a administração do orçamento e para a própria formação do capitalismo, como Max Weber argumentou eu A ética protestante e o espírito do capitalismo, ou, para uma teoria da civilização de pretensão mais longa, como Freud considerou a repressão como requisito para a emergência e manutenção da civilização, em O mal-estar na civilização, foram substituídos pela gratificação imediata mediante a magia do cartão de crédito que livra o consumidor da necessidade de possuir o dinheiro para alcançar a satisfação; agora, esta é antecipada em relação ao primeiro. Se o consumo é o critério para declarar que uma vida é bem ou malsucedida, nenhum outro “padrão”[17] ou tribunal é usado pela “classe C” para que ela considere-se feliz: de um lado, tudo é mais fácil que a austeridade de outros padrões ou tribunais, basta consumir; de outro, a quantidade de artigos a comprar nunca termina à medida que o consumo não pode parar, e assim, a insatisfação é eternizada. Adquirir coisas e reuni-las continua a ser uma característica das pessoas sob o capitalismo; contudo, sob o capitalismo monopolista da era da acumulação flexível, o descarte e a substituição são gratificações próprias e necessárias à nova dinâmica: uma rodada de compras deve seguir a precedente com um intervalo de tempo cada vez mais curto e, assim, demanda-se substituição das novidades-envelhecidas que envergonham os desatualizados – o próprio corpo é colonizado pela indústria do descarte urgente à medida que vários artigos são ofertados para a remoção de “gordura corporal, rugas faciais, acne, odores corporais, depressão pós-isso ou pós-aquilo”[18]. A obsolescência da estratégia hobbesiana da repressão padronizadora, supervisora e policialesca ocorreu pela estratégia da administração que excita, seduz e açula novas necessidades – o dever e a dominação estão disfarçados como direitos e privilégios. Contudo, para vencer o desagradável e anacrônico adiamento da satisfação, o crédito fácil impôs o “curto adiamento da punição”[19]: para acumular capital em transações financeiras, a indústria do crédito opera exigindo uma parte pequena do pagamento da dívida, desejando que a ausência de débito não seja o estado ideal; apenas um “pagamento mínimo” é exigido e ele não elimina o crédito para empreender novas compras, por isso, as instituições financeiras alcançam uma fonte permanente de lucros à medida que o tipo-ideal de devedor, ao nunca pagar integralmente suas dívidas, continua consumindo e nunca cessa suas dívidas. Trata-se de transformar as pessoas em uma “raça de devedores eternos”[20] a ponto de, para eliminar dívidas antigas, não se proibir a aquisição de novas – as pessoas dependem desta “droga”[21]. Na história do Brasil, não se trata de um fenômeno novo; ao contrário, é uma atualização da estratégia de alguns credores arbitrarem famílias devedoras da população rural e empreenderem sobre elas uma “semiescravidão”[22], durante a transição do período monárquico ao republicano. Atualmente, há números apresentados por Zygmunt Bauman que mostram fenômeno semelhante para a Europa, notadamente a Grã-Bretanha: em relação ao primeiro semestre de 2011, o primeiro semestre de 2012 apresentou aumento de 19,1% na inadimplência, sendo o cheque especial, o rotativo do cartão de crédito e a dívida com imóveis e automóveis os principais motivos do “descontrole no gerenciamento da situação”[23] – expressão que imputa às pessoas, e nunca a lógica sistemática de crédito-endividamento-crédito, a responsabilidade de emaranhar-se na teia que as aprisionam. E quando, por advento de crises, como a de 2009 nos EUA, os consumidores não conseguem honrar seus compromissos, o Estado socorre as instituições financeiras recapitalizando-as com a assistência generosa de dinheiro e com o aumento de impostos a toda a população – o negócio de crédito-endividamento-crise é administrado para transformar-se em crédito-endividamento; quando outra crise ocorrer, o “Estado assistencial para os ricos”[24] socorre novamente a indústria de crédito e evita o colapso de uma fonte tão importante de lucro, no capitalismo atual, como foi a da indústria de bens secundários no século passado. Não interessa resolver o problema, mas conferir legitimidade ao Estado como salva-vidas do capitalismo em vigência, tanto no que concerne à educação dos trabalhadores para a contratação pelo capital, arcando com sua educação e disponibilidade para o trabalho, como à garantia de crédito sempre que este corra o risco de ser suspenso. O importante é que o crédito não cesse: a crise de abstinência pela carência da droga não é desejada pelos dependentes e nem pela enorme generosidade dos bancos-traficantes. Por que explorar apenas os membros da “classe C” enquanto trabalhadores se é possível explorá-los, concomitantemente, enquanto consumidores?


* Novos aforismos serão publicados em 1-2-2014.

[1] BOURDIEU, P. A distinção: crítica social do julgamento. Trad. de Daniela Kern e de Guilherme J. F. Teixeira, São Paulo: Edusp; Porto Alegre: Zouk, 2007, p. 55.

[2] POCHMANN, M. [et alli]. Classe média: desenvolvimento e crise. São Paulo: Cortez, 2006 [Atlas da nova estratificação social no Brasil, vol. I], pp. 90-95.

[3] BOURDIEU, P. “Gostos de classe e estilos de vida” In: Pierre Bourdieu: Sociologia. Tradução de Paula Montero, São Paulo: Ática, 1983, p. 100.

[4] BOURDIEU, P. A distinção: crítica social do julgamento. Trad. de Daniela Kern e de Guilherme J. F. Teixeira, São Paulo: Edusp; Porto Alegre: Zouk, 2007, p. 361.

[5] BAUDRILLARD, J. A sociedade de consumo. Trad. de Artur Morão, Lisboa: Edições 70, 2010, p. 13.

[6] Idem, p. 17.

[7] “A máquina foi o emblema da sociedade industrial. O gadget constitui o emblema da sociedade pós-industrial. Não existe definição rigorosa do gadget. Se se aceitar a definição do objeto de consumo pelo desaparecimento relativo da sua função objetiva [utensílio] em proveito da função de signos, se se admitir que o objeto de consumo se caracteriza por uma espécie de inutilidade funcional [o que se consome é inteiramente diferente do útil], então a engenhoca revela-se como a verdade do objeto na sociedade de consumo. Consequentemente, tudo se pode transformar em gadget, e em potência, todas as coisas o são. A inutilidade potencial e o valor combinatório lúdico definiram o gadget”. Idem, p. 142.

[8] BOURDIEU, P. A distinção: crítica social do julgamento. Trad. de Daniela Kern e de Guilherme J. F. Teixeira, São Paulo: Edusp; Porto Alegre: Zouk, 2007, p. 162, grifo do autor.

[9] “Nem nos devemos esquecer, a este respeito, da voga que teve, no Segundo Reinado, o piano, não tanto de sala de concerto, mas de sala de visita e às vezes de sala de música, de casa particular: o vasto piano de cauda que se tornou símbolo de distinção, de gosto e de prestígio social, quer em palacetes aristocráticos de subúrbio, quer em sobrados novos ou burgueses, distinguindo, também, nas casas-grandes de engenhos e fazendas, as casas das famílias aparentemente mais cultas das mais sincera ou rusticamente rurais. Alegradas apenas pela presença de algum violão ou cavaquinho, essas casas-grandes mais rústicas chegaram a ser conhecidas com algum desdém por ‘casas sem piano’; e nelas, como nas urbanas, constatava-se se não a ascensão social ou econômica, o progresso cultural da família sua proprietária, através da aquisição do piano: ‘já tem piano de cauda’. De tal modo o piano se tornou parte do sistema social, ou sociocultural, brasileiro durante o Segundo Reinado e os primeiros anos da República, que alguns observadores estrangeiros a ele se referem como a uma praga; e é evidente que nem sempre terá sido instrumento bem tocado ou manejado pelas iaiás suas senhoras, das quais nem sempre terá sido dócil e obediente escravo”. FREYRE, G. Ordem e progresso: processo de desintegração das sociedades patriarcal e semipatriarcal no Brasil sob o regime de trabalho livre: aspectos de um quase meio século de transição do trabalho escravo para o trabalho livre; e da monarquia para a república. 6° ed. São Paulo: Global, 2004, pp. 313-314.

[10] “A tendência no Brasil, depois que as artes e os ofícios e, principalmente, as indústrias e o comércio foram se impondo como atividades necessárias ao país e compensadoras do esforço de quantos soubessem cultivá-las ou organizá-las e dirigi-las foi para que seus cultores ou diretores tomassem maneiras, gestos e usos dos patriarcas rurais, adaptando-os a novas condições de convivência. Neste ponto anteciparam-se a brasileiros de outras regiões os de Minas Gerais: aqueles mineiros de quem o Conde de Assumar – ou alguém que se supõe ter sido ele – escrevia nos começos do século XVIII que, sendo homens de origem obscura, quando enriqueciam, enfeitavam-se com títulos de ‘Coronéis, Mestres de Campo e Brigadeiros’, imitando assim a nobreza territorial e, ao mesmo tempo, militar, das regiões mais antigas do país. […] Caixeiros de tamancos tornaram-se no Brasil do século XIX senhores comandadores, excelências, titulares. Caixeiros – repita-se – chegaram a barões, viscondes, a grandes de Império. Comerciantes, industriais e até artistas de extrema habilidade morreram no século XIX tão ostensivamente nobres quanto os senhores de terras e mais do que muitos destes, donos de palacetes suntuosos, de carruagens elegantes, de porcelanas marcadas com coroas de barão ou de visconde, de fardas douradas, de condecorações brilhantes como as do militares. A mesma mobilidade que favoreceu entre nós a ascensão de mestiços, de mulatos, de homens de cor, à condição sociológica de brancos, favoreceu a ascensão à condição política de nobres, de comerciantes, industriais, artistas de origem obscura e de começos difíceis”. FREYRE, G. Sobrados e mucambos: introdução à história da sociedade patriarcal no Brasil – 2: decadência do patriarcado rural e desenvolvimento urbano. 10º ed. Rio de Janeiro: Record, 1998, pp. 278-279.

[11] Idem, pp. 293-294.

[12] Para a segunda metade do século XX, na França, Bourdieu caracterizou o gosto de frações de classe que, marcadas pelo não distanciamento das necessidades, produziram um gosto, também , de necessidade: “’Do mesmo modo que o povo escolhido trazia inscrito na fronte que ele pertencia a Jeová, a divisão do trabalho imprime no operário de manufatura um sinete que o consagra como propriedade do capital’. Este sinete, mencionado por Marx não é outra coisa senão o próprio estilo de vida, através do qual os mais desprovidos se denunciam imediatamente, até mesmo no uso de seu tempo livre, dedicando-se, assim, a servir de contraste a todos os empreendimentos de distinção e a contribuir, de maneira totalmente negativa, para a dialética da pretensão e da distinção que se encontra na origem das incessantes mudanças de gosto. Não contentes de estarem, por um lado, destituídos de quase todos os conhecimentos ou maneiras que recebem valor no mercado dos exames escolares ou das conversações mundanas e, por outro lado, de possuírem apenas habilidades desprovidas de valor nos mercados, eles são aqueles que ‘não sabem viver’, que mais se conformam com os alimentos materiais – e com os mais pesados, grosseiros e que levam a engordar, tais como pão, batatas e ingredientes gordurosos –, além de serem os mais vulgares [por exemplo, o vinho]; aqueles que ligam menos para o vestuário e cuidados corporais, para a cosmética e estética; aqueles que ‘não sabem descansar’, ‘que têm sempre algo para fazer’, que montam a tenda em campings superlotados, que fazem o piquenique à beira das grandes rodovias, que se metem na fila dos engarrafamentos da partida para férias com seu Renault 5 ou Simca 1000, que se deixam levar pelos prazeres pré-fabricados, aliás, concebidos para eles pelos engenheiros da produção cultural em grande escala; aqueles que, por todas estas ‘escolhas’ tão mal inspiradas, confirmam o racismo de classe, se é que é necessário, com a convicção de que, afinal, só têm o que merecem” BOURDIEU, P. A distinção: crítica social do julgamento. Trad. de Daniela Kern e de Guilherme J. F. Teixeira, São Paulo: Edusp; Porto Alegre: Zouk, 2007, p. 170.

[13] Disponível em: http://invertia.terra.com.br/carros-motos/noticias/0,,OI5874215-EI19500,00-Consorcio+para+compra+de+carro+na+classe+C+cresce.html . Acesso em 12 de julho de 2012.

[14]  MARCUSE, H. One-dimensional man: studies in the ideology of advanced industrial society. 2° printing. London/New York: Routledge, 2002, p. 07.

[15] BAUDRILLARD, J. A sociedade de consumo. Trad. de Artur Morão, Lisboa: Edições 70, 2010, p. 85.

[16] “A custo se cai na conta de como a iniciação atual ao consumo sistemático e organizado constitui o equivalente e o prolongamento, no século XX, da grande iniciação, durante todo o século XIX, das populações rurais no trabalho industrial. O processo de racionalização das forças produtivas que ocorreu durante o século XIX, no setor da produção, alcança o termo no século XX, no setor do consumo. O sistema industrial, depois de socializar as massas de trabalho, deveria ir mais longe para se realizar e as socializar [ou seja, controlá-las] como forças de consumo. Os pequenos economizadores ou consumidores anárquicos do período anterior à guerra, com liberdade de consumir ou não, nada têm a fazer em semelhante sistema”[16]. Idem, pp. 96-97.

[17] BAUMAN, Z. O mal-estar da pós-modernidade. Trad. de Mauro Gama, Cláudia Martinelli Gama. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 56.

[18] BAUMAN, Z. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. Trad. de Carlos Alberto Medeiros, Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 53.

[19] BAUMAN, Z. Capitalismo parasitário: e outros temas contemporâneos. Trad. de Eliana Aguiar, Rio de Janeiro: Zahar, 2010, p. 13.

[20] Idem, p. 19.

[21] Idem, p. 24.

[22] FREYRE, G. Ordem e progresso: processo de desintegração das sociedades patriarcal e semipatriarcal no Brasil sob o regime de trabalho livre: aspectos de um quase meio século de transição do trabalho escravo para o trabalho livre; e da monarquia para a república. 6° ed. São Paulo: Global, 2004, p. 852.

[23] FOLHA DE SÃO PAULO, 11-07-2012. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/1118385-inadimplencia-do-consumidor-cresce-19-no-semestre-diz-serasa.shtml . Acesso em 11-07-2012.

[24] BAUMAN, Z. Capitalismo parasitário: e outros temas contemporâneos. Trad. de Eliana Aguiar, Rio de Janeiro: Zahar, 2010, p. 23.

A “CLASSE C” VAI AO PARAÍSO? A ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL DO BRASIL NO INÍCIO DO SÉCULO XXI [PARTE C*]

2 de dezembro de 2013

“Como é que se pode gostar do verdadeiro no
falso?” [João Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas]

VIII

Sob tal enquadramento socioeconômico, o membro da “classe C” acredita-se mais feliz[1] porque, agora, consome. Contudo, sob o compasso de uma sociedade de classes, o membro da “classe C” compra apenas o que é possível, permitido e incentivado para a sua “classe”: quando alcança um degrau acima na escala de consumo, outros e mais distantes aparecem, “a linha de chegada se move junto com o corredor”[2] e o “hiato”[3] entre o desejo e o desejado aumenta. De Bauman, Pochmann e Lipovetskydecorrem argumentos que fazem pensar na distância adicional que, em três veredas, foi colocada entre a “classe C” e a conquista do consumo que alcançaria a felicidade. Por um dos caminhos, com o atual quadro de capitalismo financeiro, a posse da propriedade não se limita apenas a imóveis, máquinas e quinquilharias de toda ordem, mas contempla também ativos não tangíveis [patentes, marcas e imagens, propriedade intelectual] dos quais a “classe C” não participa[4]. Na segunda vereda, a despeito da “classe C” adquirir artigos em sua cesta de consumo anteriormente não contemplados, a concentração de renda, em âmbito mundial, apenas aumentou: corporações transnacionais são mais poderosas que os estados nacionais e operam acima deles[5], dividindo o mundo em superproprietários e proprietários de bens secundários, distanciando os últimos da felicidade restrita aos primeiros. Por fim, à medida que o consumo se torna mais abundante, as satisfações desejadas também crescem[6], seja para regozijo pessoal do consumidor ou para denotação da posse de algum artigo que torne o seu possuidor uma pessoa distinta de outros estratos[7]. E cada vez que se compra, ratifica-se a ordem que coloca o membro da “classe C” em posição inferiorizada: a pretensa vitória sobre a escassez, mesmo estando distante de ser equiparada à opulência da classe média norte-americana, administra e submete a “classe C” à tautologia de trabalhar para se apossar de novos artigos sem perceber que é despossuída de si mesma à medida que, consumindo-os, forma a teia na qual se emaranha e embaralha seus fins com os meios da sociedade de [re]produção de mercadorias e não se percebe, também, como meio de fins não traçados por ela. Como força produtiva, a “classe C” é uma forma de manutenção do status quo, ela se constitui de uma economia psíquica correlata que, incentivada ao consumo ininterrupto de mercadorias, prepara-se constantemente para a excitação e, consequentemente, se hipercatexiza e, por isso, sente desejo de excitações ainda maiores: trata-se de um entorpecimento que, além de repor desenfreadamente a ansiedade pela nova mercadoria, exige satisfações tão fortes que inclinam à sadomasoquística procura de situações-limites ofertadas em parques de diversões, jogos eletrônicos, transgressões no trânsito das grandes cidades, obesidade mórbida e toda a forma de comportamento compulsivo. Caso não consiga realizá-las, sente-se infeliz; caso consiga, entorpece-se com a idiotia espetacularizada pela indústria cultural. A declaração de felicidade, enunciada pela “classe C” brasileira ao início do século XXI, emitida por sua economia psíquica de infelicidade e de entorpecimento, alcançaria, no limite, o que Marcuse denominou “euforia na infelicidade”[8], conceito com o qual explicou a realidade norte-americana da segunda metade do século XX. Como o conceito, contudo, é válido para uma sociedade opulenta, mesmo a euforia deve ser problematizada para a sociedade brasileira de carência secular; nem a euforia alcançada pela “classe C” é tão forte quanto em países em que verdadeiramente existe uma sociedade de consumo.

IX

O membro da “classe C” acredita-se mais feliz porque, agora, mesmo não consumindo tudo o que é produzido, conforta-se com o que pode consumir. Contudo, mina a própria satisfação obtida à medida que o consumo de uma tábua restrita de artigos exige a correspondente restrição das faculdades mentais e sensoriais: o compasso entre o que é ofertado e o que se pode consumir deteriora tanto o consumo como o consumidor. Trata-se de uma semissatisfação limitada à “leitura do cardápio”[9]: quanto mais o membro da “classe C” consome os artigos da tábua adequada ao seu orçamento, mais se castra – a razão impede que nem tudo pode ser consumido porque avalia que as dívidas, posteriormente, subtrairão a tranquilidade e, assim, em nome da prudência e da segurança, o membro da “classe C” de perfil neoepicurista acredita alcançar fruições mais estáveis e seguras limitando o próprio consumo. Ademais, o habitus ascético formado por décadas de carência e não imediatamente desmantelado pelo novo cenário, ensinou um certo contingente de membros da “classe C”, a despeito da aparente mobilidade social ascendente, a não mudar a cesta de consumo e a não introduzir novos itens, reforçando a semissatisfação: é o que acontece com uma família pequeno-comerciante da feira de Ver-o-peso, Belém [PA], que mesmo com recursos para fazer pequenas viagens, diversificar a alimentação com introdução de refeições diferentes das servidas na feira e adquirir transporte privado, continua com hábitos simples e usando transporte público[10]. Trata-se de uma razão que opera mais para evitar o desprazer do que para alcançar o prazer, uma razão automutiladora que redunda em resignação e embarga a fruição: o quanto mais calcular, mais se resigna; o quão mais submete a sensibilidade, mais a inferioriza e a limita – o que a razão permite como fruição está “tingido de infelicidade”[11]. Trata-se de uma razão que não é remédio, mas veneno.

X

O membro da “classe C” acredita-se mais feliz e livre porque, mesmo não consumindo tudo, consome algo e, por isso, sua resignação nunca é total: ele julga-se livre da heteronomia que a antiga carência impunha, uma vez que vivia sob a dependência de políticas públicas de transferência de renda e/ou de uma rede de capital social débil economicamente, seja na figura de um pequeno patrão ou de favores familiares e de amigos. Contudo, o consumo alcançado sob o novo contexto não elimina a heteronomia e nem a carência: o membro da “classe C” é mobilizado como força produtiva para uma vida desprivatizada e administrada na qual a compra de artigos o integra à produção e reprodução ininterrupta de capital, isto é, na qual se torna sujeito da própria sujeição à medida que sua formação como sujeito é impedida e se torna uma “semiformação”[12] [Halbbildung] e que o consumo massivo de construtos estéticos não é engrandecedor para quem consome, mas barbarizante justamente porque o que se consome é o arcaico, cuja característica óbvia é a reposição da carência. A indústria cultural é um dos artigos da cesta de consumo que a “classe C” é incentivada a consumir e um dos que mais consome – e sua vantagem em relação a outros artigos é ser tanto meio de [re]produção de capital como forma de controle social. Em Viver a vida, telenovela da Rede Globo exibida entre 2009 e 2010, a emissora faturou com 112 anúncios de empresas como a Kia, Itaú e Nextel, R$ 70 milhões; tais anúncios ocorreram nas próprias cenas[13], não nos intervalos, misturando anúncios e telenovela – ela mesma uma mercadoria – e inclinando o público ao consumo [planejado pelas grandes corporações] de carro, serviços bancários e telefonia, sem os quais as pessoas tendem a não se considerarem pertencentes à classe média e felizes. A estratégia da emissora é investir cada vez mais na “classe C”, vista como um público de 110 milhões de consumidores a adquirir uma programação – “novelas classe C”[14] – que auxilie a enquadrá-lo no esquematismo pré-estabelecido de concorrência ilusória à medida que as pessoas fazem “escolhas” de consumir alguns dos bens anunciados. Tal auxílio, em verdade, é um adestramento empreendido pela indústria cultural que resulta em maior dependência em relação ao mercado, uma vez que este envolve ainda mais seus tentáculos no membro da “classe C”. Para a primeira geração da Teoria Crítica –Horkheimer e Adorno, em Dialética do Esclarecimento, Adorno em O fetichismo namúsica e a regressão na audição, para Walter Benjamin em A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica e para Marcuse, em One-dimensional man – não apenas os conteúdos, mas os próprios construtos estéticos são colonizados e tornados veículos de dominação social na forma-mercadoria que assumiram e que, por isso, estão destituídos da preocupação da qualidade e do conteúdo que não veiculam e, ainda, foram produzidos a partir de pesquisas de mercado que antecederam e prepararam as “escolhas” a serem feitas pelos consumidores, dirigindo a percepção deles e, assim, subtraindo-lhes a autonomia. Mesmo uma “democratização” da grande mídia [requerida por NéstorCanclini] não resolveria a questão porque a oferta de centenas de canais de televisão segmentados para os vários tipos de públicos repetiria a padronização [assassina da arte] sob a ilusão da variedade e, em verdade, tal variedade já existe no mercado, o que mostra a afinidade eletiva da programação midiática com a acumulação flexível de mercado em busca de nichos de mercado, mesmo se tratando do mercado nacional contra os conglomerados globais. Nos termos de Bourdieu, eis uma homologia entre produção de bens e recepção por diversos gostos que constituem “estilos de vida”[15] de classes e frações de classes que procuram distinção uma das outras pelos bens que consomem. O que é preciso questionar é se tal distinção é de fato alcançada à medida que todos são reduzidos a consumidores esquadrinhados pelos múltiplos segmentos da indústria cultural. Falta a Canclini caracterizar a linguagem televisiva, o que não deixou de ser feito por Adorno em Prólogo à televisão: a televisão, ao ser consumida doméstica e desatentamente por um público que a recebe com as pernas esticadas, na penumbra, com um tira-gosto ao colo, é uma estratégia planejada de anulação da vida privada e não de ampliação da cultura – a linguagem televisiva anticonceitual e anti-intelectual está integrada à necessidade de repouso psíquico e físico do público para o seu retorno ao mundo do trabalho, posteriormente, e, assim, ao invés de censurar o pensamento, a televisão sequer o exige, adaptando acriticamente o público à barbárie do dia-a-dia com imagens que são tão próximas à realidade que esta é confundida com aquelas, ensejando um retrocesso para a consciência. A “classe C” deseja ligar o aparelho de televisão e dele espera a recompensa para tolerar o intolerável, e por não ter formação cultural adequada, contenta-se com o fluxo de imagens – mesmo o som é acessório à imagem e, por isso, a linguagem verbal também se submete a ela – que, em efeito de choque, embarga a reflexão à medida que o solavanco das cenas que se substituem deseduca o público à medida que o socializa desverbalizando-o. O caso da novela supracitada mostra como o planejamento da socialização para o consumo torna a “classe C”, além de passiva, inclinada a agir em acordo com o que é propagado pelas imagens: estereótipos, heróis e toda a sorte de clichês são pensados após pesquisas de opinião para que as pessoas se vejam nas personagens das novelas, diminuindo ou apagando a fronteira entre realidade e ficção, naturalizando comportamentos, estimulando valores desejáveis e desestimulando indesejáveis de acordo com os financiadores da programação, empreendendo um verdadeiro “campo de concentração do espírito”[16].  Suplementando as mídias analisadas por estes pensadores, os membros da “classe C” também estão rodeados de outras mais recentes e mais compatíveis com o capitalismo de acumulação flexível e da falsa anulação da lacuna entre elaboração e produção suposta pelo toyotismo: na internet [e é sintomático que a internet tenha sido uma invenção do exército norte-americano e que, de acordo com ChristophTürcke, de defesa militar, tenha se transformado em ofensiva civil], hipertextos estão intrincados por links que induzem a associação de ideias por uma programação que segue o esquematismo explicado por Horkheimer e Adorno na década de 1940 e que implica falsa escolha à medida que se clica em caminhos que preveem as associações de ideias que se quer que o leitor faça, administrando seu pensamento, e que jamais indicam a saída do “labirinto”[17], ademais, saltar bruscamente de um link para outro acelera o pensamento de modo a dificultar a reflexão profunda em lugar de contribuir com ela, tal como Walter Benjamin indicava sobre as imagens cinematográficas ainda na década de 1930.O consumo destes construtos estéticos-mercadorias, para usar uma expressão de Baudrillard que designa a aquisição desenfreada de artigos, enseja a identidade do consumidor com o consumido e tal “como a criança-lobo se torna lobo à força de com eles viver, também nós, pouco a pouco, nos tornamos funcionais”[18] à medida que amontoamos artigos de consumo, os colecionamos e os substituímos em conformidade com os imperativos de consumo em vigência e, assim, esquecemo-nos de nossas próprias idiossincrasias, conforme o poema de Drummond expressa[19]. Com algumas décadas de atraso, a “classe C” brasileira começa a, muito limitadamente [a média de ganho mensal é de 1,5 salário-mínimo/pessoa (VI)], enquadrar-se em análises que os autores da Teoria Crítica, Lefebvre, Debord e Baudrillard fizeram para os EUA e para alguns países da Europa. Lá como cá, o quão maior o consumo, maior o disciplinamento e menor a liberdade: a gigantesca capacidade produtiva e distributiva de mercadorias “superimpõe”[20] necessidades não necessariamente verdadeiras. A heteronomia imposta pela dependência pessoal foi substituída pela que transplanta necessidades sociais às pessoas e que lhes subtraem a autonomia e reproduz infinitamente a luta pela posse de bens – trata-se da “sobrevivência ampliada[21] que açula necessidades suplementares àquelas da época da carência e que impede o fim da própria carência, preservando-a mediante uma privação “rica”[22]. Historicamente, trata-se de um fenômeno presente ao Brasil em diferentes momentos: com o fim da escravidão, os senhores abstiveram-se de arcar com os custos de reprodução da força de trabalho; a industrialização após os anos 1930 e a formação da legislação trabalhista significou o mesmo fenômeno à medida que as indústrias não tinham de se responsabilizar pelos custos da reprodução da força de trabalho [manter vilas de operários, por exemplo], bastando a elas o pagamento do salário mínimo[23] e empurrando para os trabalhadores os gastos com necessidades peculiares às cidades grandes e industrializadas: transporte, energia elétrica, educação, saúde[24] – aumenta-se a taxa de exploração do trabalho não diretamente pela via dos cortes salariais, mas indiretamente pela mercantilização do que é necessário para viver. Radicalizando o consumo de falsas necessidades – a reprodução ininterrupta de mercadorias fabrica ininterruptamente falsas necessidades para manter o status quo –, há uma tecnologização da vida que opera não apenas sobre a família, mas sobre cada um de seus membros: automóveis para todos, computadores e telefones portáteis para todos, televisões em muitos cômodos – a parafernália eletrônica pulverizada por todo o lar subtrai o antigo poder dos pais sobre seus filhos, atomiza ainda mais cada um dos membros da família sob a oferta crescente dos programas da indústria cultural pensados para cada faixa etária e estimula ainda mais o consumo à medida que há compras para cada uma das pessoas e não apenas para toda a família. Cada um com seu fone de ouvido não é expressão da autonomia que o consumo alcançaria, como pretende Lipovetsky[25], mas a cooptação de cada um pela heteronomia de tudo e todos pela mediação do mercado: além de o consumo ininterrupto subtrair a liberdade e redundar em uma programação infinita da carência “rica”, embrutece as relações humanas ao torná-las cada vez mais mediadas pelo maquinário que circunda as pessoas dentro e fora de seus lares – Adorno mostra como algumas portas devem ser batidas e outras fecham-se automaticamente, as primeiras [geladeiras, automóveis] embrutecem os movimentos e as segundas inclinam ao desprezo a coisas e pessoas[26]. Com os vínculos societários cimentados pela indústria cultural, a “classe C”, ao acompanhar os reality shows televisivos, em lugar de autonomia, tem sua agenda colonizada por tudo que não interessa a ela, mas a outrem, e repõe o arcaísmo e a carência, mordendo o próprio rabo.


* A próxima parte será publicada em 01-01-2014, neste blog.

[1] Com base em microdados da pesquisa do Gallup Word Poll, Marcelo Neri considera que “o Brasil é o recordista mundial de felicidade futura. Em uma escala de zero a dez, o brasileiro dá nota média de 8,60 a sua expectativa de satisfação com a vida em 2015, superando, junto com o Turcomenistão, todos os demais 154 países da amostra, cuja média era 6,75 e a mediania 6,7. (…) Em 2006, o Brasil era o número 22 no ranking mundial de felicidade presente, acima da posição no ranking de renda número 52, entre 132 países. Ou seja, tínhamos mais felicidade presente que nosso dinheiro no bolso sugeriria. De 2006 para 2009, a posição relativa do país aumentou de 22° lugar, entre 132 países, para 17° lugar, entre 146 países, e agora voltamos ao 22° lugar, mas entre 152 países. Estávamos em 2011, entre os 16,7% dos países mais felizes, em 2009, no auge da crise a 11,8%, e em 2010 voltamos à faixa de 14,5%”. NERI, M. A nova classe média: o lado brilhante da base da pirâmide. São Paulo: Saraiva, 2011, pp. 70-72. Grifo nosso.

[2]BAUMAN, Z. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. Trad. de Carlos Alberto Medeiros, Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 166.

[3] BAUMAN, Z. O mal-estar da pós-modernidade. Trad. de Mauro Gama, Cláudia Martinelli Gama. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 54.

[4] POCHMANN, M. (et. alli). Proprietários, concentração e continuidade. São Paulo: Cortez, 2009 [Atlas da nova estratificação social no Brasil, vol. 3], p. 16.

[5]“(…) No ano de 2006, por exemplo, as quinhentas maiores corporações transnacionais foram responsáveis pela geração de receitas anuais estimadas em 21 trilhões de dólares. Somente as três maiores corporações transnacionais [Wal-Mart Stores, Exxon Móbil e Royal Dutch Shell] produziram, no mesmo ano, um conjunto de receitas equivalentes ao PIB brasileiro. Ou seja, a propriedade das corporações transnacionais se tornou maior que grande parte das nações do mundo.

Em simultâneo ao processo de concentração e centralização do capital em cada vez menos corporações transnacionais, converge a constituição de uma superelite mundial de proprietários privados, consagrada por poucos clãs de familiares extremamente ricos. Trata-se de um conjunto amplificado de cerca de 250 mil clãs familiares que respondem por mais de 50% da riqueza contabilizada do mundo. Em contrapartida, no planeta, há cerca de 1,5 bilhão de famílias, a maior parte destituída de qualquer forma de propriedade”. Idem, pp. 33-34.

[6] LIPOVETSKY, G. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. Tradução de Maria Lucia Machado, São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 38.

[7] Seria exagerado aceitar que a nova fase de consumo, a pensada por Lipovetsky para o âmbito europeu como a de hiperconsumo, suplantaria a fase anterior, a do consumo ostentatório, simbólico, no âmbito brasileiro: nesta o consumidor adquire algo que expresse seu status e que simbolize sua posição, enquanto na primeira consome algo por regozijo graças à democratização do consumo. Contudo, além do consumo ostentatório ser regozijante para aquele que consome, o hiperconsumidor sente-se bem também por, mediante o bem adquirido, acreditar-se diferente dos demais. A miopia de Lipovetsky – e de uma série de antropólogos, como Canclini [ver X] – em relação a estas questões ocorre por negligenciar que o “indivíduo” possuiria faculdades mentais e sensoriais não-deterioradas pela “sociedade de consumo” e autônomas em relação a ela; assim, este indivíduo pensado como um cogito cartesiano ou uma mônadaleibneziana alcançaria uma “felicidade privada”, seria regulado por “critérios individuais”, consumo de “objetos ‘para viver’, mais que objetos para exibir”, mais “para si” do que “para o outro”, o que tornaria possível um “consumo criativo” pelo qual ocorreria a distinção em relação a outras pessoas e garantiria “função identitária” ao consumidor e uma relação “emocional” com os artigos que estimulam seus sentidos. Consumir-se-ia artigos de marca, segundo Lipovetsky, mais para satisfação do desejo narcísico e da consideração de se ser uma pessoa de qualidade e distinta em relação ao demais do que para pavonear-se. Idem, pp. 39-59.

[8] “Euphoria in unhappiness”. MARCUSE, H. One-dimensional man: studies in theideologyofadvanced industrial society. London/New York: Routledge, 2002, p. 07.

[9] HORKHEIMER, M.; ADORNO, T. Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos. Tradução de Guido Antonio de Almeida, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985, p. 131.

[10] SOUZA, J. Os batalhadores brasileiros: nova classe média ou nova classe trabalhadora. 2° ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2012, p. 154.

[11] MARCUSE, H. “Para a crítica do hedonismo” In: Cultura e Sociedade vol. I. Tradução de Wolfgang Leo Maar, Isabel Maria Loureiro, Robespierre de Oliveira, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997, p. 171.

[12]ADORNO, T. Theorie der Halbbildung. Frankfurt amMain: Suhrkamp, 2006, p. 08.

[13] JIMENEZ, K. “Sem intervalo” In: O Estado de S. Paulo, 14-04-2010.

[14] “Globo mira classe C e se preocupa com TV paga” In: Folha de S. Paulo, 07-03-2012.

[15] BOURDIEU, P. A distinção: crítica social do julgamento. Trad. de Daniela Kern e de Guilherme J. F. Teixeira, São Paulo: Edusp; Porto Alegre: Zouk, 2007, p. 216.

[16] FRANCO, R. “A televisão segundo Adorno: o planejamento industrial do ‘espírito objetivo’” In: DURÃO, F. A.; ZUIN, A.; VAZ, A. F [Orgs.]. A indústria cultural hoje. São Paulo: Boitempo, 2008, p. 122.

[17] TÜRCKE, C. “Hipertexto” In: DURÃO, F. A.; ZUIN, A.; VAZ, A. F [Orgs.]. A indústria cultural hoje. São Paulo: Boitempo, 2008, p. 34.

[18]BAUDRILLARD, J. A sociedade de consumo. Trad. de Artur Morão, Lisboa: Edições 70, 2010, p. 14.

[19] DRUMMOND. “Eu, etiqueta” In: O corpo. Rio de Janeiro: Record, 1984, pp. 85-87.

[20] MARCUSE, H. One-dimensional man: studies in the ideology of advanced industrial society. 2° printing.London/New York: Routledge, 2002, p. 07.

[21] DEBORD, G. A sociedade do espetáculo. Tradução de Estela dos Santos Abreu, Rio de Janeiro: Contraponto, 1997, aforismo 40, p. 30 [grifo do autor].

[22] Idem, aforismo 44, p. 32.

[23] OLIVEIRA, F. de. Crítica à razão dualista; O ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003, p. 66.

[24] Idem, p. 84.

[25] LIPOVETSKY, G. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. Tradução de Maria Lucia Machado, São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 105.

[26] ADORNO, T. Minimamoralia: reflexões sobre a vida danificada. 2° ed.Trad. de Luiz Eduardo Bicca, São Paulo: Ática, 1993, aforismo 19, p. 33.

A “CLASSE C” VAI AO PARAÍSO? A ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL DO BRASIL NO INÍCIO DO SÉCULO XXI [PARTE B*]

1 de novembro de 2013

“Perseu tinha um capacete que o

tornava invisível, para perseguir

os monstros. Nós, de nossa parte, nos

embuçamos com nosso capuz mágico,

tapando nossos olhos e nossos ouvidos,

para poder negar as monstruosidades existentes”.

[Marx. O capital]

IV

Entre os primeiros séculos de ocupação e colonização do país – Sérgio Buarque de Holanda prefere o termo “feitorização”[1] a colonização – , a organização da Colônia para abastecimento do mercado europeu empreendeu um eixo para a atividade econômica baseado em propriedades extensas, como os engenhos, em donatários, como proprietários, e em escravos, indígenas e africanos, como a força de trabalho na agricultura[2]; tal mecanismo de donataria, formadora de províncias e vilas nas quais o donatário exercia o poder político, foi mais seguro e eficiente para a Coroa portuguesa do que a estratégia do cunhadismo[3], que mesmo assim continuou em uso e formou um grande contingente de mamelucos. Como atividade acessória a este eixo, há a pequenez de uma incipiente vida urbana voltada para a administração dos núcleos coloniais e ao comércio que, constituída de pessoas sem tempo para também garantirem seus proventos mediante a agricultura, formaram uma “classe média entre grandes proprietários e escravos”[4]. As derrotas portuguesas na Europa e no mundo, nos séculos XVI e XVII, notadamente a perda do comércio asiático, fizeram a metrópole extrair da Colônia o máximo de recursos possíveis: concomitante ao povoamento que o Brasil iniciou a ter de forma não vista anteriormente, ocorria a centralização da administração que garantia o monopólio de tudo que era produzido no território. Com a descoberta do ouro e do diamante no Centro-Sul da Colônia, concomitante à decadência da agricultura do açúcar por conta da derrota na concorrência com as Índias Ocidentais, no século XVIII, houve a hegemonia da atividade econômica na extração de minérios até estes se esgotarem ou tornarem-se economicamente inviáveis, no mesmo século, e desprezo – embora não tenham desaparecido – por outras atividades, mesmo o açúcar produzido nos engenhos das antigas capitanias de Pernambuco, Bahia e, em grau menos vultoso, considerado “medíocre”[5] por Gilberto Freyre, em São Vicente; as lavras desempenharam o papel dos engenhos e a mão-de-obra escrava africana foi, nelas, quase absoluta; a exemplo da época de hegemonia do açúcar, atividades auxiliares se desenvolveram para abastecer a população agora concentrada no Centro-Sul, tal como a pecuária, que se desenvolveu acompanhando o Rio São Francisco, e o extrativismo no Vale Amazônico. O retorno à agricultura encontrou em outro produto, o algodão, a base da mesma lógica comum ao Pacto Colonial que não se altera até 1808, ano da transferência da Coroa para a Colônia – o aumento da população na Europa e a Revolução Industrial exigiram grande consumo da matéria-prima para a indústria têxtil e o algodão começou a ser produzido em larga escala também nas colônias ocidentais, uma vez que apenas os fornecedores do Oriente já não eram suficientes. De forma geral, em qualquer bem primário explorado ao limite e que fazia a atividade econômica movimentar-se a solavancos [intensiva exploração, decadência e extinção], a mão-de-obra baseava-se no trabalho escravo, redutor do homem a mero instrumento bruto e muscular [animalizando-o] de trabalho e que ficava ao dispor do senhor para que este fizesse dele o que quisesse – no campo e na cidade, a escravidão ocupava a vida social e foi empregada em todo o tipo de trabalho, deixando pouco espaço para atividades a serem desenvolvidas por trabalho livre [feitor, mestre de engenho, servidor público, profissional liberal (não existiam mais que 32 advogados em 1792, no Rio de Janeiro, e nenhum médico verdadeiro em 1818, em São Paulo), negociante (esta última era uma atividade restrita aos reinóis, isto é, os nascidos em Portugal) e sacerdote (esta era uma atividade que, verdadeiramente, permitia mobilidade social a pessoas de origem social humilde)]. Além de índios capturados e escravizados nas Bandeiras, Darcy Ribeiro apresentou uma “demografia hipotética”[6] que mostra a importação de 6,3 milhões de escravos importados da África entre 1540 e 1860. Eis, assim, um “vácuo imenso entre os extremos da escala social”[7]: senhores [poucos] e escravos [em massa] estavam em posições equidistantes e, entre eles, pessoas ocupadas na incerteza das atividades supracitadas, brancos desclassificados que recusavam-se a atividades desenvolvidas por escravos e que, assim, caíam na vadiagem e no crime, índios sem ajustamento definido à sociedade que os retirou de aldeias autóctones, mestiços sem atividade definida, agregados às famílias dos senhores de engenhos que prestavam pequenos serviços em troca de provimentos e proteção. Ademais, a ausência de artífices livres nas cidades da Colônia, além de contar com o trabalho escravo como causa primária, ainda resultava da ânsia daqueles que, ao enriquecer, queriam ascender à vida livre de qualquer espécie de trabalho[8]. Além da escravidão, o sistema econômico da produção colonial, que sufocava atividades que não aquelas de interesse exportador, e a própria instabilidade de um sistema que dependia dos anseios internacionais que formavam e extinguiam atividades, deixando desamparadas pessoas nelas empregadas, foram o contexto colonial de uma sociedade que continha um setor médio[9] – entre senhores e escravos – vivendo “à margem da ordem social”[10]. Contradições entre proprietários [senhores de engenho, lavradores, fazendeiros – brasileiros que consideravam-se a aristocracia do lugar] e comerciantes [em maioria, portugueses], entre os grupos étnicos, o risco constante e iminente de revoltas de escravos – tais são tensões que acompanharam o sistema colonial até o seu desfecho. Entre a vinda da família real, a Independência e o Império, tornou-se transparente a crise dos anacrônicos impérios ibéricos diante da passagem do capitalismo comercial ao industrial: somente no quadro do primeiro a escravidão e o Pacto Colonial faziam sentido; no segundo, a manufatura, na Europa sob a Revolução Industrial, fez desaparecer e substituiu o pequeno artesão por unidades de trabalhadores assalariados que produziam em escala muito maior para um contingente de consumidores em escala semelhante. A Colônia que continuava a produzir apenas para a metrópole e o Brasil imperial que, mesmo livre de Portugal, mantinha o trabalho escravo [1/3 da população no século XIX e importação de 50.000 escravos ao ano], significavam obstáculos a serem superados pela nova dinâmica do capitalismo – primeiramente a Colônia, sob pressão inglesa, foi aberta ao comércio internacional mediante a abertura dos portos no início do século XVIII, mas continuou exportando extensivamente poucos gêneros de interesse ao mercado europeu e, assim, pouco mudou em relação ao período anterior [situação ainda não completamente superada atualmente]; em seguida, sob o Império, a monocultura do café substituiu a decadência das lavouras de cana-de-açúcar e ainda contou com trabalho escravo em grande parte do século XIX, a despeito do fim do tráfico internacional, e somente na segunda metade do século substituiu a escravidão por trabalho assalariado de imigrantes [em 1905, 1/3 da população do Estado de São Paulo era composta de imigrantes italianos[11], um aumento do contingente de brancos, católicos e latinos que foi louvado pelos setores conservadores e etnocêntricos/eugênicos[12]]. Também é deste período a formação de um capitalismo “incipiente”[13] que marcou a história posterior do país – formaram-se as primeiras companhias e sociedades, expandiram-se as forças produtivas como manufaturas, estradas de ferro, navegação a vapor, aparelhamento comercial e creditício na agricultura, multiplicaram-se os bancos; ademais, instalaram-se, no país, estrangeiros das mais diferentes profissões [“marceneiros, cabeleireiros, químicos, funileiros, ferreiros, modistas, fabricantes de queijo”[14]]. Contudo, a mão-de-obra para a agricultura e para a vida na nova concentração demográfica [agora no Centro-Sul, notadamente, São Paulo] seria assalariada de maneira consideravelmente baixa – condição sine qua non para a prosperidade dos senhores do café. A força e a fraqueza de tal quadro econômico, da chegada das caravelas até aquele momento, foram a manutenção da produção para a exportação: se o Brasil tinha o quase monopólio mundial do café, possuía também a dependência perigosa da conjuntura internacional que podia declinar a economia, tal como ocorrera anteriormente, com o pau-brasil, os minérios, o algodão e o açúcar. Durante a Primeira República, houve o apogeu e o declínio desta economia extensiva, de larga escala e de exportação de matérias-primas [além do café e de modo menos vultoso, também a borracha, o cacau, o açúcar, o mate e o fumo]: externamente, houve o desenvolvimento econômico europeu e norte-americano, o liberalismo econômico, a industrialização e o aumento no padrão de vida internacionais, fenômenos que aumentaram o consumo de bens primários e os créditos que os barões do café conseguiam no mercado internacional; internamente, a imigração subvencionada pelo Estado resolveu a questão da abolição da escravidão [mas com muitos problemas de adaptação: acostumar o trabalhador livre à grande lavoura foi terrivelmente difícil e ele só não a abandonava por conta da estratégia de retê-lo por dívidas que o aprisionavam ao lugar, os antigos senhores de escravos também tiveram de se adaptar à nova realidade na qual os trabalhadores reivindicavam melhores salários e condições de trabalho – o que subtraía parte dos lucros dos senhores e ajudava a levá-los ao fim das atividades]. Em termos de estratificação social, a despeito do fim da escravidão, o antagonismo entre dois grupos se manteve: sobrados de homens ricos de um lado e moradores de “mucambos”[15], de outro – uma classe média entre ambos ainda estava longe de alcançar números significativos [II]. E o que pareceu ser a força, foi, concomitantemente, a fraqueza do modelo: a atividade econômica concentrada em poucos produtos para a exportação deixava o país dependente dos mercados internacionais que, pela concorrência com outros países e pela queda do preço internacional, levou a produção de alguns produtos à derrocada, primeiramente a borracha e, em seguida, o cacau. O café passou pelo mesmo problema e, a despeito do crédito internacional de que usou, as crises de superprodução foram frequentes: além da queda dos preços do produto que forçava a especulação para estabilizá-lo em valores artificiais – manobra que não sobreviveu à crise de 1929 –, os senhores do café tornaram-se cada vez mais subservientes ao capital financeiro estrangeiro que penetrou para retirar proveito das crises e do financiamento de investimentos infraestruturais [usinas de energia elétrica, portos, ferrovias…] – eis uma “semicolônia”[16] agrilhoada por interesses estrangeiros que, diante do esgotamento da acumulação de capital fundamentada no café, diversificou suas atividades para perenizar a sangria das riquezas criadas e limitar o país como fornecedor de funções primárias na divisão internacional do trabalho. Entre 1930 e 1980, aproveitou-se a formação de um mercado interno, impossível nos séculos de escravidão, a imigração em massa de trabalhadores europeus, o desenvolvimento tecnológico dos transportes, comunicação e da produção propriamente dita [trabalho morto sob forma tecnológica que poupa gastos com trabalho vivo], a conjuntura da Segunda Guerra que complicou e reduziu as importações [mas também dificultou o investimento do capital privado logo após o fim da guerra, uma vez que o investimento em países mais desenvolvidos que o Brasil foi priorizado], para mudar o eixo da economia de verniz hegemonicamente agrícola, ainda controlador da política externa do Brasil por apostar na acumulação viabilizada pela exportação de bens primários, para o industrial [o Estado contribuiu com a mudança da hegemonia da agricultura para a indústria intervindo da maneira que pôde: regulação da relação entre capital e trabalho, fixação de preços, fornecimento de subsídios mais altos ou mais baixos em relação ao destino, garantia de obras de infraestrutura, distribuição de ganhos e perdas entre classes sociais[17]; contudo, tolerante com as relações entre capital e trabalho no campo e com a exportação de bens primários para a mercado mundial – eis o casamento brasileiro, entre o moderno e o arcaico, apadrinhado pelo Estado como figura “estruturante”[18], e não apenas expressão, de tal relação]: superficialmente, a descolonização estaria encaminhada à medida que se produzia no país o que seria de seu próprio interesse; contudo, o capital internacional adentrou o país também com unidades produtivas, absorvendo as indústrias locais [Gilberto Freyre argumenta que, em 1908, existiam três mil manufaturas no país, sobretudo no Rio de Janeiro, em São Paulo, no Rio Grande de Sul e em Pernambuco[19]] e/ou tornando-as suas subsidiárias para manter e expandir um mercado já pertencente a ele há séculos – as unidades fabris aqui instaladas [para aproveitamento da mão-de-obra barata em relação aos países ricos, diminuição de encargos alfandegários e de transporte] remetiam o lucro para o exterior e não ocupavam posições decisivas na divisão internacional do trabalho; ao contrário, recebiam o comando do exterior e, assim, limitavam-se a apenas montar e finalizar o que era prescrito pelos centros de comando dos gigantescos monopólios que controlavam/controlam a economia, expandindo-se e anexando setores outrora não-monopolizados, cujo resultado foi a concentração de renda em níveis jamais vistos na segunda metade do século XX[20]; com efeito, o país continuava/continua colonizado por interesses estranhos que, desde a extração do pau-brasil, transferem para fora, de modo parasitário, o que era/é produzido aqui e, ainda, permaneceu/permanece refém da conjuntura internacional que, por conta de crises externas, arrastava/arrasta o país com elas. Além de não ocorrer o fim da colonização, houve aprofundamento da raiz arcaizante na economia brasileira à medida que a industrialização superficialmente modernizadora foi, nos termos de Darcy Ribeiro, “recolonizadora”[21] à medida que continuava a se interessar, apenas, na pilhagem das riquezas dos trópicos sul-americanos; tanto que o contexto empreendeu um tipo de empresário nacional que Florestan Fernandes chamou de “burguês complacente”[22]: associado aos interesses das grandes corporações e recolhendo migalhas das mesas destas, ele torna-se agente da continuidade da colonização porque não preocupa-se com nenhum projeto nacional que dê autonomia ao país; ao contrário, o quão mais a acumulação de capital ocorrer nestes moldes, maiores a dependência e a continuidade de arcaísmos concomitantes à modernização, tais como grandes cidades com contingentes de miseráveis convivendo com unidades fabris de forte implementação de tecnologia e que remetem para fora do país remessas altíssimas de lucros, rápida e intensa industrialização concomitante a instituições políticas [que quebraram a democracia parlamentar quando foi preciso] denotativas da grande influência do capital estrangeiro, notadamente o norte-americano, que pouco ou nada alteraram as relações patriarcais dos séculos anteriores [XXIII]. Em lugar de alterar as relações e estruturas coloniais, estas foram absorvidas pelo capitalismo monopolista industrial e revitalizadas por ele à medida que o capital estrangeiro e os grupos associados a ele apropriaram-se das instituições e as usaram, sob o véu da democracia representativa, para ampliar o consumo em massa sem que condições iguais tivessem sido dadas a todos – não houve relação dinâmica entre desenvolvimento do capitalismo industrial monopolístico e descolonização[23]; ao contrário, é pelo avanço do primeiro que a segunda nunca se completa e que a burguesia local aliada ao capital estrangeiro opera de modo antinacional .  Foi sob tal conjuntura semicolonial, ainda, que o contingente demográfico de classe média no Brasil encontrou-se em ascensão: em 1920, menos de 1/6 dos ocupados urbanos do país pertencia à classe média; em 1980, o contingente subira para 1/3[24]: a industrialização e a urbanização expandiram os empregos assalariados da estrutura ocupacional e absorveram a classe média das décadas anteriores que, crescentemente, era expropriada de meios de produção fracos perante o grande capital – já na década de 1960, a classe média assalariada era majoritária perante a classe média proprietária de algum meio de produção[25], uma vez que, além do grande capital estrangeiro vinculado à exportação, cresceu a participação do estado na economia e, consequentemente, a ocupação de importante contingente pertencente à classe média no âmbito do serviço público. No setor privado, indústrias que exigiram trabalhadores com maior qualificação, como a automobilística, a naval, a de mecânica pesada, a indústria do cimento, do papel e celulose, o aumento da capacidade da siderurgia, ramos instalados e reforçados na era do Plano de Metas do governo JK, e a expansão em ocupações que demandavam mão-de-obra com formação em nível superior, durante o milagre econômico [1968-1973], contribuíram para que o contingente demográfico de classe média assalariada se tornasse cada vez mais forte. E qual era o poder de tal classe média? Para permitir a hegemonia do setor industrial sobre os outros, a mudança, cujo marco mais significativo foi 1930, não pôde ocorrer sem a edificação de relações entre capital e trabalho que garantissem a acumulação de capital consideravelmente vantajosa aos investidores: a criação do salário mínimo, garantidor de valores de subsistência fisiológica e psíquica, foi um fator fundamental para permitir que a indústria fosse a chave do novo modo de acumulação e, assim, a massa que chegava às cidades para compor o exército industrial de reserva e, aumentada a concorrência na força de trabalho, forçava a redução do valor da força de trabalho a níveis que não fossem muito além do salário mínimo para os que já estavam empregados e para os que chegavam ao mercado de trabalho, mesmo entre trabalhadores qualificados, e, com efeito, o salário mínimo converteu-se em “denominador comum de todas as categorias”[26], beneficiando e não prejudicando a acumulação de capital à medida que igualou reduzindo o preço da força de trabalho, de acordo com Francisco de Oliveira – mesmo os setores que mais cresciam e categorias que mais podiam se beneficiar não o conseguiram porque a referência adotada era o próprio salário mínimo, não o setor industrial mais pujante que outros. A resposta à questão acima, acerca do poder da classe média, é a de que ela não conquistou nenhum poder, ao contrário, foi vítima da estratégia de acumulação de capital, uma vez que seus vencimentos mantiveram-se no limite da sobrevivência ou ficaram aquém dela[27]; quem conquistou mais poder foi o capital industrial, que concentrou para si a renda criada pelos trabalhadores brasileiros. No setor terciário, também de considerável crescimento [horizontal e descapitalizado] no período em questão, o auxílio que ele oferece à acumulação de capital urbana foi evidente no modo como ele tornou-se caudatário de atividades fabris. A abundância de força de trabalho resolveu as necessidades urbanas em cidades sem equipamentos infraestruturais e nos subúrbios mais afastados com atividades de baixa remuneração que não representou concorrência ao capital industrial, seja por não minar a abundância da mão-de-obra para a indústria, por não conseguir capitalizar-se para crescer e concorrer como um setor independente à indústria ou por livrar a indústria da necessidade de comercializar seus produtos e, assim, reforçarem a acumulação e a concentração de renda em benefício da indústria: reformulação de atividades artesanais, de reparação de automóveis e eletrodomésticos, mercearias, bazares, toda ordem de prestação de serviços pessoais e atividades empreendidas com a pura força de trabalho – trata-se de um contingente, considerado também de classe média em pesquisas de estratificação social, que está longe de gozar de algum poder ou contribuir para desconcentração da renda[28]A partir da crise da década de 1980, seguida da introdução de políticas neoliberais da década de 1990, houve queda da renda para a classe média [e mesmo antes, uma vez que uma das estratégias da ditadura militar e das corporações monopolizadoras dos setores mais “dinâmicos” da economia, mas que se expandiam também para outros setores aproveitando os subsídios governamentais e conseguiam a superacumulação de capital de modo a concentrar ainda mais a renda e a controlar toda a economia do país, era o arrocho dos proventos dos trabalhadores assalariados, ademais, a imigração do campo à cidade, movimento empreendido por 31 milhões de pessoas entre 1960 a 1980, permitia às corporações lançarem mão da estratégia da rotatividade graças à força de trabalho sobrante e, assim, conservar os salários em níveis baixos[29] – estratégias que, no Brasil, sempre dificultaram a formação de uma “sociedade de consumo” como as dos países de vanguarda do capitalismo e que forçaram o crescimento da informalização de considerável contingente da população economicamente ativa, geralmente com remuneração aquém do que alcançam os trabalhadores formalizados], desemprego, semiestagnação, perda do status de classe, maior dificuldade de ocupação em um mercado mais competitivo e que não ofertava o mesmo número de vagas de outrora, uma vez que o parque produtivo instalado até o momento não suportou a abertura à inconsequente concorrência externa que diminuiu a presença do capital produtivo, à medida que as importações cresceram e as privatizações reduziram o tamanho de muitas organizações. Adicionada a tais problemas estava a inflação inercial, vencida apenas com o Plano Real, sob os governos Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, mediante a supervalorização da moeda combinada com a continuação da abertura da economia para frear a elevação de preços por conta da concorrência das importações, mas também freando o crescimento da produção local e mesmo extinguindo unidades de produção e aumentando o desemprego [20% da População Economicamente Ativa nos anos seguintes ao Plano Real[30]]. No mesmo período, muitas funções intermediárias no interior das grandes empresas entraram em decomposição e foram desassalariadas: formas autônomas de mão-de-obra serviam às empresas sem que estas a incorporassem em sua folha de pagamento – “consultores, trabalhadores independentes, especialistas organizados em cooperativas e empresas sem empregados [somente pessoa jurídica]” são atuais membros da classe média vitimados pela terceirização, pelo downsizing e pela re-engenharia toyotista[31] [ver VI]. Se da industrialização até a Crise da dívida [1980], a “classe média” crescia à medida que aumentava o contingente de assalariados, a partir desta data até os dias atuais alcançar o posto de classe média, e mais [ou menos?] precisamente, pertencer à “classe C” é, de acordo com as condições estruturais, fazer parte de um contingente que vive sob o desassalariamento industrial e a expansão de micros e pequenos empreendimentos cuja característica é diferente daqueles peculiares ao início do século XX: por atender aos serviços de grandes corporações, os pequenos empreendimentos são caudatários e subservientes a elas e não têm a pretensa autonomia característica ao período e ideologia liberais. Ser autônomo, sob tal conjuntura, é ser subserviente, é ser cada vez mais incapaz de ascender a patamares superiores na mobilidade social, uma vez que as grandes corporações monopolizaram o mercado e dominaram-no com múltiplos tentáculos. Não há oposição entre a pequenez do “empreendedor” de “classe C” e o gigantesco capital toyotista e financeiro: o primeiro foi expulso do antigo exército industrial fordista ou jamais nele adentrou, e convive com o que sobrou dele, convive de modo precarizado e como reserva de mercado para facilitar a rotatividade do trabalho formal e diminuir o valor da força de trabalho. Pertencer a “classe C”, se aos olhos da neogórgonas é sair da miséria e alcançar a classe média, aos olhos do analista da mobilidade social que não negligencia a história e o ambiente neoliberal/toyotista[32] em que ela ocorreu, também é sair da classe média tradicional à medida que antigas ocupações foram precarizadas e extintas: em lugar de classe média, o contingente pertencente à “classe C” é melhor definido por uma conjunto de trabalhadores que, antigamente, estavam excluídos do mercado formal e por aqueles que foram precarizados e excluídos dos antigos padrões produtivos e produtivos para se tornarem,  agora, pequenos “empreendedores”.  Mesmo a alta classe média, que possui postos de controle, vê sua ocupação como circunstancial e, por isso, investe na financeirização de sua renda para ainda tentar acompanhar, mesmo que de longe, a alta burguesia. E mesmo a classe média que se manteve ocupada sofreu com a perda de renda: a camada média baixa perdeu 37,3% entre 1960 e 2000; a média média, 20,2%[33], números acentuadamente negativos graças à política de concentração de renda durante a ditadura militar, à financeirização da riqueza que colaborou para enxugar ocupações peculiares à classe média, à redução da participação do estado no setor produtivo que também resultou em eliminação de funções para a camada média da classe média. Em termos de mobilidade social, a camada média decaiu para a baixa classe média ou luta para não decair; não conseguindo recolocação na indústria especializada e primário-exportadora, migrou para o setor terciário e vive sem expectativa de ascender à alta classe média. A solução teórica de Caio Prado Jr., elaborada na primeira metade do século XX, em afirmar a passagem de colônia para semicolônia, mostra sua vitalidade à medida que, sob o capitalismo comercial, industrial ou financeiro, o país não foi completamente descolonizado e ainda é administrado por interesses exógenos; com efeito, a “classe média”, seja aquela que trabalhava nos centros administrativos da Colônia, seja a que, atualmente, porta um cartão de crédito e se endivida nos centros de consumo, vive semeando o que não lhe pertence e veiculando os desígnios do colonizador, conforme Darcy Ribeiro[34] argumentou.

V

A mudança de eixo econômico na acumulação de capital torna o membro da “classe C”, além de inseguro e administrado, mais explorado. Houve um tempo na História do Brasil, tão extenso que contempla períodos da história que vão da Colônia à República Velha, em que a acumulação de capital guiava-se pelo eixo de atividades agrícolas e monoculturais[35]. Outrora, a acumulação de capital foi predominantemente industrial e um ciclo de industrialização com subjacência no tripé Estado, capital privado nacional e capital privado estrangeiro, entre 1930 e 1980, foi razoavelmente intenso na História do Brasil e alavancou também atividades no setor de serviços como auxiliares à atividade industrial até que a Crise da dívida externa, no início da década de 1980, contribuiu para interromper o desenvolvimento das forças produtivas e para inclinar a acumulação de capital para outros meios. Com esta crise e com a aceleração inflacionária que permeou toda da década de 1980, o capital notou ser mais vantajoso aplicar seus excedentes no mercado financeiro [embora, desde a ditadura, o capital monopolista já apoiava-se no mercado de capitais para viabilizar sua expansão para setores produtivos ainda não incorporados por ele[36] e os governos militares adotaram o endividamento externo como solução para financiar o crescimento interno e, assim, escancararam a financeirização da economia e das contas estatais[37]]; com a abertura da economia nos governos Collor e FHC e com a sobrevalorização do câmbio no governo FHC, a inflação foi mantida em números baixos, mas com o custo da necessidade de atração de dólares ao país para pagar o déficit econômico imediatamente resultante[38] e para financiar as importações e manter a inflação contida; com efeito, a elevação sistemática e desenfreada na taxa de juros – além das privatizações –, se de um lado, garantiu a entrada de dólares, de outro, redundou em desestímulo ao investimento, em lento crescimento econômico, em desemprego e em subemprego, em perda de rendimentos para os trabalhadores, em exportações menores e pautadas mais em commodities do que em bens industrializados, em endividamento público e em vulnerabilidade ainda maior do Brasil em relação às economias de onde os dólares vinham, notadamente a dos EUA[39]. Ademais, para alcançar superávit e pagar a grandeza da dívida interna[40], o procedimento governamental foi elevar, ininterruptamente, a carga tributária. Com o aumento de importações, o câmbio sobrevalorizado inibindo exportações [mesmo a desvalorização da moeda, em 1999, não foi acompanhada de redução na taxa de juros] e com a diminuição da atividade fabril no Brasil, por que o setor industrial não exerceu uma pressão efetiva e organizada para reorientar a economia para outro sentido sob os governos FHC, Lula e Dilma? Porque a primazia dos ganhos não se encontrava mais na produção industrial, mas na circulação de dinheiro no mercado financeiro, procedimento que já na década de 1970 mostrava-se mais rentável que o investimento no parque produtivo: ganhos decorrentes de aquisição de títulos da dívida pública e de aplicação em fundos ancorados nos mesmos títulos expressam migração do capital produtivo para o mercado financeiro para acumular capital mais rápida, segura e eficientemente. A própria característica de acumular propriedade não é a mesma do período de 1930 a 1980: trata-se, atualmente, de acumular papéis financeiros públicos e privados que redundam em mais dinheiro, para tanto, não é preciso o dispêndio de gastos que o setor produtivo exige, basta aproveitar os ganhos da circulação estéril de dinheiro potencializado, também, pelo tamanho gigantesco dos juros no Brasil. É expressão de tal fenômeno o crescimento do lucro bancário em relação ao industrial a partir do Plano Real[41]. Com o Estado como salva-vidas destes proprietários de papéis, endividando-se para financiar o controle dos preços, o que resta à “classe C” além da heteronomia que a torna subserviente a um capital monopolista e financeiro que a tudo controla, da histórica inoperância e/ou inexistência das políticas sociais e do aumento da violência urbana? Tal Estado inescrupuloso em limitar-se a salva-vidas do capital financeiro, suspende ou altera as leis anteriores, sempre que necessário, seja por meio de medidas provisórias ou pressão/compra sobre o Congresso Nacional, para potencializar os ganhos financeiros: tudo é urgente para que a economia não quebre e, assim, um estado de exceção permanente[42] instala-se legalmente para suspender a legalidade e outorgar o direito de suspensão de direitos não interessantes ao capital rentista, de acordo com a interpretação que Leda M. Paulani faz do pensamento de Giogio Agamben para a contribuição ao entendimento da questão[43]. Um a um os choques são dados e a permanência/normatização do choque é incontestável para que o país seja “salvo” da inflação, da desestabilidade, da crise: por decreto-lei e sem a necessidade de aprovação no Congresso Nacional, foram empreendidos planos como Plano Cruzado, no governo José Sarney, Plano Collor, no governo posterior, Plano Real, já sob FHC, elevação do presidente do Banco Central a status de Ministro, em 2004, sob o governo Lula, para eternizar um estado de emergência econômica que gasta com o pagamento para proprietário de títulos da dívida pública dez vezes mais do que com o programa Bolsa Família[44]. Ao capital financeiro, os lucros; à “classe C”, os choques! Eis o resultado da conservação de um estado de direito que suspende o direito, da exceção que vira regra[45], da indistinção e da anomia entre totalitarismo econômico e democracia formal que vigora nos bairros periféricos das grandes cidades, onde mora a “classe C”.

VI

O membro da “classe C” aproveitou o aclive econômico pré-crise de 2008-2009. Contudo, vivendo sob a sorte da conjuntura econômica, um declive pode arrebatá-lo e subtrair-lhe o status de “classe média”. Ademais, a própria dinâmica de trabalho a que está submetido pode, a qualquer momento, jogá-lo no desemprego, mesmo que nenhuma crise ocorra, à medida que a acumulação flexível de capital, além de sobrecarregar o trabalhador com várias funções para evitar o aumento de trabalho vivo, atende a nichos de mercado que, caso não apresentem demandas suficientes para a reprodução de capital, são trocados por outros [produtos ou serviços] que requerem maior precarização ou outra mão-de-obra.  Trabalhando exposto às horas-extras, aos trabalhos temporários e subcontratados, o membro da “classe C”, ao invés de resguardado, vive como a próxima vítima do desemprego estrutural[46] da atual conjuntura e que o assombra com o risco de ser contemplado pela nova pobreza, cuja solução não ocorre por mero aquecimento da atividade econômica – sob o agravo da situação que equaliza todos como consumidores, o membro da “classe C” atomizado lê o processo sem a antiga referência de que o fenômeno atinge sua classe social, mas como algo de responsabilidade exclusivamente individual como se todas as pessoas gozassem das mesmas pré-condições sociais, o que intumesce sua ansiedade e o faz submeter-se aos novos métodos de trabalho [polivalência, trabalho em equipe, aperfeiçoamento contínuo, comportamento participativo] com abnegação de um cristão novo, com o arrivismo de quem chegou recentemente à nova “classe C”. Para prosseguir com a acumulação de capital, as forças produtivas sob a vigente Terceira Revolução Industrial alargam a produtividade do trabalho e encurtam o tempo de trabalho da produção para torná-lo trabalho não-pago: Francisco de Oliveira, por isso, funde os termos marxianos, mais-valia absoluta e mais-valia relativa, à medida que grande parte dos trabalhadores caem na informalidade de produzirem mercadorias que são repostas de acordo com a necessidade e, assim, substitui-se o assalariamento de acordo com o tempo de trabalho – repetindo-se a estratégia da desobrigação do capital em arcar com os custos da força de trabalho, eliminando a fixidez dos postos de trabalho e todos os benefícios e proteções  à jornada de trabalho[47] e, ainda, mantendo controle sobre a produção à medida que os próprios trabalhadores são convocados para vigiarem-se mutuamente. Aqueles que não mostram-se criativos, entusiasmados ou mesmo se opõem à fábrica, podem ser evitados pelos próprios companheiros ou mesmo traídos mediante o “disque-denúncia” – os olhos dos trabalhadores foram transformados nos olhos do próprio capital[48]. Uma vez a produção organizada em ilhas de produção, peças saem montadas ou semimontadas e os prêmios e bônus não incorporados ao salário-base, como a Participação nos Lucros e Resultados [PLR], dependem do resultado e faz com que cada trabalhador fiscalize o outro[49]. Mesmo os trabalhadores mais sofisticados, como os que trabalham no desenvolvimento de softwares, são obrigados a seguirem prescrições limitadoras da autonomia e da própria ação de inventar novos programas à medida que os procedimentos devem se adequar às certificações necessárias para a sobrevivência no mercado [ISO, CMMI, Spice, TQM] e que, na prática, além de rotinizar o trabalho e esvaziá-lo da dimensão reflexiva, funcionam como controle de uma corporação gigantesca sobre as contratadas e subcontratadas; ademais, ao exportarem tais atividades para empresas de países de capitalismo periférico, diminuem a remuneração das mesmas ao escaparem de salários mais altos a serem pagos em países centrais[50]. Sob o véu de uma atividade modernizante, velhos e novos padrões de exploração se abraçam: o programador de software continua a receber sua remuneração como qualquer outro operário à medida que o trabalho assalariado é medido quantitativamente como tempo de trabalho socialmente necessário [e alienado] para a produção do produto, ele continua separado dos meios de produção e “com servidão à máquina”[51] segue seus padrões e procedimentos [trabalho morto] que expurgam sua subjetividade do processo de trabalho; contudo, as possibilidades da atual automação flexível com subjacência na microeletrônica permite adicionar informações ao processo produtivo e, assim, diversificar a produção para atender a diversidade da demanda e seus nichos de mercado pela orientação do que as máquinas devem fazer, corrigir sua programação, mas sem abrir mão do controle sobre o operador à medida que, se antes a padronização do maquinário atingia o corpo dos trabalhadores e dirigia suas mãos, agora ela atinge a produção de informações e a “destreza mental”[52] para dirigir sua cognição – a codificação binária das informações reduz a cognição a um tempo de trabalho socialmente necessário para alimentar a máquina com dados para produzir um software [trabalho morto] que a oriente e, assim, um programa dirige a máquina e o próprio operador [trabalho vivo] é reduzido a acompanhador do processo e a elemento que integra as informações a outros setores da empresa, guardando um quê de subjetividade e encarecendo sua mão-de-obra, o que inaugura mais um capítulo de controle do capital sobre o trabalho no qual o fio-condutor é a longa marcha do trabalho vivo coisificando-se em trabalho morto como estratégia de apoderar-se do processo produtivo e reduzir seu custo, o que antes se fazia com mecanização agora se faz com digitalização[53]. Notadamente para a “classe C” brasileira, que não desfruta de formação científica e tecnológica para participar de tal atividade, restam outras atividades menos sofisticadas, mas apresentadas ideologicamente como modernas e não necessariamente ligadas à indústria tradicional, mas atividades precarizadas no setor de serviços [atendentes de call center e de redes de fast food, motoboys, bancários, caixas de supermercados…]: Ricardo Antunes e Ruy Braga organizaram pesquisas empíricas, em Infoproletários, e Jessé Souza, em Os batalhadores brasileiros, e mostraram como os call centers recrutam teleoperadores e os submetem à rotinização de ter de seguir o script e que os maquiniza [como Marx e Braverman, há muito, argumentaram quando analisaram operários de seus respectivos tempos] à medida que está tudo prescrito pelo procedimento a ser seguido, à fragmentação e à regulamentação tecnologicamente facilitadas, ao controle das ações e do tempo das chamadas para que outras mais sejam feitas, ao estímulo da competição entre os trabalhadores e à corrosão da ação política deles. O verniz de atividade moderna apenas colabora para reunir o moderno e o arcaico: há lesões por esforços repetitivos; processos de trabalho que os aproximam muito mais do fordismo e do taylorismo do que do toyotismo, a despeito da informatização dos setor; terceirização, característica ao toyotismo e que faz dos call centers empresas que atendam outras empresas a partir de mão-de-obra precarizada; novas técnicas administrativas que, em verdade, apenas reforçam o controle sobre a mente e o corpo em tempo real[54] mediante um “panóptico eletrônico”[55] ajustado à era just in time, conforme Selma Venco considera tomando emprestada a expressão de Foucault. As empresas de call center funcionam 24 horas por dia e em todos os dias da semana e, por isso, contratam um número razoável de teleoperadores [o Grupo Atento empregava, em 2008, 65 mil trabalhadores[56], sendo a maioria de mulheres, jovens com ensino médio completo e a maior parte do regime de trabalho em 6 horas ao dia. Na unidade de São Bernardo do Campo [SP], em 2006, trabalhavam 4000 pessoas, sendo a maioria de mulheres [80%], mas com os postos de comando e de melhor remuneração ocupados em maior parte por homens[57]], jovens com ensino médio completo e com rendimentos que alcançavam R$ 420,00 para atendentes de menor experiência, R$ 510,00 para os mais experientes e até R$ 1.000,00 para aqueles mais qualificados que trabalham com assistência técnica e/ou com recebimento de comissões] sob o regime de contrato flexível e renovável de acordo com metas e comportamento dos funcionários e mostram, empiricamente, e mais uma vez [!] que a mera tecnologização das atividades produtivas não são sinônimas de melhoria das condições de trabalho e de vida, mas degradação, como afirmaram, há tempos, Rousseau em Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens, Marx em O capital, Horkheimer e Adorno em Dialética do Esclarecimento, Marcuse em One-dimensional man e Braverman em Trabalho e capital monopolista. Contudo, a despeito de ser objeto da exploração toyotista, foi sob ela que a “classe C” ganhou protagonismo nas análises mais recentes, uma vez que, sob o fordismo, a “classe C” estava marginalizada ou incluída de modo muito limitado à medida que aquele proletariado industrial ocupava as vagas formais do setor secundário e deixava atrás de si vagas de menor remuneração nos setores primário e terciário; com o declínio do fordismo, a ideologia liberal superobsoleta apregoa o “empreendedorismo”, o “faça-você-mesmo” como capitulação à incapacidade de oferta de empregos formais, como eufemismo do prolongamento da jornada de trabalho e como legitimação do mito de que pequenos negociantes sejam, verdadeiramente, “autônomos”, embotando o fenômeno de que os grandes conglomerados desencarregam-se de custos com a produção e distribuição de mercadorias ao empurrá-los para os pequenos “empreendedores” formais e informais – em lugar de serem um novo empresariado, são, em verdade, pessoas submetidas a uma neomarginalização social[58] revestida e higienizada ideologicamente como modernização. Em compasso com a produção toyotista, há a distribuição e o consumo: se a produção é segmentada em ilhas de produção, o consumo também é segmentado em faixas etárias e em públicos específicos para alcançar nichos microscópicos [lojas especializadas como FNAC e Decathlon ofertam produtos especializados e, mediante eles, também um estilo de vida]. Com efeito, há uma variedade enorme de tipos de cada mercadoria[59] – a indústria automobilística oferta a personalização de cada unidade conforme o gosto do cliente, a indústria de telefonia oferta incomensuráveis toques de aparelhos celulares – para alcançar uma “mass customization[60] [!] que não apenas garante a reprodução de capital, mas que promove, também por ação da indústria publicitária, amor e fidelidade do consumidor em relação à marca consumida. Produção e distribuição toyotistas empreendem, assim, uma alavanca ainda maior de obsolescência: mesmo com produtos mais baratos alcançando desempenho parecido de produtos mais caros [de medicamentos genéricos a eletrônicos e automóveis], a programação para a vida útil é mais curta[61] e a percepção dos consumidores inclina-os à substituição porque a renovação de um modelo em relação a outro tem um intervalo cada vez menor – novidades [novidades?] sutis em relação ao modelo antecipam o descarte, mesmo que o artigo funcione bem, e inclina o consumidor ao encaminhamento ininterrupto de mercadoria em mercadoria. Produção e distribuição toyotistas alavancam, outrossim, maior subserviência do Brasil, como país periférico, na divisão internacional do trabalho: como a matriz tecnológica está no centro, resta à periferia copiar o que, muitas vezes, já está sendo descartado nos centros mais avançados, deixando o país sempre atrás no grid de largada de uma corrida que não se pode vencer; ademais, a obsolescência programada é cada vez mais rápida e nada se aproveita dela, com efeito, mais e mais investimentos se tornam necessários para o lançamento de novas mercadorias para que a acumulação de capital não cesse e, para tal, a dependência de financiamento [externo] aumenta[62]. Se, trabalhando, o membro da “classe C” é ameaçado pela insegurança de ser vitimado pelo desemprego estrutural e se, consumindo, é enganado constantemente pelas obsolescências programada e perceptiva, vive plenamente feliz? Se está desempenhando uma atividade terceirizada, precarizada, flexibilizada, isto é, se está ocupado como eufemismo de desempregado, vive plenamente feliz se sabe que a rotatividade deste trabalho é maior sob a desobrigação do capital em assalariá-lo formalmente e, assim, interromper a ocupação? Qual é a felicidade de um atendente de telemarketing de call center, geralmente um jovem da “classe C” ingressante no mercado de trabalho das grandes cidades, ao submeter-se a uma atividade oriunda da terceirização de serviços que desobriga as grandes empresas do inchaço de suas folhas de pagamento e, para isso, faz contratos esporádicos aqui e ali com pequenas empresas que ofertam baixos salários [a maior democratização do ensino escolar formou um exército de reserva para atividades precárias cujo pré-requisito são saberes de ensinos fundamental e médio e, assim, também foi um fator do pagamento aviltante a estes profissionais sempre ameaçados pela rotatividade[63]], que expõem o atendente à exaustão física e mental para dar conta das metas de atendimento rotinizado [com apenas dez minutos de intervalos e vinte para o almoço!], que ao invés de recompensar salarialmente os atendentes que alcançam as metas “premiam-nos” com DVDs, canetas e caixas de bombons[64] – reforços positivos da estratégia de condicionamento operante de Skinner? “Viver é muito perigoso”, repetia Guimarães Rosa em Grande Sertão: veredas, acerca da vida dos sertanejos; continua perigoso, na vida citadina moderna-arcaica da “classe C”.

VII

A despeito das condições estruturais [estruturais no sentido indicado por Francisco de Oliveira: “Reposição e recriação das condições de expansão do sistema enquanto modo capitalista de produção”[65]] exposta acima, não unilateralmente negativas porque contam também com o crescimento do setor de serviços e das ocupações correlatas a ele[66], há condições conjunturais importantes para a explicação da aparente mobilidade social em vigência, uma vez que o país experimentou, por exemplo, quase duas décadas de vitória sobre a inflação inercial [1989 é sintomático por ter sido o ano em que o recorde inflacionário foi, ao mesmo tempo, o de recorde de desigualdade social registrado pelos institutos de pesquisa; ademais, é mister destacar que a maior inflação do mundo, entre 1970 e 1995, foi a brasileira[67]] e, na década de 2000, expandiu as ocupações formais entre os estratos mais pobres da população, ofertando vagas de rendimento mensal de até 1,5 salário mínimo [59% do total de postos de trabalho][68] – mais que um país de classe média, o Brasil aumentou a base de sua pirâmide social à medida que dos 21 milhões de postos de trabalho criados na primeira década de século XXI, 94,8% pertencem àqueles cuja remuneração não ultrapassa 1,5 salário mínimo mensal[69]. Trata-se, portanto, não de alcançar o status de um país de classe média, mas de incorporar uma parcela considerável da população à base da estrutura ocupacional formal: abandonar a miséria extrema não significa alcançar, imediatamente, a condição de classe média, tanto por conta do parco salário direto dos estratos que ganham 1,5 salário mínimo mensal não ser suficiente para torná-los membros pujantes de uma sociedade de consumo, como pelo salário indireto não ser aquele constitutivo às sociedades de bem-estar social formadas na Europa durante a metade do século XX e desejado pela Constituição brasileira de 1988 – Marcio Pochmann quer fazer crer que os governos petistas do início do século XXI arquitetaram tal estado de bem-estar social[70]; contudo, ele mesmo apresenta dados que refutam sua tese [XI] por indicar que o salário indireto que este pretenso estado deveria proporcionar não é eficiente, à medida que os gastos da “classe média” com transporte, saúde, educação e previdência [ineficientes] aumentam conforme a renda também aumenta, consumindo o salário direto; é verdade que há políticas sociais que diminuíram a pobreza monetária no país[71], mas entre elas e um Estado de bem-estar social há um abismo – os protestos sociais de 2013 mostraram o descontentamento dos brasileiros em relação aos serviços públicos que deveriam empreender bem-estar social. Ocupações que, por exemplo, têm como rendimento cerca de 1,5 salário mínimo mensal são as que destinam-se em grande número a atividades do setor primário, de trabalho temporário, de funções terceirizadas e de 2/3 das atividades autônomas[72]. Marcio Pochmann mostra três fatores adicionais à estabilidade monetária [esta, por si mesma, facilita a implementação de planos e ações públicas e privadas], entre os anos de 2004 e 2009, e, na década de 2000, o aumento dos postos de trabalho, ambos fundamentais para a explicação da aparente mobilidade social.  Um deles foi o fortalecimento do setor industrial e o consequente nível de estímulo ao emprego formal: foram 8,1 milhões de postos de trabalho gerados no período, contra apenas 1,9 milhão entre 1998 e 2003[73]. O segundo fator foi a ação de políticas públicas que ampliaram a renda das famílias subjacentes da pirâmide social mediante a elevação do salário mínimo [introdução de R$ 1 trilhão nos rendimentos de trabalhadores com salários de base entre 2003 e 2010] e a transferência de renda que beneficiou idosos, portadores de necessidades especiais, desempregados e pobres [R$ 305,3 bilhões entre 2002 e 2008]. O terceiro fator foi a abertura e a difusão do crédito aos segmentos de baixa renda, tanto para o consumo como para a produção [o financiamento entre as pessoas físicas quadruplicou entre 2003 e 2009] – na habitação, por exemplo, o financiamento em 2003 alcançou o montante de R$ 25,7 bilhões em 2004; em 2009, o número subira para R$ 80 bilhões[74]. Mesmo a Região Sul, historicamente a de menor desigualdade social e onde a “classe média” é maior graças a uma colonização familiar e agrícola de ocupação do território que ocorreu em conjunto com aquela tradicional ao restante do país, não escapa das contingências conjunturais: uma unidade familiar produtiva de Cachoeira do Sul [RS], com bons equipamentos e máquinas e com boa produção [uva, maracujá, amora etc][75], continua caudatária de forças gigantescas de uma agroindústria que seleciona os frutos e que é forte politicamente para forçar os governos a concederem créditos à produção do que interessa a elas e não aos pequenos agricultores [estes, para sobreviverem, se adaptam e nem sempre plantam e colhem o que desejam] – de repente, tudo muda e o que parecia ser bem-aventurança, pode transformar-se em estiagem de crédito e de giro da mercadoria.


* A próxima parte será postada dia 1-12-2013.

[1] “Mesmo em seus melhores momentos, a obra realizada no Brasil pelos portugueses teve um caráter mais acentuado de feitorização do que de colonização. Não convinha que aqui se fizessem grandes obras, ao menos quando não produzissem imediatos benefícios. Nada que acarretasse maiores despesas ou resultasse em prejuízo para a metrópole. O preceito mercantilista, adotado aliás por todas as potências coloniais até ao século XIX, segundo o qual metrópole e colônias hão de completar-se reciprocamente, ajustava-se bem a esse ponto de vista. Assim era proibida, nas possessões ultramarinas, a produção de artigos que pudessem competir com os do Reino. Em fins do século XVIII, como da capitania de São Pedro do Rio Grande principiasse a exportação de trigo para outras partes do Brasil, o gabinete de Lisboa fazia sustar sumariamente o cultivo desse cereal. E no alvará de 5 de janeiro de 1785, que mandava extinguir todas as manufaturas de ouro, prata, seda, algodão, linho e lã porventura existentes em território brasileiro, alegava-se  que, tendo os moradores da colônia, por meio da lavoura e da cultura, tudo quanto lhes era necessário, se a isso ajuntassem as vantagens da indústria e das artes para vestuário, ‘ficarão os ditos habitantes totalmente independentes da sua capital dominante’”. HOLANDA, S. B. de. Raízes do Brasil. 26° ed., São Paulo: Companhia das Letras, 1995, pp. 107-108.

[2] Caio Prado Júnior descreve o povoamento ocorrido na Colônia, desde o início ao começo do século XIX, com uma estrutura social extremamente desigual e constituído por: “[…] Ao lado de uma pequena minoria de dirigentes brancos, da grande maioria de outras raças dominadas e escravizadas, índios e negros africanos, cuja função não foi outra que produzir açúcar, tabaco, algodão, ouro e diamantes que pediam os mercados europeus”. PRADO JR., C. História econômica do Brasil. 41° ed., São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 118.

[3] “A instituição social que possibilitou a formação do povo brasileiro foi o cunhadismo, velho uso indígena de incorporar estranhos a sua comunidade. Consistia em lhes dar uma moça índia como esposa. Assim que ele a assumisse, estabelecia, automaticamente, mil laços que o aparentavam com todos os membros do grupo. […] Como cada europeu posto na costa podia fazer muitíssimos desses casamentos, a instituição funcionava como uma forma vasta e eficaz de recrutamento de mão de obra pra os trabalhos pesados de cortar paus-de-tinta, transportar e carregar para os navios, de caçar e amestrar papagaios e soíns. Mais tarde, serviu também para fazer prisioneiros de guerra que podiam ser resgatados a troco de mercadoria, em lugar do destino tradicional, que era ser comido ritualmente num festival de antropofagia”. RIBEIRO, D. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, pp. 72-73.

[4] PRADO JR., C. História econômica do Brasil. 41° ed., São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 42.

[5] FREYRE, G. Casa-grande & senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. 34° ed. Rio de Janeiro: Record, 1998, p. 31.

[6] RIBEIRO, D. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 147.

[7] PRADO JR., Caio. Formação do Brasil contemporâneo: Colônia. São Paulo: Brasiliense; Publifolha, 2000, p. 289.

[8] “Os que conseguiam acumular algum cabedal, esses tratavam logo de abandonar seus ofícios para poderem desfrutar das regalias ordinariamente negadas a mecânicos. Assim sucede, por exemplo, a certo Manuel Alves, de São Paulo, que deixa em 1639 sua profissão de seleiro para subir à posição de ‘homem nobre’ e servir os cargos da República”. HOLANDA, S. B. de. Raízes do Brasil. 26° ed., São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 58.

[9] Para Caio Prado Júnior, o crescimento deste setor foi um dos motivos desagregadores do sistema colonial do Brasil: “[…] Enquanto houve apenas senhores e escravos, e é o que se dá no início da colonização, tudo ia bem. Todos os povoadores do território brasileiro tinham seu lugar próprio na estrutura social da colônia, e podiam normalmente desenvolver suas atividades. Mas formaram-se aos poucos outras categorias, que não eram de escravos nem podiam ser de senhores. Para eles não havia lugar no sistema produtivo da colônia, Apesar disto, seus contingentes foram crescendo, crescimento que também era fatal, e resultava do mesmo sistema da colonização. Acabaram constituindo uma parte considerável da população e tendendo sempre para o aumento. O desequilíbrio era fatal”. PRADO JR., Caio. Formação do Brasil contemporâneo: Colônia. São Paulo: Brasiliense; Publifolha, 2000, pp. 369-370.

[10] Idem, p. 292.

[11] FREYRE, G. Ordem e progresso: processo de desintegração das sociedades patriarcal e semipatriarcal no Brasil sob o regime de trabalho livre: aspectos de um quase meio século de transição do trabalho escravo para o trabalho livre; e da monarquia para a república. 6° ed. São Paulo: Global, 2004, p. 568.

[12] Idem p. 693.

[13] PRADO JR., C. História econômica do Brasil. 41° ed., São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 193.

[14] FREYRE, G. Sobrados e mucambos: introdução à história da sociedade patriarcal no Brasil – 2: decadência do patriarcado rural e desenvolvimento urbano. 10º ed. Rio de Janeiro: Record, 1998, p. 22.

[15] Idem, p. XL.

[16] PRADO JR., C. História econômica do Brasil. 41° ed., São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 224.

[17] OLIVEIRA, F. de. Crítica à razão dualista; O ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003, p. 40.

[18] Idem, p. 128.

[19] FREYRE, G. Ordem e progresso: processo de desintegração das sociedades patriarcal e semipatriarcal no Brasil sob o regime de trabalho livre: aspectos de um quase meio século de transição do trabalho escravo para o trabalho livre; e da monarquia para a república. 6° ed. São Paulo: Global, 2004, p. 719.

[20] OLIVEIRA, F. de. Crítica à razão dualista; O ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003, p. 95.

[21] RIBEIRO, D. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 228.

[22] FERNANDES, F. Capitalismo dependente e classes sociais na América Latina. Rio de Janeiro: Zahar, 1973, p. 18.

[23] Idem, p. 38 et seq.

[24]  POCHMANN, M. [et alli]. Classe média: desenvolvimento e crise. São Paulo: Cortez, 2006 [Atlas da nova estratificação social no Brasil, vol. I], p. 34.

[25] Idem, p. 30.

[26] OLIVEIRA, F. de. Crítica à razão dualista; O ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003, p. 38 et seq.

[27] “[…] Uma não-insignificante porcentagem das residências das classes trabalhadoras foi construída pelos próprios proprietários, utilizando dias de folga, fins de semana e formas de cooperação como o ‘mutirão’. Ora, a habitação, bem resultante dessa operação, se produz por trabalho não pago, isto é, supertrabalho. Embora aparentemente esse bem não seja desapropriado pelo setor privado da produção, ele contribui para aumentar a taxa de exploração da força de trabalho, pois o seu resultado – a casa – reflete-se numa baixa aparente do custo de reprodução da força de trabalho – de que os gastos com habitação são um componente importante – e para deprimir os salários reais pagos pelas empresas. Assim, uma operação que é, na aparência, uma sobrevivência de práticas de ‘economia natural’ dentro das cidades, casa-se admiravelmente bem com um processo de expansão capitalista, que tem uma de suas bases e seu dinamismo na intensa exploração da força de trabalho”. Idem, p. 59.

[28] “[…] Não é estranha a simbiose entre a ‘moderna’ agricultura de frutas, hortaliças e outros produtos de granja com o comércio ambulante? Qual é o volume de comércio de certos produtos industrializados – o grifo é proposital – tais como lâminas de barbear, pentes, produtos de limpeza, instrumentos de corte, e um sem-número de pequenos objetos, que é realizado pelo comércio ambulante das ruas centrais de nossas cidades? Qual é a relação que existe entre o aumento da frota de veículos particulares em circulação e os serviços de lavagem de automóveis realizados braçalmente? Existe alguma incompatibilidade entre o volume crescente da produção automobilística e a multiplicação de pequenas oficinas destinas à re-produção dos veículos? Como explicar que todos os serviços de consumo pessoal cresçam mais exatamente quando a indústria recupera seu dinamismo na criação de empregos e quando todo um processo se cristaliza – conforme os resultados do censo demográfico de 1970 – numa distribuição da renda mais desigual? Esses tipos de serviços, longe de serem excrescência e apenas depósito do ‘exército industrial de reserva’, são adequados para o processo de acumulação global e da expansão capitalista e, por seu lado, reforçam a tendência à concentração da renda”. Idem, pp. 57-58.

[29] GUERRA, A [et alli]. Trabalhadores urbanos: ocupação e queda na renda. São Paulo: Cortez, 2007 [Atlas da nova estratificação social no Brasil, vol. II], p. 41. OLIVEIRA, F. de. Crítica à razão dualista; O ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003, p. 93 et seq. POCHMANN, M. Nova classe média?: o trabalho na pirâmide social brasileira. São Paulo: Boitempo, 2012, p. 23 et seq.

[30] Idem, p. 59.

[31] “(…) A participação relativa da classe média assalariada foi perdendo importância. No ano de 2000, por exemplo, estima-se que menos de 3/5 do total da classe média ocupada estava associada ao emprego assalariado, enquanto em 1980 eram mais de 2/3”. POCHMANN, M. [et alli]. Classe média: desenvolvimento e crise. São Paulo: Cortez, 2006 [Atlas da nova estratificação social no Brasil, vol. I],  p. 32.

[32] CHAUÍ, M. “Uma nova classe trabalhadora” In: SADER, E. [Org.] Lula e Dilma: 10 anos de governos pós-neoliberais. São Paulo/Rio de Janeiro: Boitempo/ FLACSO, 2013, p. 130.

[33] Idem, p. 36. Ver também o gráfico 4.6, que apresenta a queda de rendimentos entre os assalariados urbanos na região metropolitana de São Paulo entre 1985 e 2003, p. 60.

[34] “[…] Embora embarcados num projeto alheio, nos viabilizamos ao nos afirmar contra aquele projeto oficial e ao nos opor aos desígnios do colonizador e de seus sucessores. Pela vontade deles, os índios, os negros e todos nós, mestiços deles, recrutados pela empresa colonial, prosseguiríamos na função que nos foi prescrita de proletariado de ultramar, destinado a produzir mercadoria exportável, sem jamais chegar a ser gente com destino próprio. Às vezes penso que continuamos cumprindo esse desígnio mesmo sem os portugueses, debaixo do guante da velha classe dominante de descendentes dos senhores de escravos que se seguiu a eles no exercício do poder e das novas elites cujo setor predominante é, hoje, o corpo gerencial das multinacionais. Os mesmos tecnocratas ainda meninos mas já aconselhando governos se afundam ainda mais no espontaneísmo do mercado e na irresponsabilidade social do neoliberalismo”. RIBEIRO, D. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 225.

[35] “[…] Se vamos à essência de nossa formação, veremos que na realidade nos constituímos para fornecer açúcar, tabaco, alguns outros gêneros; mais tarde, ouro e diamante; depois algodão, e em seguida café, para o comércio europeu. Nada mais que isto. É com tal objetivo, objetivo exterior, voltado para fora do país e sem atenção a considerações que não fossem o interesse daquele comércio que se organizarão a sociedade e a economia brasileiras”. PRADO JR., C. História econômica do Brasil. 41° ed., São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 23.

[36] OLIVEIRA, F. de. Crítica à razão dualista; O ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003, p. 102.

[37] Idem, p. 132.

[38] “[…] O saldo superavitário na balança comercial de mais de US$ 10 bilhões em 1994 reverteu-se para um déficit de mais de 3 US$ bilhões no ano seguinte”. POCHMANN, M. [et. alli]. Proprietários, concentração e continuidade. São Paulo: Cortez, 2009 [Atlas da nova estratificação social no Brasil, vol. 3], p. 57.

[39] Para mais detalhes, ver os capítulos 3 e 4 de POCHMANN, M. [et. alli]. Proprietários, concentração e continuidade. São Paulo: Cortez, 2009 [Atlas da nova estratificação social no Brasil, vol. 3].

[40] “[…] Entre 1995 a 2004, […] quando se observam os gastos com juros, vê-se que cresceram 603% nesses anos, e a amortização, outros 872%”. Idem, p. 69.

[41] Idem, p. 63.

[42]Estar-fora e, ao mesmo tempo, pertencer: tal é a estrutura topológica do estado de exceção, e apenas porque o soberano que decide sobre a exceção é, na realidade, logicamente definido por ela em seu ser, é que ele pode também ser definido pelo oximoro êxtase-pertencimento”. AGAMBEN, Giorgio. Estado de exceção: homo sacer II, 1. Tradução de Iraci D. Poleti, São Paulo: Boitempo, 2° edição, 2007, p. 57.

[43] PAULANI, L. M. “Capitalismo financeiro, estado de emergência econômico e hegemonia às avessas no Brasil” In: OLIVEIRA, F.; BRAGA; R.; RIZEK, C. [Orgs.] Hegemonia às avessas: economia, política e cultura na era da servidão financeira. São Paulo: Boitempo, 2010, p. 109 et seq.

[44] Idem, p. 128.

[45] Para Agamben, estas questões são objeto de um frutífero debate entre Benjamin e Schmitt e é tal debate o objeto do capítulo 4 de Estado de exceção: “(…) A discussão se dá numa mesma zona de anomia que, de um lado, deve ser mantida a todo custo em relação com o direito e, de outro, deve ser também implacavelmente libertada dessa relação. O que está em questão na zona de anomia é, pois, a relação entre violência e direito – em última análise, o estatuto da violência como código da ação humana. Ao gesto de Schmitt que, a cada vez, tenta reinscrever a violência no contexto jurídico, Benjamin responde procurando, a cada vez, assegurar a ela – como violência pura – uma existência fora do direito”. AGAMBEN, Giorgio. Estado de exceção: homo sacer II, 1. Tradução de Iraci D. Poleti, São Paulo: Boitempo, 2° edição, 2007, p. 92.

[46] Automação, robótica e microeletrônica compõem em tal grandeza a substituição de trabalho vivo por trabalho morto que o Grupo Krisis declarou que o primeiro agora encontra-se como “defunto”, “supérfluo”, “obsoleto”, “deixa de ser regra e passa à exceção”. KRISIS. Manifesto contra o trabalho. Tradução de Heins Kieter Heidemann e Claudio Duarte. São Paulo: Labur – Depto. De Geografia da FFLCH/USP, 1999, p. 11 et seq.

[47] OLIVEIRA, F. de. Crítica à razão dualista; O ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003, p. 135 et seq.

[48] SOUZA, J. Os batalhadores brasileiros: nova classe média ou nova classe trabalhadora. 2° ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2012, p. 54.

[49] SILVA, L. M. “Trabalho e regresso: entre desregulamentação e re-regulamentação” In: OLIVEIRA, F.; BRAGA; R.; RIZEK, C. [Orgs.] Hegemonia às avessas: economia, política e cultura na era da servidão financeira. São Paulo: Boitempo, 2010, p. 65.

[50] Cf. CATILLO, J. J. “O trabalho do conhecimento na sociedade da informação: a análise dos programadores de software” In: ANTUNES, R.; BRAGA, R. [Orgs.] Infoproletários: degradação real do trabalho virtual. São Paulo: Boitempo, 2009.

[51] BRAVERMAN, H. Trabalho e capital monopolista: a degradação do trabalho no século XX. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1981, p. 168.

[52] WOLFF, S. “O ‘trabalho informacional’ e a reificação da informação sob os novos paradigmas organizacionais” In: ANTUNES, R.; BRAGA, R. [Orgs.] Infoproletários: degradação real do trabalho virtual. São Paulo: Boitempo, 2009, p. 105.

[53] Idem, p. 109.

[54] “Para auxiliar o supervisor na organização e gestão do trabalho dos atendentes, são utilizados alguns programas de informática, suas grandes ferramentas de trabalho. Responsável pela distribuição das chamadas telefônicas para as diferentes PAs [Posições de Atendimento], todas ligadas ao sistema controlado pelo supervisor, esses softwares orientam os procedimentos, mensuram o tempo médio de atendimento e a duração de uma ligação, produzem relatórios de produtividade e registram a jornada e as interrupções de cada atendente nas posições de atendimento, possibilitando ainda a gravação de todos os procedimentos realizados. Por meio desses softwares, o supervisor vê ininterruptamente na tela de seu computador, o nome de todos os operadores e os gráficos com os respectivos tempos/ritmos/duração de cada atendimento. Nas CTAs [Centrais de Teleatividades], desenvolve-se uma atividade que é monitorada quase em tempo real. As cadências e os ritmos são estabelecidos e as normas e procedimentos são fixados, eliminando-se qualquer possibilidade de autonomia. Os tempos e as tarefas são prescritos, os gestos são acompanhados, a tonalidade da voz é ouvida e corrigida. Para além desse controle, existem ainda as dificuldades que a relação com os clientes podem causar, submetendo o atendente à constante pressão e consequente stress”. OLIVEIRA, S. M. “Os trabalhadores das centrais de teleatividades no Brasil: da ilusão à exploração” In: ANTUNES, R.; BRAGA, R. [Orgs.] Infoproletários: degradação real do trabalho virtual. São Paulo: Boitempo, 2009, p. 122.

[55] VENCO, S. “Centrais de teleatividades: o surgimento dos colarinhos furta-cores?” In: ANTUNES, R.; BRAGA, R. [Orgs.] Infoproletários: degradação real do trabalho virtual. São Paulo: Boitempo, 2009, p. 157.

[56] NOGUEIRA, C. M. “As trabalhadoras do telemarketing: uma nova divisão sexual do trabalho?” In: ANTUNES, R.; BRAGA, R. [Orgs.] Infoproletários: degradação real do trabalho virtual. São Paulo: Boitempo, 2009, p. 193.

[57] OLIVEIRA, S. M. “Os trabalhadores das centrais de teleatividades no Brasil: da ilusão à exploração” In: ANTUNES, R.; BRAGA, R. [Orgs.] Infoproletários: degradação real do trabalho virtual. São Paulo: Boitempo, 2009, p. 124 et seq.

[58] ANTUNES, R. “Século XXI: nova era da precarização estrutural do trabalho?” In: ANTUNES, R.; BRAGA, R. [Orgs.] Infoproletários: degradação real do trabalho virtual. São Paulo: Boitempo, 2009,  p. 234.

[59] “Em 1970, um carro era produzido em quatro versões, contra mais de vinte, duas décadas mais tarde. […] O mercado de tênis era pouco diferenciado: hoje a Reebok pode oferecer cerca de quinhentas a seiscentas referências. A indústria da relojoaria ilustra igualmente o advento da economia da variedade: estima-se em mais de 50 mil o número de modelos registrados pela Swatch”. LIPOVETSKY, G. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. Tradução de Maria Lucia Machado, São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 79.

[60] Idem, p. 80.

[61] “[…] Um enorme número de produtos tem uma duração de vida que não excede a dois anos; estima-se que a dos produtos high-tech foi diminuída pela metade desde 1990; 70% dos produtos vendidos em grande escala não vivem mais de dois ou três anos; mais da metade dos novos perfumes desaparece ao fim do primeiro ano”. Idem, p. 89.

[62] OLIVEIRA, F. de. Crítica à razão dualista; O ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003, p. 139.

[63] “Para manter a rotatividade sem grandes custos operacionais, a empresa efetua pré-contratações coletivas, faz o treinamento de todo o grupo [sem, é claro, remuneração e contrato assinado] e o coloca na espera. Vários meses podem transcorrer entre a pré-contratação e a contratação definitiva. Esta servirá para substituir o operador já desgastado, com ‘prazo de validade’ vencido”. ROSENFIELD, C. L. “A identidade no trabalho em call centers: a identidade provisória” In: ANTUNES, R.; BRAGA, R. [Orgs.] Infoproletários: degradação real do trabalho virtual. São Paulo: Boitempo, 2009, p. 178.

[64] SOUZA, J. Os batalhadores brasileiros: nova classe média ou nova classe trabalhadora. 2° ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2012, p. 61 et seq.

[65] OLIVEIRA, F. de. Crítica à razão dualista; O ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003, p. 29.

[66] “Neste início do século XXI, […] somente o setor terciário tem registrado aumento na sua posição relativa em relação ao PIB. Entre 1980 e 2008, o setor terciário aumentou seu peso relativo em 30,6%, respondendo atualmente por dois terços de toda a produção nacional, enquanto os setores primários e secundários perderam 44,9% e 27,7%, respectivamente, de suas participações relativas ao PIB.

“[…] Durante a década de 2000, o setor terciário gerou 2,3 vezes mais empregos do que o setor secundário, ao passo que, na década de 1970, o setor terciário gerava somente 30% mais postos de trabalho do que o setor secundário da economia nacional. No setor primário, a diminuição nos postos de trabalho no primeiro decênio do século XXI chega a ser nove vezes maior do que o verificado na década de 1970”. POCHMANN, M. Nova classe média?: o trabalho na pirâmide social brasileira. São Paulo: Boitempo, 2012, pp. 16-17.

[67] NERI, M. A nova classe média: o lado brilhante da base da pirâmide. São Paulo: Saraiva, 2011, p. 256.

[68] POCHMANN, M. Nova classe média?: o trabalho na pirâmide social brasileira. São Paulo: Boitempo, 2012, pp. 19-20.

[69] Idem, p. 27.

[70] POCHMANN, M. “Políticas públicas e situação social na primeira década do século XXI” In: SADER, E. [Org.] Lula e Dilma: 10 anos de governos pós-neoliberais. São Paulo/Rio de Janeiro: Boitempo/ FLACSO, 2013, p. 151.

[71] “[…] Sem elas, o Brasil teria, em 2008, 40,5 milhões de pessoas recebendo um rendimento de até 25% do salário-mínimo nacional. Com a complementação de renda pelas transferências, o Brasil registra 18,7 milhões de pessoas com até um quarto de salário-mínimo mensal. Resumidamente, são 21,8 milhões de pessoas que conseguiram ultrapassar a linha da pobreza extrema [até 25% do salário-mínimo per capta]. Idem, p. 151.

[72] POCHMANN, M. Nova classe média?: o trabalho na pirâmide social brasileira. São Paulo: Boitempo, 2012, pp. 47-123.

[73] Marcelo Neri argumenta que o crescimento do emprego formal, na década iniciada em 2001, relaciona-se à maior demanda por trabalho decorrente da retomada do crescimento econômico, ao aumento da escolarização da população, à melhoria na eficiência das atividades de fiscalização e inspeção do Ministério do Trabalho e Emprego, às mudanças na legislação trabalhista e previdenciária [notadamente no governo Fernando Henrique Cardoso] e a incentivos à formalização de micro e pequenas empresas. Idem, p. 188-189.

[74] POCHMANN, M. Estrutura social no Brasil: mudanças recentes. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-66282010000400004&lng=pt&nrm=iso . Acesso em: 28-4-2012.

[75] SOUZA, J. Os batalhadores brasileiros: nova classe média ou nova classe trabalhadora. 2° ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2012, p. 105 et seq.