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A “CLASSE C” VAI AO PARAÍSO? A ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL DO BRASIL NO SÉCULO XXI [PARTE J]

1 de julho de 2014

XXIV

  O membro da “classe C” declara-se feliz[ver VIII] – tal mensuração da felicidade contabiliza apenas o que convém à própria sociedade de consumo [todos são iguais para adquirirem os valores de uso existentes e as estatísticas que apontam o crescimento de consumo indicam, assim, aumento da felicidade] e não a fruição interior, a independência dos olhos dos outros, uma vez que ambas excluem a necessidade de consumo. Mensura-se maior consumo e crescimento do PIB, mas tais indicadores não seguem o compasso da felicidade, uma vez que estão submetidos à ordem econômica de crescimento do lucro, não às necessidades verdadeiras que as pessoas podem satisfazer. Contudo, o próprio membro da “classe C” não é um tribunal confiável para julgar seu estado e a inexistência de outro melhor que ele, que não seja condenável epistemológica e eticamente, não invalida a necessidade de desconfiar dos juízos que emite. Marcuse argumentou que apenas indivíduos não manipulados por falsas necessidades que operam dentro deles mesmos fariam declarações não manipuladas; do contrário, tais declarações são suspeitas e reveladoras de como as pessoas pensam e agem contra a própria libertação[1], tal como o voto que dão contra si mesmos em eleições parlamentares. Tal consideração parece válida para o membro da “classe C” brasileira à medida que, manipulado para não frear o consumo, aposta que a felicidade, terrena e não apenas transcendente, é instantânea à aquisição da cesta de consumo que o apraz, mas invalidada sem demora à medida que a capacidade de consumo tem um limite e que embarga a continuidade das aquisições, que a realidade que incentiva o consumo é a mesma que estressa e deprime, que aumenta a jornada de trabalho, que deteriora relações humanas[2], que aumenta a violência urbana, que exclui aqueles que não querem ou que não conseguem consumir,  que, ao equalizar felicidade e consumo, promove a perenidade da insatisfação para que o consumo nunca cesse e mantenha a ilusão de que a próxima satisfação alcançará a felicidade. Processo descrito por Marcuse como “dessublimação repressiva” e que Wolfgang Leo Maar, retirando conclusões políticas da atual hegemonia às avessas no Brasil, considera que o dominado é agente da própria dominação a qual está submetido à medida que, administrado pelo todo que produz e distribui quinquilharias, submete-se à administração do cálculo racional – o próprio todo produtivo e distributivo como ideologia – que metamorfoseia a política em administração, os sujeitos em objetos, o desconforto em conforto, os antigos potenciais coveiros da ordem em atuais sustentáculos da mesma, a antiga oposição em governo[3]. Tal elenco de fenômenos mostra, conforme o argumento de Baudrillard, que não basta captar um signo de felicidade para se alcançar a própria felicidade[4]. O membro da “classe C” perpetua a insatisfação pela estratégia de desvalorizar o que já foi adquirido e tem açuladas novas necessidades pretensamente satisfeitas com a vasta oferta de novos artigos a serem consumidos e/ou com a conversão de necessidades primárias em bens de luxo [como encontrar água mineral em um ambiente fortemente poluído], transformando o procedimento em um “vício”[5] para o membro da “classe C” e, assim, subtraído de sua plenitude racional e de tal forma narcotizado, ele declara-se feliz com a sociedade narcotizante, não notando que, pela oferta abundante de mercadorias, o que se perpetua é a carência à medida que as necessidades de distinção crescem ilimitadamente e jamais satisfeitas plenamente, que é condicionado à obediência de um código de artigos que lhe dariam distinção, mas que apenas submetem à “penúria luxuosa e espetacular”[6].   [1] “[…] Enquanto eles [os ‘indivíduos’] forem mantidos incapazes de ser autônomos, enquanto forem doutrinados e manipulados [até os seus próprios instintos] a resposta que derem a essa questão não poderá ser tomada por sua. E, por sinal, nenhum tribunal pode com justiça se arrogar o direito de decidir quais necessidades devam ser incrementadas e satisfeitas. Qualquer tribunal do gênero é repreensível, embora a nossa revulsão não elimine a questão: como podem as pessoas que tenham sido objeto de dominação eficaz e produtiva criar elas próprias as condições de liberdade?” [“(…) As long as they are kept incapable of being autonomous, as long as they are indoctrinated and manipulated (down to their very instincts), their answer to this question cannot be taken as their own. By the same token, however, no tribunal can justly arrogate to itself the right to decide which needs should be developed and satisfied. Any such tribunal is reprehensible, although our revulsion does not do away with the question: how can the people who have been the object of effective and productive domination by themselves create the conditions of freedom?”]. MARCUSE, H. One-dimensional man: studies in the ideology of advanced industrial society. 2° printing. London/New York: Routledge, 2002, pp. 08-09. [2] Bauman oferece m exemplo com a diferença entre o antigo jantar em família e o hábito atual de alimentação em redes de fast food:  “[…] Na mesa de jantar, e apenas nela, era possível encontrar comida pronta para comer: a reunião na mesa de jantar comum era o último estágio [distributivo] de um longo processo produtivo iniciado na cozinha ou até  fora dela, no campo ou na oficina da família. O que unia os comensais, transformando-os num grupo, era a cooperação, concretizada ou esperada, no processo precedente do trabalho produtivo, e compartilhar o consumo do que foi produzido deriva disso. Podemos supor que a ‘consequência indesejada’ das ‘fast food’, ‘para viagem’ ou ‘comida congelada’ [ou talvez sua ‘função latente’ e verdadeira causa da irresistível ascensão de sua popularidade] seja tornar as reuniões em torno da mesa de jantar redundantes, pondo fim ao consumo compartilhado, ou endossar simbolicamente a perda, por um ato de comensalidade [o consumo em conjunto], das onerosas características de estabelecimento e reafirmação de vínculos que teve no passado, mas que se tornaram irrelevantes ou mesmo indesejáveis na sociedade líquido-moderna de consumidores. A ‘fast food’ está aí para proteger a solidão dos consumidores solitários” [BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. Tradução de Carlos Alberto Medeiros, Rio de Janeiro: Zahar, 2008, pp. 101-102]. [3] MAAR, W. L. “Política como práxis: hegemonia às avessas, um exercício teórico” In: OLIVEIRA, F.; BRAGA; R.; RIZEK, C. [Orgs.] Hegemonia às avessas: economia, política e cultura na era da servidão financeira. São Paulo: Boitempo, 2010, p. 356 et seq. [4] Para Baudrillard, trata-se de um mito: esperamos, a exemplo dos melanésios que fizeram simulacros de avião para que estes pousassem próximos a suas moradias, que o consumo nos dê o milagre de que a felicidade pouse em nós: trata-se de uma mentalidade primitiva [onipotência do pensamento transfigurada em onipotência dos signos] à medida que se crê que, para ser feliz, basta acumular signos de felicidade – tal como os melanésios não perdem a crença de que o avião possa pousar, também acreditamos nos signos oriundos da televisão, cuja característica são atenuar o princípio da realidade social e, por isso, captamos a mesma de forma miraculosa. Em segundo lugar, ao apreendermos os bens de consumo abundantes e não trabalhados por nós mesmos, acreditamos que a generosa natureza, aventada pela publicidade, sempre nos abastecerá com abundância pelo mito de três deuses, a Técnica, o Progresso, o Crescimento. Cf: BAUDRILLARD, J. A sociedade de consumo. Tradução de Artur Morão, Lisboa: Edições 70, 2010, pp. 21-24. [5] BAUMAN, Z. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. Trad. de Carlos Alberto Medeiros, Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 64. [6] BAUDRILLARD, J. A sociedade de consumo. Trad. de Artur Morão, Lisboa: Edições 70, 2010, p. 77.

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