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A “CLASSE C” VAI AO PARAÍSO? A ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL DO BRASIL NO INÍCIO DO SÉCULO XXI [PARTE H]

1 de maio de 2014

XXI

 

O que fazer contra o frenesi consumista que, no limite, resulta em transtornos compulsivos, endividamento desenfreado, dependência de jogos eletrônicos e de medicamentos, bulimias, obesidades…? A ideia de que vale a pena consumir o que faz bem a si mesmo e não o que faz mal, o que é socialmente exigido do membro da “classe C” e o que é socialmente estabelecido como “bem”, faz com que o singular mimetize o todo, colocando o primeiro em subserviência em relação ao segundo.  Ademais, a própria ideia de bem é colonizada pelo consumo à medida que é considerada como um artigo a mais a ser adquirido: técnicas de desenvolvimento pessoal, sabedorias orientais, livros de autoajuda, alimentos para o equilíbrio mental e corporal, guias estéticos, medicalização da existência [pílula da felicidade, psicotrópicos em geral, cirurgias plásticas] compõem o que a indústria oferta para o consumo em massa – trata-se de um despotismo do bem-estar que inculca remorso em quem não se sinta bem e de uma “indústria do medo”[1] que combate as ansiedades pela comercialização de artigos e pela submissão a especialistas com saberes pretensamente amortecedores do mal-estar generalizado. Caso o membro da “classe C” perceba tal colonização e decida apartar-se de tudo o que se aproxime da fruição, da satisfação corporal, das pulsões e do irracional, acreditando-se mais feliz se se orientar por sua autonomia que redunde em virtude e liberdade interior, termina, contudo, submetendo as necessidades e os prazeres à moral resignada e automutiladora. Caso pense sua libertação pela mediação da hipertrofia da espiritualidade, o membro da “classe C” também cava a própria cova à medida que o neocristianismo, adaptado à era do consumismo, valoriza mais a felicidade intramundana e os valores como a solidariedade, o amor, a harmonia, a paz interior e realização pessoal do que a antiga provação, o sacrifício e a renúncia[2] – mesmo as atividades religiosas, cristãs ou não, foram mercantilizadas como nichos específicos a serem explorados pelo supermercado religioso composto de livrarias, indústrias fonográficas, salões de exposição, artigos de vestuário, cursos e turismo religioso que ofertam, incessantemente, promessa de novas sensações tais como aquelas apregoadas por quaisquer mercadorias apresentadas pela indústria publicitária [alimentos, carros, artigos de higiene etc]; contudo, a exuberante quantidade de artigos religiosos a serem consumidos empreende a vertigem e a ansiedade, em lugar da paz espiritual, à medida que logo se torna obsoleta em relação a outros artigos da indústria religiosa que profanam as mercadorias já consumidas em nome do caráter sagrado daquela a consumir. Como as liturgias agora valorizam os sentidos à medida que sacerdotes e seguidores cantam e dançam, como no neopentecostalismo e no catolicismo [Renovação Carismática], a mercantilização é facilitada e, assim, anula o amor, a harmonia, a paz interior e a realização pessoal à medida que joga o bom cristão na luta encarniçada pela aquisição de mais “bens”. Notadamente no neopentecostalismo, nota-se a afinidade eletiva com o espírito de alcance do bem pelo consumo e com o capitalismo periférico sob a era toyotista e financeira[3]: massas de desempregados, subempregados, imigrantes rurais recém-chegados às cidades, ansiosos pela promessa de futuro, consomem identificações com exemplos mágicos do presente para anteciparem o lugar que pensam estar reservado a eles em algum momento e, para tal, contam com a proximidade de sacerdotes capilarizados [tal como o setor de serviços formal e informal que se desenvolveu capilar e horizontalmente nas cidades] também nos bairros mais inacessíveis graças à visão celular da igreja neopentecostal e do modo como ela não coloca entrepostos de mediação entre o crente e seu deus; com efeito, o convertido à igreja compra um estilo de vida garantidor de segurança contra a mobilidade social descendente – quando a socialização primária não estruturou condutas peculiares a formigas, e sim a cigarras, a igreja, como agência de socialização secundária, vende-as, acoplando religião e família ressocializada à medida que o convertido é inclinado a repetir em todos os âmbitos de sua vida os exemplos que encontra nas células da igreja e que são compatíveis com as exigências do status quo, tal como a resignação em trocar o prazer pelas jornadas extenuantes de trabalho insípido que pretende dar segurança ao convertido – e quando ele, de fato, cai, tal como quando entra nas fileiras do desemprego, abriga-se na rede de proteção familiar da qual agora faz parte, uma vez que seu capital social não é o dos desclassificados, mas o das famílias celulares que ofertam, a exemplo de uma previdência social privada, provimentos básicos e que mostram, mais uma vez, a relação estreita entre o neopentecostalismo e a atual “classe C”. Caso a estratégia do membro da “classe C” seja, outrossim, blindar-se do consumo com as esferas da amizade e do amor, transporta para elas a lógica da qual procura escapar: o ideal de felicidade a dois é alvo da indústria publicitária e contribui para construir nas pessoas a necessidade de viver em casal constituído, as amizades e os amores particulares mostram-se colonizados pelo universal alienado e alienante, promovendo, como no casamento, a redução de um à propriedade do outro, tal como uma mercadoria ao ser apropriada pelo consumidor, e a diminuição do número de casamentos em âmbito mundial e o aumento do número de divórcios mostram o compasso com a preferência pelas estratégias temporárias do consumidor atual [vincado mais pela publicidade estimuladora de novas sensações do que pelas sanções normativas como a do que “até que a morte os separe”, conforme argumentou Bauman[4]], mais acostumado a uma multiplicidade de produtos e marcas e menos dependente de um único produto, loja e marca [em âmbito nacional, os números apontam maior rotatividade ente os casais, com aumento do número de divórcios, e aumento da idade média com que homens e mulheres se casam[5]]; expressa o fenômeno o número desenfreado da indústria pornográfica [mais de 11 mil filmes no mundo em 2004 e um grande número de sites pornográficos na internet (1,6 milhão[6]), embora o setor tenha começado a viver uma crise que o obrigou a substituir a tradicional venda de filme pornográfico pela interação característica à rede mundial de computadores[7]] que não se limita apenas a sex-shop e a revistas especializadas: à medida que a sexualidade invade todos os horários e lugares, a diferença entre produtos e programas para “adultos” ou para a “família” são de difícil demarcação – por mais rígido que seja o material que constitui a blindagem, ele continua sendo permeável; os particulares continuam dentro do universal. Mobilizados pelos anúncios e convencidos de que precisam de muitas coisas, os membros da “classe C” precisam trabalhar cada vez mais, e nunca menos, para adquirirem dinheiro para o consumo e, assim, longe do lar, compensam a ausência com a compra de presentes nas datas sazonais [páscoa, dia das mães, dia dos namorados, dia dos pais, natal…] ou em qualquer momento; contudo, a estratégia não dá resultado à medida que, a despeito do espasmódico momento da entrega do presente, a exaustão da longa jornada de trabalho coloniza o lar com a impaciência do mercado e transfere para o primeiro a impaciência do segundo: falta habilidade para solucionar os diversos conflitos da vida em família e a edificação de tal habilidade sequer é vista como importante, o que está no primeiro plano é a necessidade sisífica e tantâlica de trabalhar, acumular dinheiro e consumir.

 

XXII

O membro da “classe C” possui um “eu” suficientemente equipado para dizer não? Freud, na Viena da primeira metade do século XX, para explicar a constituição e a característica do aparelho psíquico do indivíduo, argumentou com duas hipóteses complementares. Ontogeneticamente, a estrutura mental, então dividida em id, ego e superego, constituía-se de pulsões primárias, do id, sublimadas pelas duas outras partes e redirecionadas para dentro pela última, processo do qual emergiram o complexo de Édipo, a consciência, o sentimento de culpa, a necessidade de autopunição e a extensa série de patologias psíquicas da era liberal. Contudo, a mesma estrutura mental modificou-se, de acordo com Marcuse em Eros e civilização, na era dos monopólios, para uma divisão em apenas duas partes, uma vez que o ego foi corroído: como os “indivíduos” se formam não mais sob o controle do pai provedor e da sua empresa familiar – no Brasil, fenômeno intumescido pelo contexto da família patriarcal vigente até o século XIX –, mas sob os monopólios e instituições gigantescas, eles se mimetizaram a elas para o alcance da autopreservação – a produção e a distribuição em massa formaram, também, pessoas com um superego pré-formado e com um ego encolhido a ponto de serem administradas e controladas de tal forma que se limitam à “escolha” automática entre as mercadorias disponibilizadas no mercado. A socialização, na era liberal, ocorria na luta entre a criança e o pai e deste confronto a primeira formava sua personalidade; sob a era dos monopólios, ocorre a administração direta da sociedade e sem luta entre ela e os “indivíduos”; por isso, enfraquece de tal maneira o ego que este não se diferencia mais do id ou do superego, transformando o antigo indivíduo em um átomo social [que, reunido a outros átomos, forma a massa] sem a menor capacidade crítica, uma vez que está mimetizado com a sociedade e não vê a menor necessidade de empreender uma sociedade diferente [algo psiquicamente impossível de conceber para o átomo, uma vez que está fundido]. Filogeneticamente, Freud expôs uma metapsicologia que mostrou a vereda hipotética da constituição da civilização ocidental: a antiga dominação do pai sobre os membros da família, a rebelião dos filhos, a edificação do matriarcado, a contrarrevolução patriarcal e a institucionalização do sentimento de culpa e da autopunição, uma vez que as pulsões de morte introjetadas tencionaram o superego inflacionado contra o ego e promoveram o retorno do reprimido – todos estes capítulos da filogênese freudiana tinham a carência como pano de fundo. Mas a antiga família burguesa foi substituída, na era dos monopólios, por agências de educação que controlam diretamente o “indivíduo” desde o berço e mudaram o quadro da filogênese freudiana: a escola, a indústria do entretenimento com a mídia e o tempo absurdamente grande que ela dedica ao esporte e aos clichês culturais, os bandos de jovens, os clubes e as associações, os jogos eletrônicos e a internet, em suma, todas as agências de socialização extrafamiliar, operam uma socialização direta da sociedade sobre um ego que, ainda não desenvolvido completamente e cooptado desde cedo, torna-se enfraquecido e adere automaticamente à sociedade e que, ao substituir o pai restritivo pelo pai permissivo [o consumo], pereniza a infantilização à medida que o ego não se forma completamente e exige a [falsa] satisfação pelo consumo [meio transformado em fim] incessantemente e em contato direto com o id e com o superego, eternizando a carência. Ir à escola, teclar on, start, play, enter, fazer um download, gritar gol, reunir amigos para ir ao shopping é dizer sim à sociedade e não à antiga família liberal, mas não se trata de um sim e de um não após reflexão crítica, tal como pediam Rousseau ou Kant, e sim um sim e um não automáticos e sem a mediação do próprio Eu, uma vez que não se trata apenas de uma suspensão temporária do superego em nome da fruição individual, mas como um superego autômato e formado desde tenra idade que dita o que é aprazível e que exige “dessublimações repressivas”[8] que acorrentam o particular ao geral, conforme Marcuse argumentou. Reunidos, os átomos sociais não formam uma comunidade, mas uma massa que perverte a individualidade. A erosão do “eu” que a Teoria Crítica esforçou-se em mostrar ao longo do século XX, não exclui, no século XXI, a “classe C” à medida que, identificada ao status quo que é diferente daquele da carência absoluta ou semiabsoluta, está organizada e administrada sobre uma base material também monopolista e ainda mais produtora de heteronomia, uma vez que o capitalismo financeiro subtrai de todas as outras personagens a decisão acerca das veredas a tomar. A expressão de Adorno permanece atual e, agora, também inclui o Brasil: “Em muitas pessoas já é um descaramento dizerem ‘Eu’”[9]. O que evita a ruína absoluta é que, na mesma expressão, Adorno teve o cuidado de dizer “em muitas pessoas”, e não todas: há quem consiga mesmo dizer “não” – e não apenas por limitação orçamentária, mas por decidirem não se deixar cooptar pelo consumismo e pelo império do efêmero. Se forem anticonsumistas militantes, como o são alguns grupos contraculturais, de um lado, ao consumirem indumentárias que garantem distinção em relação e oposição aos demais, também se tornam consumistas das mesmas e público-alvo de um nicho de mercado específico; de outro, são imediatamente vistos como uma “sujeira”[10] que corrompe a pureza dos templos de consumo tradicionais, como “estranhos”[11] a serem expurgados e denunciados pelas câmeras de vigilância, alarmes eletrônicos e seguranças armados, ademais, contra eles e qualquer espécie de delinquentes, os consumidores comuns, átomos sociais, procuram se proteger e se tornarem impermeáveis à medida que erguem seus muros, eletrificam-nos com cercas de segurança, apartam-se em condomínios-guetos, transitam em carros repletos de engenhocas de segurança – trata-se de um totalitarismo contra os elementos residuais que arranham, turvam e poluem a pureza de uma sociedade que se pretende consumista e, por isso, a velha estratégia de isolar, como a dos campos de concentração, pulsa dentro do mercado livre [totalitário].

 

[1] BAUMAN, Z. “A sociedade do medo” In: Capitalismo parasitário: e outros temas contemporâneos. Trad. de Eliana Aguiar, Rio de Janeiro: Zahar, 2010, p. 74.

[2] LIPOVETSKY, G. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. Trad. de Maria Lucia Machado, São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 131.

[3] “O elemento que dá liga e em parte explica o sucesso dessa religiosidade é a sua sintonia com um habitus de classe comum. É a partir da formação de uma classe social [e suas frações] que se marcou o desenvolvimento do capitalismo na periferia, que o destino dos batalhadores e do pentecostalismo começa a se encontrar. E quanto a isso as velhas narrativas sociológicas e seus principais conceitos não conseguem abranger todo esse universo. Os modelos religiosos e ideológicos tradicionais eram produtos moldados para o consumo das clivagens tradicionais de classe, ou seja, a burguesia e o proletariado, este último até então como a classe urbana também trabalhadora, porém não integrada ao modelo de mercado de trabalho fordista. Assim, o desafio de se perceber a relação do pentecostalismo com a classe social é o de perceber a existência de uma classe que tradicionalmente foi concebida como uma subclasse, com um papel coadjuvante na dinâmica da vida social, ou mesmo associada equivocadamente a categorias como pré-moderno, atrasado, como se estas fossem resíduos de vestígios tradicionais que desapareceriam frente à expansão da modernização”. SOUZA, J. Os batalhadores brasileiros: nova classe média ou nova classe trabalhadora. 2° ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2012, p. 314 et seq.

[4] BAUMAN, Z. O mal-estar da pós-modernidade. Trad. de Mauro Gama, Cláudia Martinelli Gama. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 185.

[5] Disponível em: http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2011/11/30/casamentos-aumentam-mas-homens-e-mulheres-preferem-casar-mais-tarde.htm . Acesso em: 16-07-2012.

[6] LIPOVETSKY, G. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. Trad. de Maria Lucia Machado, São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 242.

[7] Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/multimidia/videocasts/1063497-em-crise-industria-porno-se-reinventa-para-nao-morrer.shtml . Acesso em: 16-07-2012.

[8] “MARCUSE, H. One-dimensional man: studies in the ideology of advanced industrial society. 2° printing. London/New York: Routledge, 2002, p. 59.

[9] ADORNO, T. Minima Moralia: reflexões a partir da vida danificada. 2° ed. Trad. de Luiz Eduardo Bicca, São Paulo: Ática, 1993, aforismo 29, p. 42.

[10] BAUMAN, Z. O mal-estar da pós-modernidade. Trad. de Mauro Gama, Cláudia Martinelli Gama. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 23.

[11] Idem, p. 27.