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A “CLASSE C” VAI AO PARAÍSO? A ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL DO BRASIL NO INÍCIO DO SÉCULO XXI [PARTE F*]

1 de março de 2014

“Sou capaz de revoltadamente obedecer, eu a
inliberta” [Clarice Lispector. A via crucis do corpo].

XVIII

Politicamente, o membro da “classe C” limita-se ao comportamento de cidadão-consumidor: ao invés de engajamento político e emancipatório em organizações de classe, ao gosto do marxismo ortodoxo, empreende campanhas, como as dos estratos mais altos, por produção e consumo “sustentáveis” para evitar a agressão ao meio-ambiente e ao homem[1]; ao invés de filiação aos interesses de classe, há as campanhas e os espetáculos que redundam em acúmulo de material para filantropia; votando, orienta-se mais pelas figuras dos candidatos do que pelos programas dos partidos, escolhe mais como consumidor, cliente e contribuinte do que como membro de classe com um partido tradicional a representá-lo; organizando-se, age não mais como aquele antigo militante que, pertencente a movimentos sociais, lutou contra a ditadura e reivindicou a promoção de direitos sociais nas décadas de oitenta e noventa do século XX, mas como “organizador das clientelas usuárias dos serviços sociais”[2] à medida que é pertencente a alguma ONG [ou sindicato, entidade estudantil etc.] que presta serviço com recursos oriundos do Estado ou de empresas privadas que abriram mão do papel de executores ou prestadores diretos de serviços para apenas promovê-los e regulá-los – o atual quadro de ação política prima pela anexação dos ativistas mediante um contrato que atribui ao terceiro setor a característica heterônoma de ações substitutivas à presença estatal. Ademais, o conservadorismo característico a todos os matizes da classe média brasileira enraíza-se na dependência social e econômica que tem em relação ao grande capital: subordinados aos conglomerados que monopolizaram o mercado mundial, a autonomia que resta a eles ou inexiste ou é relativa à medida que, para se reproduzirem, dependem[3] das ações do centro da economia mundial e, por isso, não anseiam alterá-las – o quão mais se desenvolve o país [desenvolvimento como mito, como explicou Celso Furtado e como os governistas o sabem[4]], mais dependente e conservadora se torna a “classe C”[5], uma vez que se desinteressa de um projeto nacional à medida que agarra-se aos programas oriundos do centro do capitalismo mundial e a privilégios recém-adquiridos [empregadas domésticas, faxineiras], não anseia que serviços de baixa qualificação e com péssima remuneração deixem de existir ou ocorram em situações mais dignas, uma vez que lhes subtrairiam os privilégios. Precisa-se considerar, ainda, que, caudatária de setores mais organizados do antigo proletariado convertido em administrador de fundos previdenciários complementares[6], a “classe C” ajudou a eleger e reeleger os governos conservadores e comprometidos com a acumulação financeira, a saber, Collor e os dois governos do PSDB, de verniz neoliberal, e os atuais do PT, de verniz neodesenvolvimentista, superficialmente opostos, mas convergentes em, a despeito de adotarem a crença nos dois mitos supracitados e respectivos, tentarem distribuir migalhas da acumulação, neoliberal ou neodesenvolvimentista, para a “classe C”, colocando-a em suas bases de apoio e formando um pluriclassismo – que vai do capital financeiro internacional, passando por um proletariado financeiro [aquele mais aristocratizado] até o subproletariado, marginalizado há séculos –, de acordo com a extrapolação aqui presente do argumento de Francisco de Oliveira em O ornitorrinco e de sua alocação de um ciclo, que vai do governo de Fernando Collor aos governos petistas, qualificado como “ciclo neoliberal”[7] [o denominador comum da abertura inconsequente de tudo para o capital estrangeiro sob Collor, da destruição do estado sob FHC e da cooptação da sociedade sob Lula foi a autonomia generalizada ao capital para colonizar todos os âmbitos da vida social]. Outro fator que fez a “classe C” legitimar do bloco PSDB, PT, capital toyotista e financeiro, foi, ao adotar a ideologia de outro estrato, e, portanto, ao não ser uma classe social para-si, ser orquestrada para preocupar-se com o bom andamento do trem e, assim, a empenhar-se em apoiar a governança corporativa que nada mais é do que outra ideologia, a saber, a colonização da política pela produção flexível toyotista e financeira conforme Jessé Souza argumenta: governo eficiente e que merece apoio é o que não assusta o capital internacional, o que não obstaculiza o giro de capital e que o permite entrar ou sair em nichos de mercado para formarem novas mercadorias e novas [falsas] necessidades de consumo da mesma forma que entra e sai de países quando e como bem entendem, que valoriza mais o empreendedorismo como capitulação ao toyotismo do que apregoa a política já reacionária de insistir no aumento ostensivo do parque industrial, que mantém os juros altos em proveito de um punhado de financistas como ganho suplementar e compensatório à medida que lida com a corrupção generalizada que provoca gastos inesperados em toda a trajetória do dinheiro[8]; ou, conforme Carlos Nelson Coutinho, articulando conceitos gramscianos, mais do que não assustar o capital, PSDB e PT submeteram-se ao seu domínio e não o questionaram e, assim, os dois partidos são parte da hegemonia financeira e veículos de uma forma de controle social consensual que, com as mesmas medidas para todos os problemas  [“reforma”, a bandeira de qualquer projeto social-democrata, passou a significar apenas desmonte de regulamentações para que o capital atue sem qualquer forma de obstáculo, como atestam as privatizações e as alterações na legislação do trabalho[9], defendidas e levadas a cabo por lideranças históricas da luta pela democracia, pelo renascimento do sindicalismo e dos movimentos sociais, contribuindo para imobilizar as lutas na sociedade civil], apenas revezam-se no poder sem tocar na raiz deles e consentido em administrá-los tecnicamente e em agenciar “contrarreformas”[10] interessantes à reestruturação produtiva que continuam a desmontar o Estado e as poucas políticas sociais desde Getúlio Vargas, a Ditadura de 1964-1985 e a Constituição de 1988. Jessé Souza[11] e André Singer especificam a questão da filiação eleitoral da “classe C” quando relacionam o “lulismo” aos programas de redução da pobreza implementados no primeiro governo Lula e que deu ensejo a uma aliança tão estreita entre governo e “classes” C, D e E que, mesmo com as denúncias de corrupção, aquele governo alcançou a reeleição e, em seguida, ainda elegeu sua sucessora, Dilma Rousseff: o eleitorado, dividido entre ricos e pobres – mais um mito, uma vez que se o Brasil tivesse tantos ricos quanto supõe a tese de André Singer, já estaria no Primeiro Mundo[12] –, mostrou que os últimos, mesmo sem organização política como a dos antigos sindicatos fordistas e dos partidos esquerdistas do século XX, não se deixaram levar pelas campanhas oposicionistas dos mais abastados que procuraram, pelo critério da ideia de meritocracia, ligar os programas do governo a uma espécie de assistencialismo impeditivo da separação republicana entre público e privado e agente do patriarcalismo e o personalismo na sociedade brasileira; com efeito, os setores subjacentes preferiram a política de redução da pobreza monetária e de oferta de garantias mínimas de vida, a despeito do “mensalão”. A estratégia do PT foi, por sua política de combate à pobreza monetária sem enfrentamento com o capital e pelo aproveitamento que conseguiu da conjuntura econômica mundial favorável entre 2003 e 2008 [notadamente, a explosão do preço de commodities que valorizaram o preço de alguns produtos (soja, açúcar, álcool, minério de ferro, petróleo, carne, laranja etc.) em até 89% exatamente sob o primeiro mandato de Lula[13]], ativar o mercado interno pela proteção ao “subproletariado”[14] originado e superxplorado desde a época do Brasil Colônia [na segunda metade da década de 1970, cerca de um século após o fim da escravidão, este estrato representava 48% da PEA, enquanto o proletariado somava 28%. Se o subproletariado aumentasse seus ganhos, o impacto na economia seria interessante na formação de um mercado interno muito mais dinâmico] e pela formalização de sua ocupação, este aderiu ao lulismo e formou um bloco que, desde então, garantiu a governabilidade do presidente, sua reeleição [no primeiro turno das eleições de 2006, entre a população de rendimento até dois salários mínimos, Lula teve 55% dos votos e seu adversário, Geraldo Alckmin, 28%[15]] e a eleição de sua sucessora [para os mesmos estratos sociais, Dilma Rousseff alcançou 53% no primeiro turno, enquanto José Serra 26%[16]] e, por exclusão, afastou o “subproletariado”, concentrado no Norte e no Nordeste do país [o DEM foi subtraído de sua base e o antigo coronelismo agrário foi substituído por um neocoronelismo governamental de sinal invertido], dos estratos mais altos da “classe média” de São Paulo e do Sul do país e que continuaram como base do PSDB; com efeito, houve um “realinhamento eleitoral”[17] [polarizado entre “ricos” x pobres, não entre direita x esquerda] que garantiu o combate à pobreza monetária concomitante à defesa conservadora [que retarda reformas mais significativas, que coloca dirigentes progressistas à frente do governo para empreenderem políticas conservadoras, articulando, mais uma vez, a conciliação brasileira entre o arcaico e o moderno] da ordem e formou, pela comparação que André Singer fez com a análise de Gramsci acerca da Itália dos tempos do filósofo, uma “questão setentrional”[18]. No cotidiano dos brasileiros, eis as ações governamentais que dinamizaram a economia e despertaram nos estratos mais subjacentes a sensação de melhoria e contribuíram para a formação do “lulismo”, ou, nos termos maquiavelianos de André Singer, ações peculiares a virtù auxiliadas pela fortuna da conjuntura internacional[19]: programas como o Bolsa Família atendiam 11,4 milhões de famílias em 2006[20]; controle dos preços que impediu o aumento da cesta básica [que escapou ao controle do governo de Dilma Roussef, ao início de 2013], sobretudo em regiões mais pobres; o aumento real do salário-mínimo [algo muito importante após a crise de 2008-9]; abertura de crédito consignado para aposentados; programa Luz para Todos; regularização de terras de comunidades como as dos quilombolas; programa de construção de cisternas no semiárido[21]; taxa de desemprego em queda e que chega próxima ao do pleno emprego [5,3% em dezembro de 2010] – políticas que apostam na expansão do mercado interno como garantia da estabilidade econômica [ratificadas pelo lançamento do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), em 2007, e pelo Programa Minha Casa Minha Vida, muito importante para a manutenção da taxa de empregabilidade após a crise financeira internacional, e que evitam o enfrentamento com o capital, consolidado ainda mais à medida que é pelo mercado que se tenta evitar as crises mercadológicas; tal consolidação é mais inteligível se se elenca a continuidade de políticas ortodoxas de regulação da economia entre os governos Lula com os do seu antecessor, FHC: controle da inflação, permissão que o câmbio flutue dentro de certos limites, esforço para o alcance de superávit primário em contas públicas, juros altos [mesmo quando caem, não deixam de ser os maiores do mundo],  reforma previdenciária com redução de benefícios, privatizações [já sob o governo de Dilma Rousseff, aeroportos e portos]. Eis ordem e progresso, combate à pobreza monetária pela estratégia desenvolvimentista que tranquiliza o grande capital[22] e que se expressa em contradições entre os programas e estatutos do PT com suas ações governamentais[23], que não acelera o combate à desigualdade para uma velocidade que o contingente de milhões necessita e que combina-se com a não tributação do grande capital, com a não desapropriação de latifúndios, com a não equiparação imediata do salário-mínimo com o que o Dieese considera ser adequado, não impedir que os estratos que conseguiram ascender ao mercado de trabalho formal nele entrem seguindo a lógica da precarização e da flexibilização de direitos trabalhistas históricos – a redução da desigualdade em ritmo que a questão exige depende do avanço contra o capital e não de mãos dadas a ele. O argumento de Francisco de Oliveira aproxima a “classe C”, no comportamento eleitoral, de setores integrados à financeirização do capitalismo; o de Jessé Souza e de André Singer aproxima o mesmo estrato daqueles outros mais subjacentes, mostrando que, por conta da grande desigualdade no país, as “classes” C, D e E elegeram os três últimos governos petistas; o de André Singer considera que os estratos determinantes para a vitória petista foram o D e o E, e que a “classe C” dividiu-se entre Lula e Alckimin com uma leve vantagem do primeiro e, somando os apoiadores de Lula, eis uma massa que, identificada com o líder de Estado, comporta-se de modo semelhante àquela massa descrita por Marx em O 18 Brumário, a saber, sentindo-se representada por não conseguir fazer-se representar: sem confronto com o capital, tenta-se alavancar o desenvolvimento fazendo da base “subproletária”[24] a camada social atendida pelas ações governamentais ao mesmo tempo que aquece a economia interna – eis a necessidade de incessantes investimentos estatais para que este contingente entre no mercado formal e a pressão do capital financeiro para que os gastos públicos não atrapalhem os compromissos do governo em honrar seus pagamentos dos caríssimos juros que deve [um montante maior do que o governo gasta, por exemplo, em educação]. O governo pensa conseguir arbitrar classes tão diferentes para o bem do país e, por isso, Luiz Werneck Vianna considerou, em 2007, que a característica dos governos de Lula era a de um “Estado Novo do PT” que funcionava como contenção às mudanças qualitativas[25]: um pluriclassismo arbitrado pelo Poder Executivo procurava evitar o radicalismo de modo a fazer com que o subproletariado aproveitaria o fenômeno desfrutando de inflação baixa e aumento do poder de consumo; o capital financeiro, obviamente, aproveitaria o dinheiro a receber das contas públicas; o proletariado tradicional sofreria uma pressão menor do gigantesco exército industrial de reserva à medida que contingentes subproletários seriam incorporados ao mercado de trabalho formal [mas não aos moldes do velho padrão fordista e sim do ‘empreendedorismo’ e do trabalho fragmentado em incomensuráveis pequenas unidades produtivas que dificultam a união de classe e a consciência da mesma] – mas, é justamente, por isso, que a desigualdade retarda em cair, uma vez que os investimentos do governo ficam limitados e não contribuem com maior incorporação de contingentes “subproletários” à formalidade. A ilusão de tal pluriclassismo é a cantilena da governabilidade pretensamente boa para todos os estratos e propagada em alto e bom som pelo seu arauto mais representativo, o presidente-mito Lula, em entrevista a Emir Sader e Pablo Gentili, em fevereiro de 2013, quando respondeu se guardava mágoas da oposição: “[…] O que eu guardo é o seguinte: eles nunca ganharam tanto dinheiro na vida como ganharam no meu governo. Nem as emissoras de televisão, que estavam quase todas quebradas; os jornais, quase todos quebrados quando assumi o governo. As empresas e os bancos também nunca ganharam tanto, mas os trabalhadores também ganharam. Agora, obviamente que eu tenho clareza que o trabalhador só pode ganhar se a empresa for bem”[26]. O equilíbrio pensado pelo governo não é neutro, é o equilíbrio imposto pelo capital financeiro que esgota o alargamento da produção [esta é desejada, também, pelo capital industrial e pelos proletários de maior rendimento, o que faz André Singer diagnosticar uma “coalizão produtivista”[27] que une duas classes na luta contra a desindustrialização, mas de tênue colaboração à medida que, incorporados ao proletariado, os trabalhadores exigem condições semelhantes à classe constituída da formalidade de anteriormente para diminuir a precariedade em que se encontra e, assim, aumentar a força do proletariado como tal] e, assim, mesmo produzindo redução de pobreza monetária, o governo pouco consegue fazer em redução da desigualdade social e afoga o subproletariado que, pensando melhorar de vida, convive com os altos juros dos créditos populares. O preço que se paga pela política que, em lugar de anticapitalista, caracteriza-se como “neutra” é a manutenção de velhos dispositivos antissociais na administração do país. Mas com uma diferença a ser considerada: não são mais os meninos de recado dos latifúndios, da Fiesp e dos banqueiros que colocam seus rostos a frente do governo e conduzem a dominação; em seus lugares estão aqueles representantes históricos dos dominados – os últimos governos foram ocupados pelos democratas que lutaram contra a ditadura militar, os ministérios foram ocupados por ex-sindicalistas e ex-líderes de movimentos sociais, todos agora pousando ao lado dos antigos dominadores para compor alianças de governabilidade questionáveis do ponto de vista ético e de classe, tal como a fotografia registrada entre Lula da Silva e Paulo Maluf nas eleições municipais de 2012. Tal fenômeno somente é possível porque, conforme Francisco de Oliveira argumentou, os dominados no poder tornaram-se administradores de fundos de pensão de estatais que financiam a dívida interna e que fazem, no poder, o mesmo que faziam os dominantes, uma vez que foram cooptados material e ideologicamente; eis uma falsa hegemonia, uma falsa revolução passiva da “esquerda” que alcançou o poder, uma hegemonia “às avessas”[28] que iludiu também a André Singer e os que aderiram à singermania e que negligenciam que o conservadorismo em correção da desigualdade social – que aumentou, a despeito da queda da pobreza absoluta – não foi suficiente para, economicamente, alcançar o desenvolvimento, uma vez que, sob o governo de Lula, o crescimento foi inferior ao que, historicamente, o país vinha crescendo e, ainda, converteu o país, novamente, em exportador de commodities e voltou à “vocação agrícola” – além de não ser desenvolvimentismo, é reacionarismo –, o que não acontecia desde 1978. A apologia de que a “reforma gradual”, sob o lulismo, seria uma revolução passiva, não é reforma nem revolução, é a “vanguarda do atraso e o atraso da vanguarda”[29], a contrarreforma: eis o Brasil pluriclassista no qual se aloca um ministério, o da Agricultura, para os proprietários da terra, e outro, o do Desenvolvimento Agrário, ao movimento dos trabalhadores; um ministério, o da Indústria e Comércio, aos empresários, outro, o do Trabalho, a ex-sindicalistas[30]; no qual a Constituição de 1988 indica a saúde como direito universal, mas o Ministério da Saúde oferta, mediante a rede pública, serviços de baixa qualidade e que não concorrem com o mercado privado de saúde[31], embargando a universalidade que se pretendia e empreendendo um modelo parcial e desigual que oferta dois sistemas, um, o privado, para os ricos, e outro, o público, para os pobres – acreditar que se faz os setores à direita deixarem-se cooptar por uma hegemonia à esquerda, apenas porque o governo acena com o diálogo e a participação [pluriclassista] de todos os setores, não é avançar o reformismo, a social-democracia e o Estado de bem-estar social, mas expressão de que os grilhões do capital continuam fortes para retardá-los e que se expressam na não efetivação das reformas agrária, urbana e sanitária.


* Os próximos aforismos serão publicados dia 01-04-2014.

[1] Cf. PORTILHO, F. “Sociabilidade, confiança e consumo na feira de produtos orgânicos” In: BARBOSA, L.; PORTILHO, F.; VELOSO, L. [Org.]. Consumo: cosmologias e sociabilidades. Rio de Janeiro: Mauad X; EDUR, 2009, p. 61.

[2] GOHN, M. da G. Empoderamento e participação da comunidade em políticas sociais” In: Saúde e Sociedade v. 13, n. 2, p. 20-31, maio-agosto, 2004. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/sausoc/v13n2/03.pdf> . Acesso em: 10-12-2011.

[3] Ver como a atualidade corrobora com a tese de Florestan Fernandes, a despeito das quase quatro décadas que as separam, em: FERNANDES, F. Capitalismo dependente e classes sociais na América Latina. 2° ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.

[4] BELUZZO, L. G. “Os anos do povo” In: SADER, E. [Org.] Lula e Dilma: 10 anos de governos pós-neoliberais. São Paulo/Rio de Janeiro: Boitempo/ FLACSO, 2013, p. 109.

[5] POCHMANN, M. [et alli]. Classe média: desenvolvimento e crise. São Paulo: Cortez, 2006 [Atlas da nova estratificação social no Brasil, vol. 1], p. 62.

[6] OLIVEIRA, F. de. Crítica à razão dualista; O ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003, p. 146.

[7] OLIVEIRA, F. “O avesso do avesso” In: OLIVEIRA, F.; BRAGA; R.; RIZEK, C. [Orgs.] Hegemonia às avessas: economia, política e cultura na era da servidão financeira. São Paulo: Boitempo, 2010, p. 375.

[8] SOUZA, J. Os batalhadores brasileiros: nova classe média ou nova classe trabalhadora. 2° ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2012, p. 41 et seq.

[9] Leonardo Mello e Silva cita que algumas delas foram, a partir do governo FHC, as legalizações do Banco de Horas, dos contratos temporários de trabalho, da PLR [Participação nos Lucros e Resultados]. Nesta, a acumulação flexível expressou-se na legislação ao tornar a própria remuneração variável de acordo com os resultados, legalizando as armadilhas de fazer os trabalhadores trabalharem mais para alcançarem menor ou igual rendimento que alcançavam anteriormente e de não incorporar os prêmios [condicionados pela disciplina, pelo baixo absenteísmo e pela performance] aos salários; ademais, para tentarem alcançar as metas [às vezes, impossíveis], os trabalhadores fiscalizam a si mesmos e se dividem e, ainda, mordem a isca de colocarem a negociação salarial em segundo plano diante da possibilidade de, com a PLR, adquirir um acréscimo instantâneo nos vencimentos, argumento sempre usado pelas empresas na hora das negociações de reajustes salariais para puxá-los para baixo. SILVA, L. M. “Trabalho e regresso: entre desregulamentação e re-regulamentação” In: In: OLIVEIRA, F.; BRAGA; R.; RIZEK, C. [Orgs.] Hegemonia às avessas: economia, política e cultura na era da servidão financeira. São Paulo: Boitempo, 2010, p. 70 et seq.

[10] COUTINHO, C. N. “A hegemonia da pequena política” In: OLIVEIRA, F.; BRAGA; R.; RIZEK, C. [Orgs.] Hegemonia às avessas: economia, política e cultura na era da servidão financeira. São Paulo: Boitempo, 2010, p. 34.

[11] SOUZA, J. Os batalhadores brasileiros: nova classe média ou nova classe trabalhadora. 2° ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2012, p. 241 et seq.

[12] Na análise da reeleição de Lula, Francisco de Oliveira ironizou a análise da imprensa, na época, que mostrava que os pobres haviam votado no PT e os ricos no PSDB: “[…] O Brasil havia se dividido entre ricos e pobres. Esqueceram-se de explicar os 40% de votos em Geraldo Alckimin no primeiro turno: aí já seríamos um país de Primeiro Mundo!” OLIVEIRA, F. “Hegemonia às avessas” In: OLIVEIRA, F.; BRAGA; R.; RIZEK, C. [Orgs.] Hegemonia às avessas: economia, política e cultura na era da servidão financeira. São Paulo: Boitempo, 2010, p. 24.

[13] SINGER, A. Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 176.

[14] Idem, p. 14.

[15] Idem, p. 55.

[16] Idem, p. 171.

[17] Idem, p. 13.

[18] Idem, p. 21.

[19] Idem, p. 179.

[20] Mesmo José Serra [PSDB], principal candidato da oposição ao governo em 2010, propunha aumentar o atendimento do programa. Em 2013, para tentar erradicar a pobreza monetária absoluta [renda inferior a meio salário mínimo de acordo com o Ipea], a presidenta Dilma Rousseff aumentou o benefício para as famílias atendidas pelo programa. Há, ainda, a pretensão dos governos petistas em transformar o programa em uma ação perenizada como parte da Consolidação das Leis Sociais [CLS] e deixar, assim, de ser uma ação revogável a qualquer momento.  Tais fenômenos mostram que o programa já é partilhado como uma política propriamente governamental, independentemente da agremiação que faça a gestão.

[21] SINGER, A. Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 64 et seq.

[22] “É notável que, nesse contexto, os ‘grandes’ burgueses estejam tranquilos. Para os donos do capital, a situação é confortável. Os balanços das empresas registram lucratividade elevada. Ou seja, para os super-ricos o lulismo não é um incômodo. A experiência internacional indica, segundo Therborn, que a ‘renda e a riqueza tendem a estar concentradas na ponta do topo. Por exemplo, cerca de metade da renda do decil mais próspero dos norte-americanos foi capturada pelo 1% mais rico’. No Brasil, esse 1% mais rico recebe sozinho o equivalente ao apropriado pelos 50% mais pobres! Para eles, as mudanças ocorridas no período Lula não representam perdas materiais, ao contrário. A proliferação de lojas ‘exclusivas’, templos modernos da estratificação, evita a perda de status. Essa, talvez, a explicação de por que ao longo do governo Lula, e em particular durante o ‘mensalão’, a base oposicionista era mais radical que a cúpula. Além disso, para a burguesia, o reformismo fraco apresenta um caminho possível, embora não o de sua predileção, pra o desenvolvimento do capitalismo no país, sem que a sua posição seja ameaçada”. Idem, pp. 206-207 [grifo do autor].

[23] “[…] O partido defende, simultaneamente, reformas estruturais profundas e a estabilidade econômica; propriedade social dos meios de produção e respeito aos contratos que garantem os direitos do capital; um postulado genérico anticapitalista e o apoio às grandes empresas capitalistas; ‘a formação de uma cultura socialista de massas’ e acordos com partidos de direita’”. Idem, p. 124.

[24] Idem, p. 155.

[25] “Invertem-se, porém, os termos da revolução passiva clássica: é o
elemento de extração jacobina quem, no governo, aciona os freios a fim de deter o movimento das forças da revolução, decapita o seu antagonista, comprometendo-se a realizar, sob seu controle, o programa dele, e coopta muitos dos seus quadros, aos quais destina a direção dos rumos sistêmicos em matéria econômico-financeira. Mas será dele o controle da máquina governamental e o comando sobre as transformações moleculares constitutivas à fórmula do conservar-mudando, direcionadas, fundamentalmente, para a área das políticas públicas aplicadas ao social. Decididamente, o desenlace de 2002 não foi o de uma contrarrevolução”. VIANNA, L. W. O Estado Novo do PT. Disponível em: ≤http://www.acessa.com/gramsci/?page=visualizar&id=755≥. Acesso em 23-02-2013.

[26] LULA DA SILVA, L. I. “O necessário, o possível e o impossível” In: SADER, E. [Org.] Lula e Dilma: 10 anos de governos pós-neoliberais. São Paulo/Rio de Janeiro: Boitempo/ FLACSO, 2013, p. 16.

[27] “A coalizão produtivista, formada por empresários, que observam com preocupação a queda das atividades fabris desde o começo dos anos 1990, e pelos empregados industriais que defendem ‘aplicar política cambial voltada para a defesa da economia nacional’, viu na criação de um Imposto sobre Operações Financeiras [IOF] do capital estrangeiro, que gradativamente subiu para 6% entre 2009 e 2010, um sinal de esperança de que o governo caminharia na direção do controle de capitais. Mas, se a hipótese da arbitragem estiver correta, o controle de capitais não será adotado, pois o projeto lulista não é o de resolver as contradições em favor de uma das coalizões, e sim de mantê-las em relativo equilíbrio, cujo patamar é determinado pela necessidade de favorecer o subproletariado com crescimento e inflação baixa”. SINGER, A. Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 165.

[28]  OLIVEIRA, F. “Hegemonia às avessas” In: OLIVEIRA, F.; BRAGA; R.; RIZEK, C. [Orgs.] Hegemonia às avessas: economia, política e cultura na era da servidão financeira. São Paulo: Boitempo, 2010, p. 21 et seq.

[29] OLIVEIRA, F. “O avesso do avesso” In: OLIVEIRA, F.; BRAGA; R.; RIZEK, C. [Orgs.] Hegemonia às avessas: economia, política e cultura na era da servidão financeira. São Paulo: Boitempo, 2010, p. 376.

[30] HENRIQUE, A. “Um olhar dos trabalhadores: um balanço positivo, uma disputa cotidiana e muitos desafios pela frente” In: SADER, E. [Org.] Lula e Dilma: 10 anos de governos pós-neoliberais. São Paulo/Rio de Janeiro: Boitempo/ FLACSO, 2013, p. 305.

[31] COSTA, A. M. “Saúde é desenvolvimento” In: SADER, E. [Org.] Lula e Dilma: 10 anos de governos pós-neoliberais. São Paulo/Rio de Janeiro: Boitempo/ FLACSO, 2013, p. 245.