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A “CLASSE C” VAI AO PARAÍSO? A ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL DO BRASIL NO INÍCIO DO SÉCULO XXI [PARTE D*]

1 de janeiro de 2014

“[…] Que somos nós no sistema em que vivemos
senão mercadorias? Estamos à venda, nos oferecemos, fazemos publicidade de nós
mesmos… O importante é que nos aceitem, nos comprem, pois necessitamos
triunfar, ganhar prestígio e dinheiro. Sim, e também simpatia e benevolência. E
nesse jogo mercantil, meu caro, perdemos a identidade, nos transformamos em
coisa…” [Erico Verissimo. Fantoches].

XI

O membro da “classe C” acredita-se mais feliz porque, agora, seu consumo, ao invés de limitar-se à resignação completa, transcende os limites do estritamente necessário, do urgente, do sempre mais barato e/ou de maior durabilidade. Com efeito, forma-se um novo [novo?] ethos do consumo da “classe C”, a saber, o que considera como boa e bela compra a que persegue bens simbólicos que expressam o novo status de pertencimento ao novo estrato social, a que não é circunscrita pelo urgente e imediatamente necessário, a que não se orienta apenas pelo que foi planejado há tempos e que oferta segurança a longo prazo e  resiste à ação do tempo, e a que adquire o que, anteriormente, era classificado como luxuoso e extravagante pelo antigo ethos da carência, da austeridade e do recalque absolutos – trata-se do consumo de artigos suplementares aos da indústria cultural ou, ainda, pertencentes a ela. “Poder econômico é, antes de tudo, o poder de colocar a necessidade econômica à distância”[1], argumentou Bourdieu. Em números médios, os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares de 2002/2003, elaborada pelo IBGE, apontam as diferenças entre o contingente demográfico qualificado como “classe média” e os estratos mais pobres, comparando o que cada um dos grupos gasta do seu orçamento em vários itens da cesta de consumo: em alimentação, a “classe média” gasta metade [16,5%] do que despendem os estratos mais pobres [31%], mas a primeira gasta mais com alimentação fora do domicílio e com produtos industrializados; em transporte urbano, enquanto os estratos mais pobres gastam 1,5% mais do seu orçamento que a “classe média”, esta gasta mais em viagens, em combustível, em aquisição e em manutenção de veículo próprio; em vestuário, os estratos mais humildes também gastam 0,6% mais de seu orçamento que a “classe média”, mas esta gasta mais quando se trata de itens como joias e bijuterias; em assistência à saúde [plano/seguro de saúde, tratamento dentário e consultas médicas], a “classe média” gasta mais que os estratos mais pobres por ter maior poder orçamentário para escapar da baixa qualidade do serviço público de saúde; em educação, também é a classe média que gasta mais que os estratos mais pobres – enquanto a primeira gasta 3,9% do seu orçamento, a segunda gasta 0,9%, números que mostram a perpetuação de um dos fatores de desigualdade para a atual e para as próximas gerações; em recreação e cultura, a classe média gasta o dobro do que gasta os estratos mais pobres; em ativos [aquisição e reforma de imóveis e outros investimentos], a classe média também gasta mais [3,8%]; por fim, em outros itens da cesta de consumo como impostos, contribuições trabalhistas, serviços bancários e previdência privada, a “classe média” gasta 10% do seu orçamento enquanto os estratos mais pobres apenas 3,3%[2].  Contudo, a “classe C” consome produtos não verdadeiramente luxuosos, mas que os imitam, embora sejam distintivos em relação aos estratos mais pobres, também são em relação aos estratos mais ricos; ela afasta-se dos primeiros, mas também dos segundos justamente por que se reduz à condição de emuladora, alcançando distinção do primeiro grupo ao transcendê-lo e do primeiro por não alcançá-lo. Assim, trata-se de um consumo que é alienação em segundo grau, uma vez que a “classe C” ratifica produtos de segunda classe para si mesma, nada elabora de novo, subtrai-se da autonomia de pensar e agir conforme si mesma, atribui às mercadorias que servem de modelo o estatuto de dominantes e, assim, agrilhoa-se ao consumir cópias, bem ou mal feitas, caindo vítima de um “desapossamento de segundo grau”[3] expresso em espumantes que imitam bebidas luxuosas e corino que imita couro[4]. A gratificação que alcança ao consumir imitações dos bens dominantes – vestuário, alimentos e bebidas, cosméticos, mobílias, eletrodomésticos, automóveis e lazeres colonizados pela indústria cultural – é o hedonismo do possível e expressa a diferença do novo ethos do consumo em relação à carência que sentia em décadas anteriores, mas que não deixa de mutilar e alienar à medida que veicula a subserviência à cultura hegemônica e a dominação simbólica; é um pseudo-hedonismo à medida que açula novas necessidades e desejos de modo que estes sempre aumentam, tal como aumenta a ansiedade em satisfazê-las, diminuindo o prazer: a necessidade de renovar as quinquilharias e o próprio ambiente no lar é, para Baudrillard[5], necessidade própria a um tempo de difusão das bugigangas e que expressa as relações sociais mediadas por elas e que distanciam as pessoas uma das outras. Trata-se da interiorização da dominação objetiva, mas de forma mais confortável que em etapas anteriores: o que Bourdieu e a Teoria Crítica diagnosticaram aos seus âmbitos e épocas parece encontrar alguma recepção material, e não apenas acadêmica, no Brasil atual – o controle social ocorre não apenas por coerção, mas por sedução; não apenas pela obrigação, mas pelo hedonismo; não apenas pelo ideal ascético da poupança e do futuro, mas pelo gozo presente. O membro da “classe C” é dominado justamente enquanto desfruta dos bens que, agora, consegue consumir: além daqueles bens materiais tradicionais, também conhece o reino da indústria do turismo em ascensão, dos jogos eletrônicos, dos lazeres que estimulam os sentidos como os parques temáticos, os espetáculos e as práticas esportivas [de busca de alto desempenho ou lúdicas], a visita ao shoppingcenter como atividade lúdica, de diversão e sem uma finalidade que reduza o passeio e o consumo à utilidade, mas que alavanque-os à contemplação e à aquisição de uma amálgama de artigos que resumam o que há em toda a cidade, mas de modo climatizado e a qualquer momento, durante a semana ou aos finais da mesma, ao dia ou à noite, ofertando uma “ambiência”[6] que administra a vida. Quinquilharias como acessórios, souvenirs, objetos de plástico, aparelhos eletrônicos com funções nunca acionadas pelos usuários se proliferam industrialmente e podem ser combinados entre si e com todos os elementos que compõem os ambientes de modo a formar uma panóplia: o kitsche e o gadget[7] são mercadorias-forma-de-controle-social com as quais os dominados divertem-se com a subserviência a qual se submetem. Se, por um lado, o aumento do poder de compra embaralhou o comportamento de consumo das classes sociais à medida que as “classes” A, B e C amam as mesmas marcas e parecem consumir artigos que transcendem a mera necessidade e alcançam o bem-estar, o luxo, o lazer, a primazia do presente em relação ao passado e ao futuro [mesmo que uns sejam imitações de outros] e, de modo geral, problematizam o habitus [“princípio gerador de práticas objetivamente classificáveis e, ao mesmo tempo, sistema de classificação (principium divisionis) de tais práticas”[8]] de classe tal como pensado por Bourdieu, de outro, não dá para negligenciar que há gostos de classe hegemônicos e que estenderam seus tentáculos sobre os estratos emergentes, tal como não é possível desconsiderar que as classes mais abastadas encontram em artigos de maior valor – na transição do Império para a República, um piano de cauda[9], por exemplo; hoje, títulos de novas propriedades de capital – o meio de discernirem sua cesta de consumo, e a si mesmas, das classes inferiores. Do ponto de vista histórico de longa duração, há semelhança entre a atual “classe C” e os recém-endinheirados do Brasil imperial que, de acordo com a descrição de Gilberto Freyre, imitavam os senhores de engenho ao, com a mobilidade social e a posse de dinheiro, alcançarem títulos nobiliários como os de barões e viscondes[10] – a macaqueação dos estratos superiores pelos inferiores não apenas elevava, também rebaixava à medida que o padrão de status era mantido. O mesmo fenômeno ocorreu entre escravos libertos que, para alcançarem status de homens livres, procuraram adquirir distintivos de tal situação: houve quem usou sobrecasaca de doutores, chapéu alto, luvas, botinas de bico fino, farda da Guarda Nacional e do Exército e tudo o que emulava os senhores do sobrado[11]. Da mesma forma, a “classe C” – embora não por títulos nobiliários, mas pelo consumo [e sem o poder dos recém-endinheirados do século XIX] de quinquilharias – enlameia-se à medida que busca o céu do consumo, mas encontra o inferno de um falso novo ethos: a carência é sempre reposta, o arcaico sempre retorna em um admirável mundo novo no qual o anúncio é público e substancial, mas a posse privada e formal, e o próprio gosto de classe atesta, como interiorização da dominação, a posição rebaixada da “classe C” à medida que busca distinção. Torna-se necessário um trabalho acerca do gosto[12] [não gerado espontaneamente, mas enraizado em contingências históricas e agente de autodominação] da “classe C”, semelhante ao que Pierre Bourdieu fez acerca das diferenças de gostos [estéticos, alimentares, decorativos, de vestimenta e de disposições corporais, de escolha de práticas esportivas…] nas classes sociais francesas e no modo como elas foram socializadas na segunda metade do século XX [não apenas o capital econômico conta, o cultural e o social também precisam ser levados em conta nas estratégias de distinção], para completar os dados empíricos acima expostos por Márcio Pochmann.

XII

Interiorização da dominação remete ao modo que a socialização dos mecanismos de controle são absorvidos pelos membros da sociedade: Marx, com o conceito de ideologia, mostrou como os grupos dominados reproduziam as condições de suas próprias dominação; Weber mostrou a afinidade eletiva entre a economia e a ética protestante para a emergência e a manutenção de uma ordem social específica; a Teoria Crítica adicionou as contribuições da Psicanálise à análise da questão e lançou mão de conceitos como retorno do reprimido para explicar comportamentos autoritários mesmo naqueles que declaravam lutar pela liberdade. O consumo que o membro da “classe C” começa a conhecer também pode ser descrito como forma de dominação colocada em prática pelos próprios dominados: no capitalismo monopolizado em vigência, controla-se a produção e a distribuição das mercadorias, administram-se os preços e o que se pode ou deve adquirir em cada faixa salarial – tal como os trabalhadores foram despossuídos dos meios de produção nos primeiros séculos do capitalismo, os consumidores atuais são despossuídos da livre escolha sobre quais mercadorias escolherem à medida que as sondagens, os estudos de mercado, a publicidade e o marketing não deixam espaço para idiossincrasias – de 2006 a 2012, a aumento em consórcio de automóveis por parte da “classe C” cresceu 108,3%, o que expressa a força da ideologia de que todos devem possuir um carro[13]. Os comportamentos dos consumidores, suas necessidades e suas satisfações precisam ser administrados e manipulados para que a lógica de reprodução de capital seja cada vez mais intensificada: vídeos que veiculam anúncios em transporte público, aparelhos de televisão em restaurantes, comerciais em camisas de clubes esportivos são fenômenos expressivos de uma época do anúncio totalitário. Com efeito, superimposição de necessidades, como fenômeno histórico próprio às sociedades opulentas, é uma forma suplementar de imposição de necessidades e de dominação/disciplinarização, conforme argumentou Marcuse[14] [como a sociedade brasileira está distante da opulência norte-americana, é verdade, também, que a dominação/disciplinarização não atinge o mesmo grau]. E é um fenômeno que, para ser bem interpretado, considera as próprias necessidades humanas como históricas, conforme, além de Marcuse, Baudrillard adverte: supor necessidades naturais que se estabilizariam com a redução da oferta exagerada de mercadorias seria supor a existência de necessidades autênticas e a-históricas, o que não explicaria porque os consumidores “mordem o anzol”[15]. Mais que diabólicas estratégias de marketing para manipular o comportamento das pessoas [mesmo que elas continuem importantes e atuantes, ver XIII], há um sistema que, ao invés de manipular necessidades uma a uma e direcioná-las a objetos, um a um, organiza e administra as necessidades como uma força produtiva tão importante como foram os recursos tecnológicos empregados na produção, tal como descritos por Marx, e a ética protestante tal como descrita por Weber. Cada mercadoria consumida é, além do valor de uso nela contida, um denotativo de status e distinção, um signo que expressa e contribui para a acumulação desenfreada de capital. Seja diferente, tenha X. Você que é, deixe de ser para ser assim; interiorize esta mercadoria e não seja. Destarte, o “membro da classe C” perde individualidade à medida que se identifica a todos e, por ter a necessidade de consumir algo que pretensamente lhe dê autonomia, reconhecimento, apenas coloca-se como uma peça da engrenagem que gira dominando-o[16]. O capitalismo monopolista oferta modelos a serem seguidos por quem quer diferenciar-se, mas, em verdade, inclina a renunciar à diferença, uma vez que orquestra sistematicamente os estilos que prometem distinção e, assim, subtrai as idiossincrasias de cada um à medida que há subserviência ao modelo universalizado industrial e comercialmente.

XIII

O membro da “classe C” acredita-se mais feliz porque, em apoio ao aparente novo ethos de consumo, usa as benesses da indústria do crédito fácil [de entrar, mas não de sair] para não postergar a realização dos desejos; a austeridade e o recalque, importantes para a administração do orçamento e para a própria formação do capitalismo, como Max Weber argumentou eu A ética protestante e o espírito do capitalismo, ou, para uma teoria da civilização de pretensão mais longa, como Freud considerou a repressão como requisito para a emergência e manutenção da civilização, em O mal-estar na civilização, foram substituídos pela gratificação imediata mediante a magia do cartão de crédito que livra o consumidor da necessidade de possuir o dinheiro para alcançar a satisfação; agora, esta é antecipada em relação ao primeiro. Se o consumo é o critério para declarar que uma vida é bem ou malsucedida, nenhum outro “padrão”[17] ou tribunal é usado pela “classe C” para que ela considere-se feliz: de um lado, tudo é mais fácil que a austeridade de outros padrões ou tribunais, basta consumir; de outro, a quantidade de artigos a comprar nunca termina à medida que o consumo não pode parar, e assim, a insatisfação é eternizada. Adquirir coisas e reuni-las continua a ser uma característica das pessoas sob o capitalismo; contudo, sob o capitalismo monopolista da era da acumulação flexível, o descarte e a substituição são gratificações próprias e necessárias à nova dinâmica: uma rodada de compras deve seguir a precedente com um intervalo de tempo cada vez mais curto e, assim, demanda-se substituição das novidades-envelhecidas que envergonham os desatualizados – o próprio corpo é colonizado pela indústria do descarte urgente à medida que vários artigos são ofertados para a remoção de “gordura corporal, rugas faciais, acne, odores corporais, depressão pós-isso ou pós-aquilo”[18]. A obsolescência da estratégia hobbesiana da repressão padronizadora, supervisora e policialesca ocorreu pela estratégia da administração que excita, seduz e açula novas necessidades – o dever e a dominação estão disfarçados como direitos e privilégios. Contudo, para vencer o desagradável e anacrônico adiamento da satisfação, o crédito fácil impôs o “curto adiamento da punição”[19]: para acumular capital em transações financeiras, a indústria do crédito opera exigindo uma parte pequena do pagamento da dívida, desejando que a ausência de débito não seja o estado ideal; apenas um “pagamento mínimo” é exigido e ele não elimina o crédito para empreender novas compras, por isso, as instituições financeiras alcançam uma fonte permanente de lucros à medida que o tipo-ideal de devedor, ao nunca pagar integralmente suas dívidas, continua consumindo e nunca cessa suas dívidas. Trata-se de transformar as pessoas em uma “raça de devedores eternos”[20] a ponto de, para eliminar dívidas antigas, não se proibir a aquisição de novas – as pessoas dependem desta “droga”[21]. Na história do Brasil, não se trata de um fenômeno novo; ao contrário, é uma atualização da estratégia de alguns credores arbitrarem famílias devedoras da população rural e empreenderem sobre elas uma “semiescravidão”[22], durante a transição do período monárquico ao republicano. Atualmente, há números apresentados por Zygmunt Bauman que mostram fenômeno semelhante para a Europa, notadamente a Grã-Bretanha: em relação ao primeiro semestre de 2011, o primeiro semestre de 2012 apresentou aumento de 19,1% na inadimplência, sendo o cheque especial, o rotativo do cartão de crédito e a dívida com imóveis e automóveis os principais motivos do “descontrole no gerenciamento da situação”[23] – expressão que imputa às pessoas, e nunca a lógica sistemática de crédito-endividamento-crédito, a responsabilidade de emaranhar-se na teia que as aprisionam. E quando, por advento de crises, como a de 2009 nos EUA, os consumidores não conseguem honrar seus compromissos, o Estado socorre as instituições financeiras recapitalizando-as com a assistência generosa de dinheiro e com o aumento de impostos a toda a população – o negócio de crédito-endividamento-crise é administrado para transformar-se em crédito-endividamento; quando outra crise ocorrer, o “Estado assistencial para os ricos”[24] socorre novamente a indústria de crédito e evita o colapso de uma fonte tão importante de lucro, no capitalismo atual, como foi a da indústria de bens secundários no século passado. Não interessa resolver o problema, mas conferir legitimidade ao Estado como salva-vidas do capitalismo em vigência, tanto no que concerne à educação dos trabalhadores para a contratação pelo capital, arcando com sua educação e disponibilidade para o trabalho, como à garantia de crédito sempre que este corra o risco de ser suspenso. O importante é que o crédito não cesse: a crise de abstinência pela carência da droga não é desejada pelos dependentes e nem pela enorme generosidade dos bancos-traficantes. Por que explorar apenas os membros da “classe C” enquanto trabalhadores se é possível explorá-los, concomitantemente, enquanto consumidores?


* Novos aforismos serão publicados em 1-2-2014.

[1] BOURDIEU, P. A distinção: crítica social do julgamento. Trad. de Daniela Kern e de Guilherme J. F. Teixeira, São Paulo: Edusp; Porto Alegre: Zouk, 2007, p. 55.

[2] POCHMANN, M. [et alli]. Classe média: desenvolvimento e crise. São Paulo: Cortez, 2006 [Atlas da nova estratificação social no Brasil, vol. I], pp. 90-95.

[3] BOURDIEU, P. “Gostos de classe e estilos de vida” In: Pierre Bourdieu: Sociologia. Tradução de Paula Montero, São Paulo: Ática, 1983, p. 100.

[4] BOURDIEU, P. A distinção: crítica social do julgamento. Trad. de Daniela Kern e de Guilherme J. F. Teixeira, São Paulo: Edusp; Porto Alegre: Zouk, 2007, p. 361.

[5] BAUDRILLARD, J. A sociedade de consumo. Trad. de Artur Morão, Lisboa: Edições 70, 2010, p. 13.

[6] Idem, p. 17.

[7] “A máquina foi o emblema da sociedade industrial. O gadget constitui o emblema da sociedade pós-industrial. Não existe definição rigorosa do gadget. Se se aceitar a definição do objeto de consumo pelo desaparecimento relativo da sua função objetiva [utensílio] em proveito da função de signos, se se admitir que o objeto de consumo se caracteriza por uma espécie de inutilidade funcional [o que se consome é inteiramente diferente do útil], então a engenhoca revela-se como a verdade do objeto na sociedade de consumo. Consequentemente, tudo se pode transformar em gadget, e em potência, todas as coisas o são. A inutilidade potencial e o valor combinatório lúdico definiram o gadget”. Idem, p. 142.

[8] BOURDIEU, P. A distinção: crítica social do julgamento. Trad. de Daniela Kern e de Guilherme J. F. Teixeira, São Paulo: Edusp; Porto Alegre: Zouk, 2007, p. 162, grifo do autor.

[9] “Nem nos devemos esquecer, a este respeito, da voga que teve, no Segundo Reinado, o piano, não tanto de sala de concerto, mas de sala de visita e às vezes de sala de música, de casa particular: o vasto piano de cauda que se tornou símbolo de distinção, de gosto e de prestígio social, quer em palacetes aristocráticos de subúrbio, quer em sobrados novos ou burgueses, distinguindo, também, nas casas-grandes de engenhos e fazendas, as casas das famílias aparentemente mais cultas das mais sincera ou rusticamente rurais. Alegradas apenas pela presença de algum violão ou cavaquinho, essas casas-grandes mais rústicas chegaram a ser conhecidas com algum desdém por ‘casas sem piano’; e nelas, como nas urbanas, constatava-se se não a ascensão social ou econômica, o progresso cultural da família sua proprietária, através da aquisição do piano: ‘já tem piano de cauda’. De tal modo o piano se tornou parte do sistema social, ou sociocultural, brasileiro durante o Segundo Reinado e os primeiros anos da República, que alguns observadores estrangeiros a ele se referem como a uma praga; e é evidente que nem sempre terá sido instrumento bem tocado ou manejado pelas iaiás suas senhoras, das quais nem sempre terá sido dócil e obediente escravo”. FREYRE, G. Ordem e progresso: processo de desintegração das sociedades patriarcal e semipatriarcal no Brasil sob o regime de trabalho livre: aspectos de um quase meio século de transição do trabalho escravo para o trabalho livre; e da monarquia para a república. 6° ed. São Paulo: Global, 2004, pp. 313-314.

[10] “A tendência no Brasil, depois que as artes e os ofícios e, principalmente, as indústrias e o comércio foram se impondo como atividades necessárias ao país e compensadoras do esforço de quantos soubessem cultivá-las ou organizá-las e dirigi-las foi para que seus cultores ou diretores tomassem maneiras, gestos e usos dos patriarcas rurais, adaptando-os a novas condições de convivência. Neste ponto anteciparam-se a brasileiros de outras regiões os de Minas Gerais: aqueles mineiros de quem o Conde de Assumar – ou alguém que se supõe ter sido ele – escrevia nos começos do século XVIII que, sendo homens de origem obscura, quando enriqueciam, enfeitavam-se com títulos de ‘Coronéis, Mestres de Campo e Brigadeiros’, imitando assim a nobreza territorial e, ao mesmo tempo, militar, das regiões mais antigas do país. […] Caixeiros de tamancos tornaram-se no Brasil do século XIX senhores comandadores, excelências, titulares. Caixeiros – repita-se – chegaram a barões, viscondes, a grandes de Império. Comerciantes, industriais e até artistas de extrema habilidade morreram no século XIX tão ostensivamente nobres quanto os senhores de terras e mais do que muitos destes, donos de palacetes suntuosos, de carruagens elegantes, de porcelanas marcadas com coroas de barão ou de visconde, de fardas douradas, de condecorações brilhantes como as do militares. A mesma mobilidade que favoreceu entre nós a ascensão de mestiços, de mulatos, de homens de cor, à condição sociológica de brancos, favoreceu a ascensão à condição política de nobres, de comerciantes, industriais, artistas de origem obscura e de começos difíceis”. FREYRE, G. Sobrados e mucambos: introdução à história da sociedade patriarcal no Brasil – 2: decadência do patriarcado rural e desenvolvimento urbano. 10º ed. Rio de Janeiro: Record, 1998, pp. 278-279.

[11] Idem, pp. 293-294.

[12] Para a segunda metade do século XX, na França, Bourdieu caracterizou o gosto de frações de classe que, marcadas pelo não distanciamento das necessidades, produziram um gosto, também , de necessidade: “’Do mesmo modo que o povo escolhido trazia inscrito na fronte que ele pertencia a Jeová, a divisão do trabalho imprime no operário de manufatura um sinete que o consagra como propriedade do capital’. Este sinete, mencionado por Marx não é outra coisa senão o próprio estilo de vida, através do qual os mais desprovidos se denunciam imediatamente, até mesmo no uso de seu tempo livre, dedicando-se, assim, a servir de contraste a todos os empreendimentos de distinção e a contribuir, de maneira totalmente negativa, para a dialética da pretensão e da distinção que se encontra na origem das incessantes mudanças de gosto. Não contentes de estarem, por um lado, destituídos de quase todos os conhecimentos ou maneiras que recebem valor no mercado dos exames escolares ou das conversações mundanas e, por outro lado, de possuírem apenas habilidades desprovidas de valor nos mercados, eles são aqueles que ‘não sabem viver’, que mais se conformam com os alimentos materiais – e com os mais pesados, grosseiros e que levam a engordar, tais como pão, batatas e ingredientes gordurosos –, além de serem os mais vulgares [por exemplo, o vinho]; aqueles que ligam menos para o vestuário e cuidados corporais, para a cosmética e estética; aqueles que ‘não sabem descansar’, ‘que têm sempre algo para fazer’, que montam a tenda em campings superlotados, que fazem o piquenique à beira das grandes rodovias, que se metem na fila dos engarrafamentos da partida para férias com seu Renault 5 ou Simca 1000, que se deixam levar pelos prazeres pré-fabricados, aliás, concebidos para eles pelos engenheiros da produção cultural em grande escala; aqueles que, por todas estas ‘escolhas’ tão mal inspiradas, confirmam o racismo de classe, se é que é necessário, com a convicção de que, afinal, só têm o que merecem” BOURDIEU, P. A distinção: crítica social do julgamento. Trad. de Daniela Kern e de Guilherme J. F. Teixeira, São Paulo: Edusp; Porto Alegre: Zouk, 2007, p. 170.

[13] Disponível em: http://invertia.terra.com.br/carros-motos/noticias/0,,OI5874215-EI19500,00-Consorcio+para+compra+de+carro+na+classe+C+cresce.html . Acesso em 12 de julho de 2012.

[14]  MARCUSE, H. One-dimensional man: studies in the ideology of advanced industrial society. 2° printing. London/New York: Routledge, 2002, p. 07.

[15] BAUDRILLARD, J. A sociedade de consumo. Trad. de Artur Morão, Lisboa: Edições 70, 2010, p. 85.

[16] “A custo se cai na conta de como a iniciação atual ao consumo sistemático e organizado constitui o equivalente e o prolongamento, no século XX, da grande iniciação, durante todo o século XIX, das populações rurais no trabalho industrial. O processo de racionalização das forças produtivas que ocorreu durante o século XIX, no setor da produção, alcança o termo no século XX, no setor do consumo. O sistema industrial, depois de socializar as massas de trabalho, deveria ir mais longe para se realizar e as socializar [ou seja, controlá-las] como forças de consumo. Os pequenos economizadores ou consumidores anárquicos do período anterior à guerra, com liberdade de consumir ou não, nada têm a fazer em semelhante sistema”[16]. Idem, pp. 96-97.

[17] BAUMAN, Z. O mal-estar da pós-modernidade. Trad. de Mauro Gama, Cláudia Martinelli Gama. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 56.

[18] BAUMAN, Z. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. Trad. de Carlos Alberto Medeiros, Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 53.

[19] BAUMAN, Z. Capitalismo parasitário: e outros temas contemporâneos. Trad. de Eliana Aguiar, Rio de Janeiro: Zahar, 2010, p. 13.

[20] Idem, p. 19.

[21] Idem, p. 24.

[22] FREYRE, G. Ordem e progresso: processo de desintegração das sociedades patriarcal e semipatriarcal no Brasil sob o regime de trabalho livre: aspectos de um quase meio século de transição do trabalho escravo para o trabalho livre; e da monarquia para a república. 6° ed. São Paulo: Global, 2004, p. 852.

[23] FOLHA DE SÃO PAULO, 11-07-2012. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/1118385-inadimplencia-do-consumidor-cresce-19-no-semestre-diz-serasa.shtml . Acesso em 11-07-2012.

[24] BAUMAN, Z. Capitalismo parasitário: e outros temas contemporâneos. Trad. de Eliana Aguiar, Rio de Janeiro: Zahar, 2010, p. 23.

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