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A “CLASSE C” VAI AO PARAÍSO? A ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL DO BRASIL NO INÍCIO DO SÉCULO XXI [PARTE C*]

2 de dezembro de 2013

“Como é que se pode gostar do verdadeiro no
falso?” [João Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas]

VIII

Sob tal enquadramento socioeconômico, o membro da “classe C” acredita-se mais feliz[1] porque, agora, consome. Contudo, sob o compasso de uma sociedade de classes, o membro da “classe C” compra apenas o que é possível, permitido e incentivado para a sua “classe”: quando alcança um degrau acima na escala de consumo, outros e mais distantes aparecem, “a linha de chegada se move junto com o corredor”[2] e o “hiato”[3] entre o desejo e o desejado aumenta. De Bauman, Pochmann e Lipovetskydecorrem argumentos que fazem pensar na distância adicional que, em três veredas, foi colocada entre a “classe C” e a conquista do consumo que alcançaria a felicidade. Por um dos caminhos, com o atual quadro de capitalismo financeiro, a posse da propriedade não se limita apenas a imóveis, máquinas e quinquilharias de toda ordem, mas contempla também ativos não tangíveis [patentes, marcas e imagens, propriedade intelectual] dos quais a “classe C” não participa[4]. Na segunda vereda, a despeito da “classe C” adquirir artigos em sua cesta de consumo anteriormente não contemplados, a concentração de renda, em âmbito mundial, apenas aumentou: corporações transnacionais são mais poderosas que os estados nacionais e operam acima deles[5], dividindo o mundo em superproprietários e proprietários de bens secundários, distanciando os últimos da felicidade restrita aos primeiros. Por fim, à medida que o consumo se torna mais abundante, as satisfações desejadas também crescem[6], seja para regozijo pessoal do consumidor ou para denotação da posse de algum artigo que torne o seu possuidor uma pessoa distinta de outros estratos[7]. E cada vez que se compra, ratifica-se a ordem que coloca o membro da “classe C” em posição inferiorizada: a pretensa vitória sobre a escassez, mesmo estando distante de ser equiparada à opulência da classe média norte-americana, administra e submete a “classe C” à tautologia de trabalhar para se apossar de novos artigos sem perceber que é despossuída de si mesma à medida que, consumindo-os, forma a teia na qual se emaranha e embaralha seus fins com os meios da sociedade de [re]produção de mercadorias e não se percebe, também, como meio de fins não traçados por ela. Como força produtiva, a “classe C” é uma forma de manutenção do status quo, ela se constitui de uma economia psíquica correlata que, incentivada ao consumo ininterrupto de mercadorias, prepara-se constantemente para a excitação e, consequentemente, se hipercatexiza e, por isso, sente desejo de excitações ainda maiores: trata-se de um entorpecimento que, além de repor desenfreadamente a ansiedade pela nova mercadoria, exige satisfações tão fortes que inclinam à sadomasoquística procura de situações-limites ofertadas em parques de diversões, jogos eletrônicos, transgressões no trânsito das grandes cidades, obesidade mórbida e toda a forma de comportamento compulsivo. Caso não consiga realizá-las, sente-se infeliz; caso consiga, entorpece-se com a idiotia espetacularizada pela indústria cultural. A declaração de felicidade, enunciada pela “classe C” brasileira ao início do século XXI, emitida por sua economia psíquica de infelicidade e de entorpecimento, alcançaria, no limite, o que Marcuse denominou “euforia na infelicidade”[8], conceito com o qual explicou a realidade norte-americana da segunda metade do século XX. Como o conceito, contudo, é válido para uma sociedade opulenta, mesmo a euforia deve ser problematizada para a sociedade brasileira de carência secular; nem a euforia alcançada pela “classe C” é tão forte quanto em países em que verdadeiramente existe uma sociedade de consumo.

IX

O membro da “classe C” acredita-se mais feliz porque, agora, mesmo não consumindo tudo o que é produzido, conforta-se com o que pode consumir. Contudo, mina a própria satisfação obtida à medida que o consumo de uma tábua restrita de artigos exige a correspondente restrição das faculdades mentais e sensoriais: o compasso entre o que é ofertado e o que se pode consumir deteriora tanto o consumo como o consumidor. Trata-se de uma semissatisfação limitada à “leitura do cardápio”[9]: quanto mais o membro da “classe C” consome os artigos da tábua adequada ao seu orçamento, mais se castra – a razão impede que nem tudo pode ser consumido porque avalia que as dívidas, posteriormente, subtrairão a tranquilidade e, assim, em nome da prudência e da segurança, o membro da “classe C” de perfil neoepicurista acredita alcançar fruições mais estáveis e seguras limitando o próprio consumo. Ademais, o habitus ascético formado por décadas de carência e não imediatamente desmantelado pelo novo cenário, ensinou um certo contingente de membros da “classe C”, a despeito da aparente mobilidade social ascendente, a não mudar a cesta de consumo e a não introduzir novos itens, reforçando a semissatisfação: é o que acontece com uma família pequeno-comerciante da feira de Ver-o-peso, Belém [PA], que mesmo com recursos para fazer pequenas viagens, diversificar a alimentação com introdução de refeições diferentes das servidas na feira e adquirir transporte privado, continua com hábitos simples e usando transporte público[10]. Trata-se de uma razão que opera mais para evitar o desprazer do que para alcançar o prazer, uma razão automutiladora que redunda em resignação e embarga a fruição: o quanto mais calcular, mais se resigna; o quão mais submete a sensibilidade, mais a inferioriza e a limita – o que a razão permite como fruição está “tingido de infelicidade”[11]. Trata-se de uma razão que não é remédio, mas veneno.

X

O membro da “classe C” acredita-se mais feliz e livre porque, mesmo não consumindo tudo, consome algo e, por isso, sua resignação nunca é total: ele julga-se livre da heteronomia que a antiga carência impunha, uma vez que vivia sob a dependência de políticas públicas de transferência de renda e/ou de uma rede de capital social débil economicamente, seja na figura de um pequeno patrão ou de favores familiares e de amigos. Contudo, o consumo alcançado sob o novo contexto não elimina a heteronomia e nem a carência: o membro da “classe C” é mobilizado como força produtiva para uma vida desprivatizada e administrada na qual a compra de artigos o integra à produção e reprodução ininterrupta de capital, isto é, na qual se torna sujeito da própria sujeição à medida que sua formação como sujeito é impedida e se torna uma “semiformação”[12] [Halbbildung] e que o consumo massivo de construtos estéticos não é engrandecedor para quem consome, mas barbarizante justamente porque o que se consome é o arcaico, cuja característica óbvia é a reposição da carência. A indústria cultural é um dos artigos da cesta de consumo que a “classe C” é incentivada a consumir e um dos que mais consome – e sua vantagem em relação a outros artigos é ser tanto meio de [re]produção de capital como forma de controle social. Em Viver a vida, telenovela da Rede Globo exibida entre 2009 e 2010, a emissora faturou com 112 anúncios de empresas como a Kia, Itaú e Nextel, R$ 70 milhões; tais anúncios ocorreram nas próprias cenas[13], não nos intervalos, misturando anúncios e telenovela – ela mesma uma mercadoria – e inclinando o público ao consumo [planejado pelas grandes corporações] de carro, serviços bancários e telefonia, sem os quais as pessoas tendem a não se considerarem pertencentes à classe média e felizes. A estratégia da emissora é investir cada vez mais na “classe C”, vista como um público de 110 milhões de consumidores a adquirir uma programação – “novelas classe C”[14] – que auxilie a enquadrá-lo no esquematismo pré-estabelecido de concorrência ilusória à medida que as pessoas fazem “escolhas” de consumir alguns dos bens anunciados. Tal auxílio, em verdade, é um adestramento empreendido pela indústria cultural que resulta em maior dependência em relação ao mercado, uma vez que este envolve ainda mais seus tentáculos no membro da “classe C”. Para a primeira geração da Teoria Crítica –Horkheimer e Adorno, em Dialética do Esclarecimento, Adorno em O fetichismo namúsica e a regressão na audição, para Walter Benjamin em A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica e para Marcuse, em One-dimensional man – não apenas os conteúdos, mas os próprios construtos estéticos são colonizados e tornados veículos de dominação social na forma-mercadoria que assumiram e que, por isso, estão destituídos da preocupação da qualidade e do conteúdo que não veiculam e, ainda, foram produzidos a partir de pesquisas de mercado que antecederam e prepararam as “escolhas” a serem feitas pelos consumidores, dirigindo a percepção deles e, assim, subtraindo-lhes a autonomia. Mesmo uma “democratização” da grande mídia [requerida por NéstorCanclini] não resolveria a questão porque a oferta de centenas de canais de televisão segmentados para os vários tipos de públicos repetiria a padronização [assassina da arte] sob a ilusão da variedade e, em verdade, tal variedade já existe no mercado, o que mostra a afinidade eletiva da programação midiática com a acumulação flexível de mercado em busca de nichos de mercado, mesmo se tratando do mercado nacional contra os conglomerados globais. Nos termos de Bourdieu, eis uma homologia entre produção de bens e recepção por diversos gostos que constituem “estilos de vida”[15] de classes e frações de classes que procuram distinção uma das outras pelos bens que consomem. O que é preciso questionar é se tal distinção é de fato alcançada à medida que todos são reduzidos a consumidores esquadrinhados pelos múltiplos segmentos da indústria cultural. Falta a Canclini caracterizar a linguagem televisiva, o que não deixou de ser feito por Adorno em Prólogo à televisão: a televisão, ao ser consumida doméstica e desatentamente por um público que a recebe com as pernas esticadas, na penumbra, com um tira-gosto ao colo, é uma estratégia planejada de anulação da vida privada e não de ampliação da cultura – a linguagem televisiva anticonceitual e anti-intelectual está integrada à necessidade de repouso psíquico e físico do público para o seu retorno ao mundo do trabalho, posteriormente, e, assim, ao invés de censurar o pensamento, a televisão sequer o exige, adaptando acriticamente o público à barbárie do dia-a-dia com imagens que são tão próximas à realidade que esta é confundida com aquelas, ensejando um retrocesso para a consciência. A “classe C” deseja ligar o aparelho de televisão e dele espera a recompensa para tolerar o intolerável, e por não ter formação cultural adequada, contenta-se com o fluxo de imagens – mesmo o som é acessório à imagem e, por isso, a linguagem verbal também se submete a ela – que, em efeito de choque, embarga a reflexão à medida que o solavanco das cenas que se substituem deseduca o público à medida que o socializa desverbalizando-o. O caso da novela supracitada mostra como o planejamento da socialização para o consumo torna a “classe C”, além de passiva, inclinada a agir em acordo com o que é propagado pelas imagens: estereótipos, heróis e toda a sorte de clichês são pensados após pesquisas de opinião para que as pessoas se vejam nas personagens das novelas, diminuindo ou apagando a fronteira entre realidade e ficção, naturalizando comportamentos, estimulando valores desejáveis e desestimulando indesejáveis de acordo com os financiadores da programação, empreendendo um verdadeiro “campo de concentração do espírito”[16].  Suplementando as mídias analisadas por estes pensadores, os membros da “classe C” também estão rodeados de outras mais recentes e mais compatíveis com o capitalismo de acumulação flexível e da falsa anulação da lacuna entre elaboração e produção suposta pelo toyotismo: na internet [e é sintomático que a internet tenha sido uma invenção do exército norte-americano e que, de acordo com ChristophTürcke, de defesa militar, tenha se transformado em ofensiva civil], hipertextos estão intrincados por links que induzem a associação de ideias por uma programação que segue o esquematismo explicado por Horkheimer e Adorno na década de 1940 e que implica falsa escolha à medida que se clica em caminhos que preveem as associações de ideias que se quer que o leitor faça, administrando seu pensamento, e que jamais indicam a saída do “labirinto”[17], ademais, saltar bruscamente de um link para outro acelera o pensamento de modo a dificultar a reflexão profunda em lugar de contribuir com ela, tal como Walter Benjamin indicava sobre as imagens cinematográficas ainda na década de 1930.O consumo destes construtos estéticos-mercadorias, para usar uma expressão de Baudrillard que designa a aquisição desenfreada de artigos, enseja a identidade do consumidor com o consumido e tal “como a criança-lobo se torna lobo à força de com eles viver, também nós, pouco a pouco, nos tornamos funcionais”[18] à medida que amontoamos artigos de consumo, os colecionamos e os substituímos em conformidade com os imperativos de consumo em vigência e, assim, esquecemo-nos de nossas próprias idiossincrasias, conforme o poema de Drummond expressa[19]. Com algumas décadas de atraso, a “classe C” brasileira começa a, muito limitadamente [a média de ganho mensal é de 1,5 salário-mínimo/pessoa (VI)], enquadrar-se em análises que os autores da Teoria Crítica, Lefebvre, Debord e Baudrillard fizeram para os EUA e para alguns países da Europa. Lá como cá, o quão maior o consumo, maior o disciplinamento e menor a liberdade: a gigantesca capacidade produtiva e distributiva de mercadorias “superimpõe”[20] necessidades não necessariamente verdadeiras. A heteronomia imposta pela dependência pessoal foi substituída pela que transplanta necessidades sociais às pessoas e que lhes subtraem a autonomia e reproduz infinitamente a luta pela posse de bens – trata-se da “sobrevivência ampliada[21] que açula necessidades suplementares àquelas da época da carência e que impede o fim da própria carência, preservando-a mediante uma privação “rica”[22]. Historicamente, trata-se de um fenômeno presente ao Brasil em diferentes momentos: com o fim da escravidão, os senhores abstiveram-se de arcar com os custos de reprodução da força de trabalho; a industrialização após os anos 1930 e a formação da legislação trabalhista significou o mesmo fenômeno à medida que as indústrias não tinham de se responsabilizar pelos custos da reprodução da força de trabalho [manter vilas de operários, por exemplo], bastando a elas o pagamento do salário mínimo[23] e empurrando para os trabalhadores os gastos com necessidades peculiares às cidades grandes e industrializadas: transporte, energia elétrica, educação, saúde[24] – aumenta-se a taxa de exploração do trabalho não diretamente pela via dos cortes salariais, mas indiretamente pela mercantilização do que é necessário para viver. Radicalizando o consumo de falsas necessidades – a reprodução ininterrupta de mercadorias fabrica ininterruptamente falsas necessidades para manter o status quo –, há uma tecnologização da vida que opera não apenas sobre a família, mas sobre cada um de seus membros: automóveis para todos, computadores e telefones portáteis para todos, televisões em muitos cômodos – a parafernália eletrônica pulverizada por todo o lar subtrai o antigo poder dos pais sobre seus filhos, atomiza ainda mais cada um dos membros da família sob a oferta crescente dos programas da indústria cultural pensados para cada faixa etária e estimula ainda mais o consumo à medida que há compras para cada uma das pessoas e não apenas para toda a família. Cada um com seu fone de ouvido não é expressão da autonomia que o consumo alcançaria, como pretende Lipovetsky[25], mas a cooptação de cada um pela heteronomia de tudo e todos pela mediação do mercado: além de o consumo ininterrupto subtrair a liberdade e redundar em uma programação infinita da carência “rica”, embrutece as relações humanas ao torná-las cada vez mais mediadas pelo maquinário que circunda as pessoas dentro e fora de seus lares – Adorno mostra como algumas portas devem ser batidas e outras fecham-se automaticamente, as primeiras [geladeiras, automóveis] embrutecem os movimentos e as segundas inclinam ao desprezo a coisas e pessoas[26]. Com os vínculos societários cimentados pela indústria cultural, a “classe C”, ao acompanhar os reality shows televisivos, em lugar de autonomia, tem sua agenda colonizada por tudo que não interessa a ela, mas a outrem, e repõe o arcaísmo e a carência, mordendo o próprio rabo.


* A próxima parte será publicada em 01-01-2014, neste blog.

[1] Com base em microdados da pesquisa do Gallup Word Poll, Marcelo Neri considera que “o Brasil é o recordista mundial de felicidade futura. Em uma escala de zero a dez, o brasileiro dá nota média de 8,60 a sua expectativa de satisfação com a vida em 2015, superando, junto com o Turcomenistão, todos os demais 154 países da amostra, cuja média era 6,75 e a mediania 6,7. (…) Em 2006, o Brasil era o número 22 no ranking mundial de felicidade presente, acima da posição no ranking de renda número 52, entre 132 países. Ou seja, tínhamos mais felicidade presente que nosso dinheiro no bolso sugeriria. De 2006 para 2009, a posição relativa do país aumentou de 22° lugar, entre 132 países, para 17° lugar, entre 146 países, e agora voltamos ao 22° lugar, mas entre 152 países. Estávamos em 2011, entre os 16,7% dos países mais felizes, em 2009, no auge da crise a 11,8%, e em 2010 voltamos à faixa de 14,5%”. NERI, M. A nova classe média: o lado brilhante da base da pirâmide. São Paulo: Saraiva, 2011, pp. 70-72. Grifo nosso.

[2]BAUMAN, Z. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. Trad. de Carlos Alberto Medeiros, Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 166.

[3] BAUMAN, Z. O mal-estar da pós-modernidade. Trad. de Mauro Gama, Cláudia Martinelli Gama. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 54.

[4] POCHMANN, M. (et. alli). Proprietários, concentração e continuidade. São Paulo: Cortez, 2009 [Atlas da nova estratificação social no Brasil, vol. 3], p. 16.

[5]“(…) No ano de 2006, por exemplo, as quinhentas maiores corporações transnacionais foram responsáveis pela geração de receitas anuais estimadas em 21 trilhões de dólares. Somente as três maiores corporações transnacionais [Wal-Mart Stores, Exxon Móbil e Royal Dutch Shell] produziram, no mesmo ano, um conjunto de receitas equivalentes ao PIB brasileiro. Ou seja, a propriedade das corporações transnacionais se tornou maior que grande parte das nações do mundo.

Em simultâneo ao processo de concentração e centralização do capital em cada vez menos corporações transnacionais, converge a constituição de uma superelite mundial de proprietários privados, consagrada por poucos clãs de familiares extremamente ricos. Trata-se de um conjunto amplificado de cerca de 250 mil clãs familiares que respondem por mais de 50% da riqueza contabilizada do mundo. Em contrapartida, no planeta, há cerca de 1,5 bilhão de famílias, a maior parte destituída de qualquer forma de propriedade”. Idem, pp. 33-34.

[6] LIPOVETSKY, G. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. Tradução de Maria Lucia Machado, São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 38.

[7] Seria exagerado aceitar que a nova fase de consumo, a pensada por Lipovetsky para o âmbito europeu como a de hiperconsumo, suplantaria a fase anterior, a do consumo ostentatório, simbólico, no âmbito brasileiro: nesta o consumidor adquire algo que expresse seu status e que simbolize sua posição, enquanto na primeira consome algo por regozijo graças à democratização do consumo. Contudo, além do consumo ostentatório ser regozijante para aquele que consome, o hiperconsumidor sente-se bem também por, mediante o bem adquirido, acreditar-se diferente dos demais. A miopia de Lipovetsky – e de uma série de antropólogos, como Canclini [ver X] – em relação a estas questões ocorre por negligenciar que o “indivíduo” possuiria faculdades mentais e sensoriais não-deterioradas pela “sociedade de consumo” e autônomas em relação a ela; assim, este indivíduo pensado como um cogito cartesiano ou uma mônadaleibneziana alcançaria uma “felicidade privada”, seria regulado por “critérios individuais”, consumo de “objetos ‘para viver’, mais que objetos para exibir”, mais “para si” do que “para o outro”, o que tornaria possível um “consumo criativo” pelo qual ocorreria a distinção em relação a outras pessoas e garantiria “função identitária” ao consumidor e uma relação “emocional” com os artigos que estimulam seus sentidos. Consumir-se-ia artigos de marca, segundo Lipovetsky, mais para satisfação do desejo narcísico e da consideração de se ser uma pessoa de qualidade e distinta em relação ao demais do que para pavonear-se. Idem, pp. 39-59.

[8] “Euphoria in unhappiness”. MARCUSE, H. One-dimensional man: studies in theideologyofadvanced industrial society. London/New York: Routledge, 2002, p. 07.

[9] HORKHEIMER, M.; ADORNO, T. Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos. Tradução de Guido Antonio de Almeida, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985, p. 131.

[10] SOUZA, J. Os batalhadores brasileiros: nova classe média ou nova classe trabalhadora. 2° ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2012, p. 154.

[11] MARCUSE, H. “Para a crítica do hedonismo” In: Cultura e Sociedade vol. I. Tradução de Wolfgang Leo Maar, Isabel Maria Loureiro, Robespierre de Oliveira, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997, p. 171.

[12]ADORNO, T. Theorie der Halbbildung. Frankfurt amMain: Suhrkamp, 2006, p. 08.

[13] JIMENEZ, K. “Sem intervalo” In: O Estado de S. Paulo, 14-04-2010.

[14] “Globo mira classe C e se preocupa com TV paga” In: Folha de S. Paulo, 07-03-2012.

[15] BOURDIEU, P. A distinção: crítica social do julgamento. Trad. de Daniela Kern e de Guilherme J. F. Teixeira, São Paulo: Edusp; Porto Alegre: Zouk, 2007, p. 216.

[16] FRANCO, R. “A televisão segundo Adorno: o planejamento industrial do ‘espírito objetivo’” In: DURÃO, F. A.; ZUIN, A.; VAZ, A. F [Orgs.]. A indústria cultural hoje. São Paulo: Boitempo, 2008, p. 122.

[17] TÜRCKE, C. “Hipertexto” In: DURÃO, F. A.; ZUIN, A.; VAZ, A. F [Orgs.]. A indústria cultural hoje. São Paulo: Boitempo, 2008, p. 34.

[18]BAUDRILLARD, J. A sociedade de consumo. Trad. de Artur Morão, Lisboa: Edições 70, 2010, p. 14.

[19] DRUMMOND. “Eu, etiqueta” In: O corpo. Rio de Janeiro: Record, 1984, pp. 85-87.

[20] MARCUSE, H. One-dimensional man: studies in the ideology of advanced industrial society. 2° printing.London/New York: Routledge, 2002, p. 07.

[21] DEBORD, G. A sociedade do espetáculo. Tradução de Estela dos Santos Abreu, Rio de Janeiro: Contraponto, 1997, aforismo 40, p. 30 [grifo do autor].

[22] Idem, aforismo 44, p. 32.

[23] OLIVEIRA, F. de. Crítica à razão dualista; O ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003, p. 66.

[24] Idem, p. 84.

[25] LIPOVETSKY, G. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. Tradução de Maria Lucia Machado, São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 105.

[26] ADORNO, T. Minimamoralia: reflexões sobre a vida danificada. 2° ed.Trad. de Luiz Eduardo Bicca, São Paulo: Ática, 1993, aforismo 19, p. 33.