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A “CLASSE C” VAI AO PARAÍSO? A ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL DO BRASIL NO INÍCIO DO SÉCULO XXI [PARTE A*]

4 de outubro de 2013

“É uma infelicidade da época,

que os loucos governem os cegos”.

[Shakespeare. Ricardo III]

I

            O que é e quem é a “classe C”? O que significa o crescimento de um contingente populacional que ocorre desde 1930, mas com aceleração maior nas últimas duas décadas [III, IV]? Ser de “classe C” no período em que o eixo econômico de acumulação de capital era a indústria significa o mesmo que ser no momento [atual] em que o eixo de acumulação de capital é predominantemente financeiro [V]? Ser de “classe C” na era da produção e da distribuição fordista significa o mesmo que sob a [atual] acumulação flexível e toyotista no trabalho produtivo e distributivo [VI]? A conjuntura que permitiu vencer as crises internacionais ou não ser solapado por elas foi suficiente para formar uma “classe C” e blindada contra as contradições estruturais do capital [VII]? Além destas questões de caráter socioeconômico, há outras, não menos importantes, de caráter filosófico, sociológico, antropológico e psicológico. Se o membro da “classe C” consome e acredita-se, por isso, mais feliz, por qual motivo ele nunca encontra a linha de chegada e sempre se endivida ou fica ansioso pela próxima compra, distanciando-se, assim, da felicidade que acredita alcançar [VIII]? Caso se resigne diante do que não consegue consumir, vive feliz à medida que se emascula [IX]? E aquilo que consegue consumir e que, por isso, confere-lhe o título de classe média, representa, verdadeiramente, seus anseios e sua felicidade ou seria a armadilha pelo qual é dominado pelos tentáculos do consumo, repondo a carência e a heteronomia da qual tenta escapar [X]? Caso enverede pelo pior caminho da bifurcação supracitada, o membro da “classe C” lê tal dominação como problema, uma vez que a interioriza e que age para a própria dominação, ou como conquista, à medida que venceu a resignação absoluta por um novo ethos de consumo que o subtraiu da condição de mero assistente e o colocou na condição de ator da “sociedade de consumo” [XI]? Novamente pelo pior caminho da bifurcação, o membro da “classe C”, ao agir em sentido da própria dominação, conseguiria ao menos ganhar distinção e status pela ampliação de sua cesta de consumo ou se identificaria ao restante da massa [XII]? Ao lançar mão da indústria do crédito e realizar “seus” desejos, em lugar de postergá-los, o membro da “classe C” emancipa-se da carência ou é agrilhoado e viciado pela nova forma de controle que o vicia no consumo programado [XIII]? Ao orientar-se pela publicidade e nunca desejando estar fora da moda, ele vive livre à medida que adere ao consumo de artigos e serviços programados por outrem? Quais são os efeitos colaterais de viver tutelado pela indústria da moda e da publicidade [XIV]? O membro da “classe C” consegue, ao menos, reconhecimento e status à medida que consome artigos que prometem distinção? Ou esta é diluída em um mundo em que todos voltam a se equivalerem ao participarem do consumo administrado pela indústria da moda [XV]? Consegue, mesmo que não seja reconhecido como sujeito ímpar, uma vida em abundância e confortável [XVI]? É, enfim, cidadão de uma sociedade que o excluiu politicamente por séculos, uma vez que seus antecedentes foram escravos, súditos e cidadãos não-eleitores e não representados [!], mas que, agora, como consumidor, ao portar o cartão de crédito acredita possuir mais poderes do que com o título de eleitor? Este parco privilégio é a razão de seu conservadorismo, uma vez que se agarra às conquistas mercadológicas recentes e pouco ou nada faz para que o país alcance mudança qualitativa [XVII, XVIII]? Como pode o membro da “classe C” fazer algo de bem para si e para sua sociedade se a ideia de bem foi reduzida à mercadoria e se problematiza? Se os espaços que ocupa e o tempo que usa pensando serem bons para ele também são mercadorias que o acorrentam? Se os costumes da vida afetiva e familiar, além das vicissitudes das agremiações religiosas, foram colonizadas pela forma mercadoria e pelo mundo do trabalho da era da flexível [XIX, XX, XXI]? Descendo mais ao fundo do poço, onde não se sabe se os baldes alcançam a água, há uma estrutura psíquica [XXII] e uma cultura [XXIII] nos membros da “classe C” que os possibilitem emissão de resposta não-manipulada e pela qual possam dizer “não” ao status quo, desejando modificá-lo, ou há repetição do que está constituído psicossociologicamente para continuar a veiculá-lo? Se não possuir tal estrutura psicológica e cultural autônomas, é confiável o juízo que os membros da “classe C” emitem quando declaram-se felizes [XXIV]?

II

            Para a reflexão deste difícil elenco de questões, expõe-se, entre os aforismos III a VII, o período histórico no qual ele emergiu, as bases materiais subjacentes e as vicissitudes em relação a outros momentos da história recente do Brasil – destas bases materiais nasceu a cantilena de equalizar a tríade composta pelo aumento da renda, do consumo e diminuição da pobreza monetária com outra tríade, a saber, definição de classe social a partir da renda, indicação de que existe mobilidade social ascendente e imediata diminuição da desigualdade. Em seguida, entre os aforismos VIII a XXIII, as questões são abordadas concomitantemente à exposição de algumas referências metodológicas: autores estrangeiros são os que mais empreenderam pesquisas acerca da “sociedade de consumo” em virtude desta ser um fenômeno ocorrido, em primeiro lugar, nos EUA e na Europa. Bastaria reproduzir os conceitos para o Brasil e, assim, bem entender o comportamento da massa de consumidores e as implicações sociais em todas as esferas? Não: o capitalismo monopolista e industrial do século XX continua a ser [e mais] concentrador, mas a acumulação, atualmente, é hegemonicamente financeira [em âmbito nacional, a década de 1980 é a que mostra tal mudança]; para o setor produtivo, a mudança do padrão fordista para o toyotista também alterou as características dos assalariados, setor importante como base material de uma “sociedade de consumo” [fenômeno que acentuou o desemprego durante a década de 1990]; o caráter dependente do capitalismo de um país periférico não permite equiparar o fenômeno aqui de modo idêntico aos dos países de capitalismo avançado e problematiza a própria expressão “sociedade de consumo”[1] como aplicável ao Brasil, além de ser problematizável mesmo para os países centrais do capitalismo. Portanto, à medida que conceitos foram citados, a necessidade de extrapolá-los foi maior que a de aplicá-los: aqueles conceitos oriundos da Teoria Crítica são os que exigem de bom grado a necessidade de extrapolação, uma vez que este procedimento é constitutivo ao seu recurso metodológico que prima pelo respeito à história – “extrapolação”[2] foi o modo como Herbert Marcuse posicionou-se diante da psicanálise freudiana ao perceber que ela não mais descrevia a estrutura psíquica dos membros da sociedade industrial avançada, uma vez que esta possuía características diferentes da Viena conhecida pelo psicanalista. Acerca das outras referências, por mais que elas aparentemente encontrem adesão à realidade brasileira, a mera aplicação mecânica ou um revestimento sutil, não ensejam bons resultados. Os aforismos abaixo empunharam uma faca do pescoço destes conceitos oriundos de diferentes pensadores – Veblen, Bourdieu, Debord, Baudrillard, Lipovetsky, Canclini, Bauman –, refutando-os ou verificando que eles têm boa validade em contextos específicos, mas jamais universais e, como corolário, indicam realidades diferentes que, se bem vistas por nós, ofertam visão mais ampla sobre a real condição de vida da “classe C”, particularmente, e do Brasil, de modo geral.

III

A estratificação social brasileira possuía, em 1990, 18% da população na classe média; em 2004, o número subira para 30%; e, em 2008, para 52% [contingente da população cuja renda familiar variava entre R$ 1.115 e R$ 4.807 em 2008][3]. Mesmo após a crise de 2008-2009, o ano de 2011 apresentara a continuidade de crescimento e alcançara 55,05% dos brasileiros contemplados na classe média: eram 100,5 milhões de pessoas vivendo com renda familiar entre R$ 1.200,00 e R$ 5.174,00 mensais[4]. Para 2014, projeta-se que 60,19% da população estará entre a classe média[5]. De 1990 a 2011, os números mudaram bastante e o estrato emergente no contexto em questão é o membro da “classe C”[6], para ele ascenderam muitos brasileiros que diminuíram a carência anterior e que, desde então, satisfizeram-se com a recém-descoberta esfera do consumo: entre 1993 e 2010, 59,8 milhões de pessoas foram agregadas à “classe C”, número equivalente à população da França[7]. As pesquisas recentes caracterizaram o estrato emergente de acordo com sua ocupação e com a delineação de sua cesta de consumo. Marcelo Neri considerou que “a volta da carteira assinada talvez seja o elemento mais representativo de ressurgimento de uma classe média brasileira”[8] e que o consumo de casa, carro e crédito alcançou “recordes históricos”[9] em 2008; ademais, políticas públicas de transferência de renda, como o programa Bolsa-Família, transferência previdenciária e aumento real do salário mínimo [22% de 2005 a 2006], contribuíram para o aumento de renda dos segmentos mais pobres da população. Amaury Souza e Bolívar Lamounier[10] mostraram que, após os gastos inadiáveis com necessidades básicas como alimentação, habitação, vestuário e transporte, o membro da “classe C” conta com um terço de sua renda e com os recursos da expansão do crédito nas últimas décadas para o consumo de bens e serviços. Para os últimos autores, os maiores ícones de adesão à classe média continuam a ser a casa própria e o automóvel, mas é mediante o consumo de eletrodomésticos [entre 2003 e 2009, a presença do item máquina de lavar roupas cresceu 32,61% nos lares[11]] que a “classe C” mais imita os estratos superiores – estes, para distinguirem-se, elencam outros bens denotativos de prestígio, tais como viagens para o exterior, acesso a conteúdos de novas mídias e presença em eventos artísticos. Por um lado, tais autores mostraram, citando os números acima, que não é possível negligenciar a importância do estrato social em questão como o foi em tempos nos quais ele era insignificante[12], “débil”[13] ou “flutuante”[14] entre os extremos composto por senhores e escravos; ao fim do século XX, denunciando tamanha distância entre os estratos mais ricos e mais pobres da população, Darcy Ribeiro, por exemplo, considerava que o Brasil assemelhava-se mais a uma “feitoria”[15] do que a um país e era representável não por uma pirâmide social, mas por um “losango” e um “funil invertido”[16]. De outro, Marcelo Neri, Amaury Souza e Bolívar Lamounier compõem a tríade de górgonas que petrificam o público com os números acima e com a autoridade [pseudo] científica dos mesmos: ao olhar para tais números, o público é paralisado pela teologia da bem-aventurança do mercado desregulamentado que, pretensamente triunfal, conduziria o país em linha reta à elite da divisão internacional do trabalho e faria do Brasil uma sociedade abastada e de classe média como a Suécia, a Alemanha ou os EUA. Números que petrificam o público porque negligenciam a história, tão importante para o entendimento da desigualdade e da concentração de renda no Brasil, porque limitam-se resignadamente à ideologia economicista que identifica renda e poder de consumo à classe social e, com efeito, subtrai da análise o modo como as pessoas ocupam as funções em que estão alocadas, os capitais imateriais de que desfrutam ou não e o modo como são transmitidos ou não em famílias de classes sociais diferentes, em suma, o conjunto de fatores não unilateralmente econômicos como pré-requisitos de ordem moral, cultural e social e  que contribuem na explicação da questão para além da miopia dos índices sociométricos – mesmo dentro da órbita destes, há como solapar a tese das neogórgonas, uma vez que pesquisas empíricas feitas por Marcio Pochmann e Jessé Souza[17] mostram, também em números, que o Brasil não é uma Suécia, uma Alemanha ou os EUA e que a “classe C” não é uma classe média marcada pela opulência e que não é, sequer, classe média, mas um grupo de pessoas que conseguiu, com uma força extraordinária[18], diminuir a carência de outrora no que concerne à renda[19]. Diminuição da pobreza monetária não significa, imediatamente, mobilidade social ascendente à classe média e nem diminuição da desigualdade: se, de um lado, a renda monetária dos mais pobres cresce; de outro, as dos mais ricos não se imobiliza, ao contrário, o movimento de concentração de renda, tão peculiar ao capitalismo, continua vigente, conforme Márcio Pochmann mostra em Proprietários: concentração e continuidade e conforme Nelson Barbosa não quer enxergar quando considera que bastam o aumento do salário mínimo, do emprego formal e do crédito para ocorrer “melhora na distribuição de renda”[20]. Tanto que, mesmo que vinguem todas as metas do governo Dilma Rousseff contra a pobreza, ao final de 2014 o país ainda não conseguiria ser menos desigual em relação ao que foi ao início da década de 1960, antes do Golpe Militar[21]. Ademais, como o real não é, necessariamente, verdadeiro e, ainda, o irreal é que pode sê-lo, além das pesquisas empíricas, também a Filosofia é uma arma – às vezes, a única, à medida que não é arregimentada pelo positivismo arraigado no Brasil – contra as neogórgonas e, por isso, ela é imprescindível para que o pensamento acerca do entendimento do Brasil não se petrifique.


* A próxima parte será publicada dia 1 de novembro de 2013, neste blog.

[1] Lefebvre advertiu, pensando no uso da expressão para a Europa da segunda metade do século XX, que “o termo ‘sociedade de consumo’ dissimula um aspecto desta sociedade, em particular as novas formas de pobreza que marcam esta sociedade: o aspecto banal do quotidiano, o frio e miserável rigor dos ‘conjuntos’ urbanos, as situações de crédito e de independência socioeconômica, a crescente escassez de espaço e de tempo, etc. Este termo encobre uma ideologia e uma apologia. Ao mesmo tempo, vai longe, bem mais longe do que seus promotores acreditam. O consumo real, o do real, é destruidor. Os consumidores devoram as riquezas e as obras de vinte séculos, incluindo a cidade. Este consumo real faz-se duplicar por um consumo imaginário e do imaginário, este também desdobrado: consumo de imagens [cinema, televisão, reproduções] e consumo de signos. Em particular os da própria publicidade, bem consumível de primeira categoria. A sociedade dita de consumo oferece a seus membros o consumo de espetáculos. Por essas palavras deve-se entender que a visão e a audição funcionam como órgãos que devoram imagens e sons, palavras e significações, e que este alimento audiovisual comporta ao mesmo tempo uma vasta informação e uma profunda frustração. Ainda aqui há a passagem de um para outro, cobertura de uma pela outra, oscilação, indecisão, torniquete. O mundo é oferecido como espetáculo – exteriorizado, transformado em objeto conforme o modelo da imagem e do signo, subtraído da participação ativa – para alimentar o consumo devorador”. LEFEBVRE, Henri. Posição: contra os tecnocratas. Trad. de T. C. Netto. São Paulo: Documentos, 1969, pp. 21-23.

[2] MARCUSE, Herbert. Eros e civilização: uma interpretação filosófica do pensamento de Freud. 7° ed. Trad. de Álvaro Cabral, Rio de Janeiro: Zahar, 1978, p. 51.

[3] SOUZA, Amaury; LAMONIER, Bolívar. A nova classe média brasileira: ambições, valores e projetos de sociedade. Rio de Janeiro: Elsevier; Brasília: CNI, 2010, p. 02.

[4] NERI, Marcelo. A nova classe média: o lado brilhante da base da pirâmide. São Paulo: Saraiva, 2011, p. 27.

[5] Idem, p. 49.

[6] A despeito da imprecisão que as pesquisas quantitativas e a imprensa fazem acerca do uso dos termos “classe” e “estrato”, confundindo e desrespeitando métodos sociológicos como a teoria da estratificação em Weber com a teoria das classes sociais em Marx, os presentes aforismos seguem a terminologia da estratificação em cinco patamares tal como ventilada pelos veículos de comunicação – “classes” A, B, C, D e E – apenas para se pensar a mobilidade social [no que se refere à renda] que permitiu a milhões de brasileiros o aumento no poder de compra. Marcelo Neri considera que “os sociólogos podem relaxar” [idem, p. 17] e considerar os dados apenas como estratos econômicos; contudo, em lugar de relaxamento, sociólogos e pesquisadores do fenômeno precisam abrir ainda mais os olhos. A subjacência para estabelecer a estratificação, de acordo com tais pesquisas, são a renda e o potencial de consumo: bens duráveis [aparelhos de TV e de som, DVD, máquina de lavar roupa, geladeira…], número de banheiros no lar, empregada doméstica, instrução do chefe de família, capacidade de manutenção do consumo não apenas a curto prazo são algumas das variáveis usadas por elas. A despeito do uso da terminologia desleixada usada pela imprensa, os presentes aforismos encontram subjacência em pesquisas que, além da renda, levam em conta também a ocupação da população para delinear a estratificação social brasileira, tal como as pesquisas de Marcio Pochmann [et alli] nos cinco volumes do Atlas na nova estratificação social no Brasil, publicados na segunda metade da década de 2000. Neles, define-se “classe média” como “o conjunto demográfico que, embora com relativamente pouca propriedade, destaca-se por posições altas e intermediárias tanto na estrutura sócio-ocupacional como na distribuição pessoal da renda. Por consequência, a classe média termina sendo compreendida como portadora de autoridade e status social reconhecidos, bem como avantajado padrão de consumo. […] Pode-se compreender o conjunto demográfico que compõe a classe média como subdividido em classe média alta [executivos, gerentes, administradores, entre outros], média classe média [ocupações técnico científicas, postos-chaves da burocracia pública e privada, entre outros], e classe média baixa [professores, lojistas, vendedores, entre outros]. Também se deve reconhecer que no segmento demográfico definido por classe média não se encontram somente os estratos ativos urbanos e rurais com ocupação, ou seja, os assalariados que trabalham por conta-própria e os proprietários, mas também os estratos inativos vinculados à distribuição pessoal da renda intermediária, como pensionistas e aposentados, rentistas financeiros, proprietários arrendatários de imóveis [terrenos, residências] ou de móveis [automóveis, caminhões] e não portadores de renda e patrimônio por herança [viúvos, filhos, netos].” [POCHMANN, Marcio (et alli). Classe média: desenvolvimento e crise. São Paulo: Cortez, 2006 (Atlas da nova estratificação social no Brasil, vol. I), p. 16]. Nota-se que para a definição de classe social, o procedimento economicista de equalizá-la à renda, tal como feito por Amaury de Souza, Bolívar Lamounier e Marcelo Neri, não é suficiente: ele deixa de lado o habitus [tal como pensado por Bourdieu] da classe e não explica o modo como pensamentos e ações se sedimentaram, como as socializações primária e secundária materializaram comportamentos que permitem a manutenção na mesma classe e a mobilidade social [ascendente e descendente] para outras. Não basta ter renda de “classe C”, faz-se mister uma relação com o dinheiro, com o crédito, com as jornadas de trabalho prolongadas, com a disposição de aprendizagem de novas técnicas de trabalho, por exemplo, que evitem a mobilidade social descendente. Eis um exemplo dado por Jessé Souza: “[…] Um professor universitário, em início de carreira, que ganha seis mil reais terá, com toda a probabilidade, uma condução de vida, hábitos de comportamento e de consumo, formas de lazer e de percepção do mundo em todas as dimensões muito diferentes de um trabalhador qualificado de uma fábrica de automóveis que também ganha seis mil reais. Associar essas duas pessoas como sendo de uma mesma classe não tem qualquer sentido e é absurdo. Para o processo de dominação social, cuja reprodução depende de uma percepção que fragmenta o mundo em indivíduos soltos e sem qualquer vínculo de pertencimento social coletivo, esse tipo de leitura superficial do mundo que associa classe à renda é muito bem-vindo” [SOUZA, J. Os batalhadores brasileiros: nova classe média ou nova classe trabalhadora. 2° ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2012, p. 363]. Ademais, conforme argumenta Florestan Fernandes em Capitalismo dependente e classes sociais na América Latina, classe social define-se, historicamente, com o desenvolvimento do capitalismo suficiente para associar ordem legal racionalizada, universalização da propriedade privada e estado nacional e que coloca diferentes grupos sociais em diferentes posições e condicionando-os à concentração ou não de riqueza, posse ou não de prestígio e poder, facilidade ou não de mobilidade e de mudanças sociais. Considerar “classe média” segundo o critério unilateral de um estrato particular de renda adquirida sem localizá-la no enquadramento histórico correspondente, portanto, em lugar de ser uma panaceia sociométrica, significa não dizer muito à medida que tal critério apenas naturaliza um fenômeno histórico.

[7] NERI, M. A nova classe média: o lado brilhante da base da pirâmide. São Paulo: Saraiva, 2011, p. 258.

[8] NERI, M. [Coord.]. A nova classe média. Rio de Janeiro: FGV/IBRE, CPS, 2008, p. 07. Disponível em: <http://www.fgv.br/cps/classe_media>. Acesso em: 14 nov. 2011.

[9] Idem, p. 07.

[10] SOUZA, A.; LAMOUNIER, B. A nova classe média brasileira: ambições, valores e projetos de sociedade. Rio de Janeiro: Elsevier; Brasília: CNI, 2010, p. 31 et seq.

[11] NERI, M. A nova classe média: o lado brilhante da base da pirâmide. São Paulo: Saraiva, 2011, p. 136.

[12] Entre os séculos XVI e XIX, Gilberto Freyre considerou o Brasil “uma sociedade quase sem outras formas ou expressões de status de homem ou família senão as extremas: senhor e escravo. O desenvolvimento de ‘classes médias’, ou intermediárias, de ‘pequeno-burguesia’, de ‘pequena’ e de ‘média agricultura’, de ‘pequena’ e de ‘média indústria’, é tão recente, entre nós, sob formas notáveis ou, sequer, consideráveis, que durante todo aquele período seu estudo pode ser quase desprezado; e quase ignorada sua presença na história social da família brasileira”. FREYRE, Gilberto. Sobrados e mucambos: introdução à história da sociedade patriarcal no Brasil – 2: decadência do patriarcado rural e desenvolvimento urbano. 10º ed. Rio de Janeiro: Record, 1998, p. LXVII.

[13] Idem, p. 308.

[14] Idem, p. 354.

[15] RIBEIRO, D. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 194.

[16] “As classes sociais brasileiras não podem ser representadas por um triângulo, com um nível superior, um núcleo e uma base. Elas configuram um losango, com um ápice finíssimo, de pouquíssimas pessoas, e um pescoço, que se vai alargando daqueles que se integram no sistema econômico como trabalhadores regulares e como consumidores. Tudo isso como um funil invertido, em que está a maior parte da população, marginalizada da economia e da sociedade, que não consegue empregos regulares nem ganhar salário mínimo”. Idem, p. 195.

[17] “Quando os grandes jornais conservadores do Brasil falam que o ‘jovem’ brasileiro entre 14 e 25 anos costuma morrer de arma de fogo, eles, na verdade, escondem e distorcem o principal: que 99% desses jovens são de uma única classe, a ‘ralé’ de excluídos brasileiros. Quando se fala que a ‘mulher brasileira’ está ocupando espaços importantes e valorizados no mercado de trabalho, o que se ‘esquece’ de dizer é que 99% dessas mulheres são das classes média e alta”. SOUZA, J. Os batalhadores brasileiros: nova classe média ou nova classe trabalhadora. 2° ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2012, p. 22.

[18] “[…] Essa classe conseguiu seu lugar ao sol à custa de extraordinário esforço: à sua capacidade de resistir ao cansaço de vários empregos e turnos de trabalho, à dupla jornada na escola e no trabalho, à extraordinária capacidade de poupança e de resistência ao consumo imediato e, tão ou mais importante que tudo que foi dito, a uma extraordinária crença em si mesmo e no próprio trabalho. Percebemos também que isso foi possível a um capital muito específico que gostaríamos de chamar de ‘capital familiar’: […] transmissão de exemplos e valores do trabalho duro e continuado, […] família estruturada […] com a incorporação dos papéis familiares tradicionais de pais e filhos bem desenvolvidos e atualizados. Idem, pp. 50-51.

[19] André Singer também problematiza as pesquisas, notadamente a de Marcelo Neri, ao elencar dois problemas: “[…] O primeiro é que a classe C, definida segundo os critérios de renda acima, abarca um universo amplo demais. Se observarmos as faixas de renda de cada fatia, a da C é de longe a mais abrangente, multiplicando-se mais de quatro vezes a renda máxima em relação à renda mínima dentro dela, o que não ocorre nas demais. Cabe indagar se uma distribuição mais equânime não deveria ampliar a classe B, de um lado, e a D, de outro, deixando a classe C como um corpo mais homogêneo e menor. O segundo óbice relaciona-se à denominação adotada. A classe C não é exatamente a classe média, embora seja camada intermediária, o que soa parecido, mas é distinto”. SINGER, A. Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, pp. 136-137.

[20] BARBOSA. N. “Dez anos de política econômica” In: SADER, E. [Org.] Lula e Dilma: 10 anos de governos pós-neoliberais. São Paulo/Rio de Janeiro: Boitempo/ FLACSO, 2013, p. 99.

[21] SINGER, A. Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 142.