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Educação após o 11 de Setembro: problemas de imanência e transcendência

23 de setembro de 2012

 Um mundo kafkiano

 

“Alguém certamente havia caluniado Josef K. pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum.”[1] Ou: “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.”[2] Estes são os inícios de dois livros de Franz Kafka. Podemos dizer, de modo muito lacônico, que eles, entre muitas outras coisas, 1) naturalizam o absurdo e 2) tendem ao inexplicável: em ambos, através de singulares desenvoltura literária e poder alegórico, Kafka dá ares de realismo ao fato de uma pessoa ser detida sem saber o motivo e ao fato de outra acordar metamorfoseada em barata, perenizando o mal-estar das personagens.

Para nós, ocidentais, que vivemos sob o legado da tradição judaico-cristã, que conduzimo-nos pela racionalidade, como Max Weber demonstrou[3], que estamos marcados pela Filosofia Grega e pelo Direito Romano, pela Reforma Protestante, pelo Renascimento e pelo Iluminismo, pela ação econômica-racional e calculista do capitalismo, tudo que parece escapar desta ordem racional é logo vinculado ao absurdo. E eis que é, por ele, que entramos no século XXI: uma afronta contra a racionalidade ocidental é o que nos parece o dia 11 de setembro de 2001. Parece-nos, também, que o absurdo assume sua forma mais elevada no fundamentalismo islâmico e, como as ações terroristas não pararam, o absurdo corre o perigo de ser naturalizado, parece que nossa ordem terá de conviver com ele. A realidade parece constituir-se, somente agora, de um enredo kafkiano.

É assim que passamos a viver com o indecifrável. Muitos de nós questionam-se sobre os motivos dos ataques terroristas e responsabilizam a hegemonia econômico-político-militar dos EUA pelo ódio dos grupos fundamentalistas. Mesmo assim, logo classificamos as ações destes como injustificáveis e ficamos resignados com o fato de não compreendermos totalmente o significado delas. Isto é, voltamos ao domínio do indecifrável; à medida que a nossa ordem foi interpelada por aviões em ataques kamikase contra símbolos econômico, político e militar do capitalismo e por bactérias que amedrontaram todo o Ocidente, carecemos de explicação racional sobre tal irracionalidade. Esta, parece ter adentrado o Ocidente de modo exterior a ele, como se não fosse uma de suas características – eis uma questão que, para muitos, está em aberto.

Vejamos quatro aspectos [mas existem mais] do mundo contemporâneo que podem deixar esta questão menos nebulosa. 1) Samuel P. Huntington[4] considera que, com o fim da Guerra Fria, houve um movimento pendular na dinâmica dos conflitos internacionais, cuja mudança variou de fatores econômicos, políticos e ideológicos para conflitos culturais entre civilizações, antes abafados pelas superpotências. 2) O final da Guerra Fria pode ser uma causa, outra é a Globalização: é um lugar-comum na Antropologia recente que as particularidades são reforçadas à medida que a dinâmica de produção e reprodução de capital absorve as culturas locais mediante o mercado, aumentando, dessa forma,  a identidade entre grupos que vivem sob o consumo de insígnias espetacularizadas no mercado ao mesmo tempo em que se exporta a peculiaridade  do modo de vida ocidental-mercadológico por todo o mundo. 3) Sobre este último aspecto, há uma “cultura de Davos”: os principais administradores do capitalismo mundial reúnem-se anualmente na Suíça para discutir uma “otimização” do capitalismo pelo mundo; na prática, isso significa uma política de ocidentalização de culturas não-ocidentais. 4) Outra pretensão universalista do Ocidente é a modernização das sociedades pelo critério da administração racionalizada do capitalismo, isto é, uma secularização; porém, as contradições ensejadas por este modo de produção não são resolvidas por ele e as pessoas podem buscar outros recursos na tentativa de resolução dos seus problemas: na civilização islâmica, por exemplo, este é um dos fatores que ajudam a explicar o Ressurgimento e o fundamentalismo islâmicos como alternativa às mazelas oriundas do modo de vida ocidental.

O que para o Ocidente é “modernização”, a civilização islâmica interpreta como “ocidentoxicação”: a irracionalidade da razão ocidental quer conduzir com pretensão universalista outras civilizações e, como o capitalismo é contraditório, o Ocidente mostra suas contradições a elas: quer eleições livres e democráticas, mas foi condescendente em impedir que os fundamentalistas assumissem o poder na Argélia em 1992; apregoa o livre mercado, mas não para a agricultura; esforça-se para impedir a proliferação de armas pelo mundo, mas é condescendente com Israel…

O que é, então, kafkiano? A razão-irracional ocidental com o fundamentalismo econômico ou a razão do fundamentalismo islâmico [que para nós é o apogeu da irracionalidade]? O que é, ao mesmo tempo, indecifrável e absurdamente naturalizado? Pensar no campo das antinomias – como quer o presidente George W. Bush -, não é o melhor caminho: o absurdo e o indecifrável parecem estar globalizados pela sociedade que unidimensionaliza/reduz o mundo ao fundamentalismo econômico. Aliás, é incrível como muitos intelectuais, de uma hora para outra, esqueceram-se da Dialética do Esclarecimento, de O Homem Unidimensional, do Vigiar e Punir: Horkheimer e Adorno, Marcuse e Foucault mostraram magistralmente, há décadas, que a razão ocidental é instrumental, dominadora, panóptica.

O kafkiano, assim, é global, isto é, nós também fazemos parte dele. Talvez o que prove, no momento, de modo mais sintomático a irracionalidade da nossa ordem seja o fato de nós mesmos, ocidentais, sermos os criadores do fundamentalismo: nas primeiras décadas do século XX, nos EUA, pastores protestantes escreveram os fundamentals – textos-guias pelos quais os cristãos deveriam conduzir suas vidas. Portanto, somos os criadores do fundamentalismo religioso, que agora se voltou contra nós, e do fundamentalismo econômico, cuja característica é uma tautologia de produção/reprodução de capital de um modo tão irracional quanto o fundamentalismo islâmico. Estamos absurdamente indecifráveis a nós mesmos.

 

Educação após o 11 de Setembro

 

Em abril de 1965, Theodor Adorno fez uma palestra na Rádio de Hessen que, em 1967, fora publicada com o título Educação após Auschwitz: um texto cujo objetivo era mostrar a todos qual era a principal tarefa da educação após o horror nazista. Apelando para o âmbito subjetivo dos homens, Adorno considerou que 1) a educação da primeira infância teria como primeira exigência expedientes que impedissem a repetência de Auschwitz – uma vez que é nela que “os caracteres em geral” são formados; 2) um esclarecimento geral aos homens sobre os motivos que levavam ao horror, propiciando a consciência de que evitá-la é fundamental. O primeiro diagnóstico está marcado pela psicanálise freudiana, o segundo pela filosofia kantiana.

Por que Adorno apelou apenas ao lado subjetivo? Ele considerou que, naquele momento, os homens estavam impotentes para mudar a estrutura e a característica da sociedade que produziu Auschwits, isto é, a correlação entre as forças políticas era desfavorável aos que assumiam o compromisso de findar com o capitalismo. Se na época mudar a sociedade que produzira Auschwits era pouco provável; agora, com o desmoronamento do pseudo-socialismo real, seguindo esta lógica, a possibilidade é ainda menor.

Insistamos no lado objetivo da questão: a atual conjuntura vive com a eclosão de conflitos étnicos e com a globalização como eufemismo de imperialismo econômico. Há oposições aos dois fatos, mas ambas sem força de mudança da estrutura e da característica da sociedade que produziu o 11 de setembro. Assim, seríamos levados, novamente, se quisermos colocar na agenda pública mundial a tentativa de que o 11 de setembro não se repita, a sobrevalorizar os aspectos subjetivos: teríamos de apontar alguns diagnósticos como Adorno fez para o seu tempo [desbarbarizar o campo, evitar a identificação cega dos indivíduos com o coletivo, conscientizarmo-nos de nossa frieza perante o outro…].

Porém, o aspecto subjetivo, educacional, não foi suficiente. Depois de Auschwitz, vieram outras barbáries – elas estão, como o próprio Adorno considerou, implícitas na nossa sociedade. Ou não houve a educação que Adorno gostaria, ou ela existiu e não foi suficiente. Que diagnóstico, então, oferecer aos homens? Objetivamente, o capitalismo representa uma cruzada ocidental pelo mundo, ampliando mercado, derrubando fronteiras, produzindo mazelas ocidentais em civilizações não-ocidentais, produzindo a barbárie. Esta está implícita no avanço ocidental pelo Oriente: o 11 de setembro é inerente ao avanço ocidental.

Subjetivamente, até poderíamos tentar evitar a servidão voluntária ao horror. Porém, parece que já vivemos nele: os norte-americanos fizeram guerra ao Afeganistão e agora é a vez do Iraque, muitos muçulmanos aderiram ao chamado da jihad, palestinos e judeus continuam a se matar, europeus e norte-americanos perdem cada vez mais escrúpulos em pronunciarem-se contra imigrantes. Tanto Auschwitz quanto o 11 de setembro parecem mais perto de se repetir do que estarem eliminados.

Talvez precisamos de um diagnóstico subjetivo-objetivo: educar para a paz, mas construí-la de fato; educar nossas crianças contra a barbárie, mas não permitir que ela continue implícita entre nós. Esforçarmo-nos psicológica e pedagogicamente para não perpetuarmos as personalidades autoritárias em nós e em nossos herdeiros como queria Adorno, mas esforçarmo-nos política e sociologicamente na mesma empresa, como quer a Filosofia da práxis.  O problema é: como transcender o problema a partir da imanência da nossa sociedade, como conseguir uma mudança qualitativa que garantiria um êxito contra a barbárie ela convive em cada um de nós?

Anderson Alves Esteves

2002


[1] KAFKA, Franz. O Processo. Tradução de Modesto Carone, São Paulo: Companhia das Letras, 1997,  p. 9.

[2] KAFKA, Franz. A Metamorfose. Tradução de Modesto Carone, São Paulo: Companhia das Letras, 1997,  p. 7.

[3] Ver A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo e Rejeições Religiosas do Mundo e suas Direções. Nestes trabalhos, Weber caracteriza o Ocidente a partir de uma racionalidade que lhe é peculiar, mostrando que há, também, uma separação entre as esferas de valor, algo que não acontecera no Oriente.

[4] HUNTINGTON, Samuel P. O Choque De Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial. Tradução de M. H. C.  Côrtes, Rio de Janeiro: Objetiva, 1997, p. 19.

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