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“Quanto mais coisas inventam, mais difícil se torna a vida”*

2 de março de 2011

A personagem Maria Valéria não alimentou otimismos com o avanço das forças produtivas ao notar que havia algo em tal progresso que, a despeito de comodidades, dificultava a vida. As ciências humanas não escapam ao problema e constituíram novidades, nos últimos séculos, que contribuíram para agrilhoar a humanidade mediante o grau de autonomia que ganharam em relação à Filosofia e o modo como não tocaram nas questões da reprodução material da sociedade. Com efeito, saberes apologéticos do status quo foram resultantes de construtos teóricos que não questionaram as contradições da ordem estabelecida em muitos autores da Psicologia, da Sociologia, da Antropologia, da Ciência Política, da História e da Geografia. Marx, em 1844, quando algumas destas ciências ainda eram incipientes, diagnosticara como outra delas, a Economia Política, “oculta”[1] a alienação à medida que trabalha com categorias como propriedade privada, divisão do trabalho, capital e trabalho assalariado sem pensá-las como formações históricas e sem conectá-las umas às outras. Lukács apontara, no século passado, com o conceito de “decadência ideológica”[2], a construção apologética de conceitos sociológicos que apenas obscurecem a verdade ao recusarem-se a tocar em questões econômicas que denunciariam as contradições do capitalismo – uma cantilena eclética lançava mão de argumentos conforme a necessidade e de modo formal. Marcuse mostrou como, em Sociologia e em Psicologia, saberes foram construídos para minar a resistência dos trabalhadores: pesquisas empíricas de Sociologia Industrial e de Psicologia aplicada à administração empreenderam métodos de controle social e tornaram-se parte da gerência e da administração de recursos humanos ao tornarem concretas reivindicações dos trabalhadores consideradas como abstratas, traduzindo-as em ações individuais que voltaram-se contra os próprios trabalhadores. Se os trabalhadores reivindicavam condições higiênicas de trabalho, pesquisas empíricas traduziram as exigências em campanhas de educação dos trabalhadores e em designação de zeladores para vigiá-los; se os trabalhadores reivindicavam aumento salarial, pesquisas empíricas notavam que um trabalhador X se queixava porque sua esposa estava hospitalizada e seus gastos aumentaram – de denúncia politicamente rebelde, as reivindicações de melhoria de condições de trabalho e de aumento salarial foram traduzidas em casos particulares para que a administração de recursos humanos, mediante procedimentos terapêuticos, encaminhasse paliativos individuais, preservando, autovalidando e submetendo-se aos fatos [3]. Lukács acusou a construção de saberes apologéticos na era em que o capitalismo defendia-se do bolchevismo e Marcuse mostrou como as ciências humanas eram, também, veículos de dominação – os dois pensadores leram os fenômenos focados com lentes que viam o capitalismo armando-se e defendendo-se de oposições que procuravam miná-lo, embora Marcuse tenha mostrado as ciências humanas operarem como instrumento de administração também em um contexto de integração da oposição ao status quo. Hoje, mais do que defender-se, o pensamento burguês, na ofensiva, sobretudo na era da integração que estrangulou a oposição pelas bases, dos monopólios e do toyotismo, construiu saberes autônomos em segundo grau: se, anteriormente, a Economia Política, a Sociologia e a Psicologia, por exemplo, encarregaram-se em defender a ordem; agora, disciplinas acadêmicas que se intitulam aplicações das Ciências Sociais, desejam construir saberes insulares que não apenas sejam mecanismos de defesa, mas instrumentais para aumentar, antes de qualquer coisa, a eficiência organizacional das corporações: é assim que o Comportamento Organizacional procede ao reunir conceitos que vão, por exemplo, em Psicologia, da Psicanálise ao behaviorismo, em Sociologia, do positivismo à Sociologia compreensiva, em ciências humanas, de modo geral, de diagnósticos que passam de considerações históricas e culturais a sociometrias e estatísticas – não é preciso mais disfarçar que a academia esteja colonizada pelo capital, não há mais vergonha em fazer de cada disciplina um vestíbulo para o mercado e nem de cada saber uma forma de controlar pessoas. O resultado é um Frankenstein cujo objetivo é, apenas, dar eficiência à organização para que ela alcance seu fim com o máximo de eficiência possível: o que importa para o Comportamento Organizacional é reduzir o absenteísmo e a rotatividade, aumentar a produtividade, a satisfação com o trabalho e construir uma cidadania organizacional que potencialize condutas desejadas pela organização[4] – a única proibição é tocar na alienação de trabalho. Como a Economia Política denunciada por Marx, o Comportamento Organizacional parte do fato da propriedade privada e não a localiza historicamente, não a questiona; como a Sociologia criticada por Lukács, o Comportamento Organizacional lança mão do ecletismo e do formalismo; como as Sociologia e Psicologia reduzidas à terapia, denunciadas por Marcuse, o Comportamento Organizacional produz, apenas, paliativos. Os saberes que acredita usar são, contudo, não-saberes: o que diminuiria o absenteísmo, verdadeira e definitivamente, seria o trabalho não-alienado, uma vez que não haveria sequer a necessidade de se trabalhar tantas horas por dia, que se trabalharia para si mesmo e para a comunidade, e não para engordar os lucros da organização, que não reduziria o trabalhador a meio de um fim exterior a ele. O que reduziria a rotatividade, verdadeira e definitivamente, seria vincular-se de modo não alienado à organização, seria o contexto em que a segunda não fosse oposta aos interesses do primeiro. O mesmo se aplica à produtividade; ademais, sob o princípio de desempenho reinante, produzir mais significa também se submeter mais à natureza e a outros homens, de modo que o quanto mais se produz, mais se precisa produzir e, assim, o turbilhão tautológico da produção sempre considera a produtividade alcançada como insuficiente, a despeito do esforço hercúleo de todos. O que ensejaria satisfação com o trabalho seria a produção de coisas que pertencessem àqueles que as produzem, uma vez que não se satisfazem com elas, tal como não satisfaz não pertencer a si mesmo enquanto se é obrigado a cumprir ordens determinadas por outrem. O que ensejaria cidadania organizacional, uma vez que comportamentos discricionários são verdadeiramente discricionários quando a própria organização também é, seria o fim da divisão hierárquica do trabalho que joga aqueles que ocupam postos de comando em contradição performativa por terem de se comportar impolida e imprudentemente conforme as exigências do mercado, mas solicitarem constante e ininterruptamente a polidez e a prudência aqueles em posições mais baixas. E como todos estão sob o domínio do capital, agem em desacordo com valores que acreditam serem bons, mas que diminuem a eficiência do ganho: pessoas que aprenderam, desde a infância, que é errado mentir, são impelidas à mentira para vencerem as disputas mercadológicas nas quais estão inseridas. Com efeito, os valores são corroídos à medida que as pessoas notam que há recompensas e que estas são materialmente mais importantes que aqueles. O código de valores da sociedade e do Comportamento Organizacional corrompe código dos valores tradicionais e os coloca em obsolescência – imperativo categórico algum resiste a ele.


* VERISSIMO, Erico. O tempo e o vento, parte II: O retrato, vol. 1. 3° ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 243.

[1] MARX, Karl. “O trabalho alienado” In: K. Marx; F. Engels: História. Tradução de Florestan Fernandes, Viktor Von Ehrenreich, Flávio René Kothe, Régis Barbosa e Mário Curvello, São Paulo: Ática, 1989, p. 152.

[2] LUKÁCS, Georg. “A decadência ideológica e as condições gerais da pesquisa científica” In: Georg Lukács: Sociologia. Tradução de José Paulo Netto e Carlos Nelson Coutinho, São Paulo: Ática, 1981, p. 112.

[3] MARCUSE, Herbert. One-dimensional man: studies in the ideology of advanced industrial society. 2° printing. London/New York: Routledge, p. 107 et seq.

[4] ROBBINS, Stephen P. Comportamento organizacional. 9° ed. Tradução de Reynaldo Cavalheiro Marcondes, São Paulo: Pearson, 2007, p. 23.