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“Romance é uma coisa, vida é outra muito diferente”*

6 de janeiro de 2011

Rodrigo Terra Cambará pensou que desqualificaria a arte ao discerni-la da realidade; na verdade, desqualificou a segunda. O Tempo e o vento, de Erico Veríssimo, mostra que literatura engajada não é a que pende a balança para o lado do conteúdo e normatiza a arte pela política – nos termos do marxismo ortodoxo, subserviência da dimensão superestrutural à infraestrutural (Floriano: “Marxices”[1]) –: a possibilidade de engajamento imaginada e circunscrita pela posição de família, de classe social e nacionalidade do autor, da personagem e do leitor transcende a circunscrição e avança sobre famílias rivais, classes sociais opostas e países concorrentes. Carbone:  “A arte não tem pátria, carino, a arte é universal e eterna”[2]. Sartre, insistindo em resolver a questão pelo viés do conteúdo, pensou a ficção romanesca como um desvendar do mundo[3] cujo programa contempla a possibilidade de ampliação das potencialidades humanas, uma vez que escritor e leitor (para Sartre, a leitura é criação dirigida) são inclinados a posicionarem-se acerca da conduta das personagens e, por isso, diante de suas próprias condutas, responsabilizando-se por si mesmos e pelo mundo[4]. Autor e leitor podem perceber, mediante a ficção na qual se engajam, que a realidade na qual vivem não potencializa a realização da totalidade ontológica, não os humaniza – há temas que, pensa Sartre, por facilitarem o engajamento imaginário do problema, tornam a literatura não apenas testemunha do mundo, mas potencialização de uma práxis para transformá-lo. Maria Valéria: “(…) No tempo da do Paraguai muita vez rezei pela dos meus. Mas antes de mim a velha Bibiana rezou pelos seus familiares que estavam na Guerra dos Farrapos e em outras. E antes dela, a velha Ana Terra pediu pela vida dos seus homens que brigaram com os castelhanos em muitas campanhas”[5] – o tema da guerra dá ensejo à ideia de como a paz seria boa. Como na tradição iluminista[6], Sartre pensou que tomar consciência diante de um passado narrado pela ficção poderia orientar as escolhas do presente, uma vez que escritor e leitor poderiam elaborar um projeto diante do dado e fazer o futuro transcendendo as determinações existentes – trata-se de escolher entre a transcendência em relação ao status quo que impede a totalidade ou a resignação, de entificar um e nadificar outro. Neste espírito, diante de condutas como a de personagens como Padre Lara[7], que vocifera contra a liberdade, a igualdade e o espírito republicano, que defende a escravidão e a hierarquia como naturais, como Padre Otero, que equaliza liberdade à libertinagem, autor e leitor podem projetar uma ordem diferente daquela e agirem de forma a tornar o mundo diferente do que é. “Liberdade? Para que é que o povo quer liberdade? Para ser ateu, herege, licencioso? Liberdade para tomar a mulher do próximo? Liberdade para caluniar, mentir, ofender? Liberdade para quebrar os mandamentos divinos? Libertinagem, isso era o que queriam esses senhores da Revolução Francesa”[8]. Sartre, porém, para medicar a doença da falta de compromisso de alguns autores com a realidade, recaiu em nova doença: a colonização da arte pela política. Para ser engajada, a literatura não precisa ser agrilhoada por posições sociológica e política, pelo conteúdo e pela origem social do artista: ela milita em favor da transformação à medida que a razão e a sensibilidade emergentes diferenciam-se da realidade reificadora. Os marcos de família, de classe ou de nacionalidade não impedem que a subjetividade do leitor experimente uma felicidade ausente na realidade; com efeito, mesmo sem normatização de uma política pretensamente revolucionária, a arte contribui para a mudança qualitativa[9] à medida que as pulsões, Eros e Thanatos, e o prazer estético ultrapassam as determinações citadas e redundam no deslumbramento de outra realidade que emancipe o espírito e os sentidos, fortalecendo a individualidade contra a administração total da vida. Licurgo Cambará: “Improvável e grotesco como uma personagem de romance”[10] – improvável e grotesco porque a realidade é tão degradante que a felicidade foi deslocada para o âmbito exclusivamente espiritual e, assim, as pulsões só são dessublimadas fora do status quo. O que Marcuse argumentou com sutileza psicanalítica em A dimensão estética (1977), Lukács, em 1956, delineara como um “substrato comum”[11] na obra de arte que compreende o desenvolvimento da humanidade ocorrendo não a partir de um marco zero, mas de etapas precedentes ao artista e ao receptor, revivendo ambos no presente uma vida anterior pertencente à humanidade e aumentando a existência individual, enriquecendo o Eu mediante uma realidade que pode ser mesmo mais intensa que a objetiva, cuja ideologia embarga o conhecimento da verdade – é possível, hoje, com a leitura do duelo entre Capitão Rodrigo e Bento Amaral e com a defesa que Ana Terra faz dos seus perante a invasão das terras de sua família por castelhanos, alcançar incomensurável prazer estético na leitura e, concomitantemente, refletir acerca da violência secular que perdura no país, a despeito da narrativa contemplar a época do Brasil Colônia, da obra ser escrita no século XX e de ser lida hoje. A base da narrativa é a trama entre as personagens e não uma contextualização histórica, sociológica ou política que apenas colonizaria o romance. A literatura engaja-se pela forma descolonizada do conteúdo. Ainda em 1909, o “jovem” Lukács já afirmara que o que há de verdadeiramente social na literatura é a forma: “O movimento, o rimo, as ênfases e as supressões, a graduação de luz e sombra etc”[12] atuam sobre o leitor, a despeito deste acreditar que seja o conteúdo que tenha atuado. Marcuse sublinhou o papel da forma com o conceito de forma estética (ästhetischen Form) argumentando que são a estilização, a reformulação e a reordenação dos dados da realidade que edificam uma realidade nova e permitem à subjetividade experimentar sentimentos e juízos diferentes daqueles que existem na ordem estabelecida, independentemente do conteúdo do qual a obra trata: potencialidades reprimidas do homem e da natureza tornam-se visíveis e, assim, a arte representa e denuncia a realidade, concomitantemente – é pela forma estética (forma tornada conteúdo) que a arte é crítica e autônoma, uma vez que reforma o conteúdo, revela a verdade escondida e as dimensões reprimidas pela realidade e, por isso, mostra-se emancipatória[13]: a forma estética desmancha o monopólio da ordem estabelecida ao mostrar a ficção como a verdadeira realidade, uma vez que não é mistificadora, alienante e fragmentadora, como um princípio de realidade que seja “reconstrução da sociedade e da natureza sob o princípio do aumento do potencial humano de felicidade e aumento da diminuição do sofrimento”[14]. O tempo cíclico de O tempo e o vento no qual ações de diferentes membros das famílias Terra, Cambará, Amaral, Quadros e Caré se repetem ao longo dos séculos e o vai-e-vem de ações narradas por Erico Veríssimo que rompem com a estrutura linear da narrativa por si só engajam o leitor a pensar o que é novo e o que é tradicional nas ações dos membros das famílias, do Rio Grande do Sul e do Brasil, engajam o leitor a analisar e posicionar-se diante de personagens que apresentam ideias e ações comuns às épocas retratadas no romance, independentemente dos temas (muitas vezes políticos) que aparecem, desaparecem e reaparecem.  Rodrigo Terra Cambará: “Por alguns segundos as personagens do romance moveram-se e falaram em seus pensamentos”[15]. É, portanto, pela forma desacorrentada de imperativos políticos que a literatura protesta contra os mesmos imperativos, ela guia-se por si mesma e oferta liberdade aos sentidos e à razão à medida que contribui para a edificação da individualidade ao leitor, ao invés de administrá-lo, tratá-lo como mero eleitor, consumidor, ou público alvo. A literatura é engajada ao recusar a política e recusar-se como linguagem política: ela denuncia tanto os tabus na vida privada quanto normas de dominação da vida pública e torna-se “promessa de libertação”[16] ao distanciar-se da práxis política e permanecer “estranha, antagônica, transcendente à normalidade”[17]. Rodrigo Terra Cambará: “Romance é uma coisa, vida é outra muito diferente”[18].


* VERISSIMO, Erico. O tempo e o vento: o retrato, vol. 1. 3° ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 237.

[1] VERISSIMO, Erico. O tempo e o vento: o arquipélago, vol. 2. 3° ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p 343.

[2] VERISSIMO, Erico. O tempo e o vento: o retrato, vol. 2. 3° ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 229.

[3] “A função do escritor é chamar o gato de gato”. SARTRE, Jean-Paul. O que é a literatura? 2° ed. Tradução de Carlos Felipe Moisés, São Paulo: Ática, 1983, p. 208.

[4] Ibidem, p. 18.

[5] VERISSIMO, Erico. O tempo e o vento: o arquipélago, vol. 1. 3° ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 312.

[6] “A plateia da comédia é o único lugar onde se confundem as lágrimas do homem virtuoso e do perverso. Lá, o perverso se irrita frente às injustiças que cometeria, sente compaixão pelos males que causaria, indignando-se diante de um homem de seu próprio caráter. Mas uma vez recebida a impressão, ela permanece em nós, a despeito de nós mesmos: e o perverso deixa o camarote menos inclinado a praticar o mal, como se um orador severo e duro tivesse ralhado com ele”. DIDEROT, Denis. Discurso sobre a poesia dramática. Tradução de L. F. Franklin de Matos, São Paulo: Brasiliense, 1986, p. 43.

[7] VERISSIMO, Erico. O tempo e o vento, parte I: O continente vol. 1. 3° ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 86, pp. 265-266, p. 308.

[8] VERISSIMO, Erico. O tempo e o vento, parte I: O continente vol. 2. 3° ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 238.

[9] “Especialmente nos seus aspectos não materiais, o contexto de classe é ultrapassado. É muito difícil relegar o amor e o ódio, a alegria e a tristeza, a esperança e o desespero para o domínio da psicologia, removendo assim estes sentimentos da preocupação da práxis radical. Na realidade, em termos de economia política, eles talvez não sejam efetivamente ‘forças de produção’, mas são decisivos e constituem a realidade de cada ser humano”. MARCUSE, Herbert. A dimensão estética. Tradução de Maria Elisabete Costa, Lisboa: Edições 70, s/d, pp. 18-19. 

[10] VERISSIMO, Erico. O tempo e o vento, parte I: O continente 2. 3° ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 329.

[11] LUKÁCS, Georg. “A arte como autoconsciência do desenvolvimento da humanidade” In: GEORG LUKÁCS: SOCIOLOGIA. Tradução de José Paulo Netto e Carlos Nelson Coutinho. São Paulo: Ática, 1981, p. 193.

[12] LUKÁCS, Georg. “Reflexões sobre a Sociologia da literatura” In: GEORG LUKÁCS: SOCIOLOGIA. Tradução de José Paulo Netto e Carlos Nelson Coutinho, São Paulo: Ática, 1981, p. 174.

[13] “O ego e o id, os objetivos e emoções instintivos, a racionalidade e a imaginação são removidos da sua socialização por uma sociedade repressiva e lutam pela autonomia – embora num mundo fictício. Mas, o encontro com o mundo fictício reestrutura a consciência e torna sensível uma experiência contrassocietal. A sublimação estética liberta e valida assim os sonhos de felicidade e tristeza da infância e da idade adulta”. MARCUSE, Herbert. A dimensão estética. Tradução de Maria Elisabete Costa, Lisboa: Edições 70, s/d, p. 48.

[14] Ibidem, p. 58.

[15] VERISSIMO, Erico. O tempo e o vento, parte II: O retrato, vol. 1. 3° ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 79.

[16] MARCUSE, Herbert. A dimensão estética. Tradução de Maria Elisabete Costa, Lisboa: Edições 70, s/d, p. 49.

[17] “(…) Ao mesmo tempo, ser o reservatório das necessidades, faculdades e desejos reprimidos do homem, de permanecer mais real do que a realidade da normalidade”. MARCUSE, Herbert. “Algumas considerações sobre Aragon: arte e política na era totalitária” In: Tecnologia, guerra e fascismo. Tradução de Maria Cristina Vidal Borba, São Paulo: UNESP, 1999, p. 270.

[18] VERISSIMO, Erico. O tempo e o vento: o retrato, vol. 1. 3° ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 237.