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“E agora, José?”*

11 de outubro de 2010

As transformações no mundo do trabalho, ocorridas desde a segunda metade do século XX, foram objeto de um debate sociológico que tangenciou o problema à direita e à esquerda e, assim, que não o tomou em um todo dialético: houve quem tenha dado adeus ao proletariado e formulado categorias com a de “não-classe de não-trabalhadores”[1] para referirem-se à heterogeneidade do antigo proletariado fabril, quem tenha se despedido do próprio trabalho[2], quem tenha revitalizado de teses ortodoxas oriundas do marxismo e respondido à desproletarização com a ideia de “classe-que-vive-do-trabalho”[3], quem tenha desistido da emancipação pela esfera do trabalho e a proposto pela esfera da linguagem[4]. Uns desconsideram que a tendência de substituição de trabalho vivo por trabalho morto – explicada por Marx ainda no século XIX – como inerente à grande indústria e forçaram a mão direita quando eliminaram a centralidade do trabalho, mas acertaram quando consideraram que os trabalhadores, hoje, não anseiam a emancipação; outros forçaram a mão esquerda com voluntarismo e saíram em defesa da categoria trabalho cega e a-historicamente, assim, a despeito de explicarem com destreza as metamorfoses ocorridas na esfera produtiva, permaneceram sob grilhões conceituais que imputaram à sociedade atual características do século XIX e não viram que a emancipação encontra-se, hoje, bloqueada por quem, há pouco mais de cem anos, poderia fazê-la. Os porquês da controvérsia são muitos e aqui registra-se apenas algumas características das tecnologias produtivas: o século XX viu, sob o fordismo, a linha de montagem para a produção em massa de produtos homogêneos impondo controle e cronometragem aos movimentos do trabalhador, a fragmentação de sua atividade e a subtração da elaboração mediante a rotina embrutecedora da execução de gestos maquinais, a concentração das unidades fabris e a verticalização administrativa da massa de operários cujos intelecto e sentidos foram mutilados. Assim, o embargo da percepção, a disciplinarização, a organização da consciência proletária pelo capital, as perdas de autonomia do trabalhador diante do maquinário e de poder sobre a produção expressaram o movimento das forças produtivas em direção à integração dos trabalhadores ao status quo e à manutenção de cada um deles aquém do projeto emancipatório de classe – movimento não percebido pela social-democracia e pela ortodoxia marxista por subtraírem do diagnóstico acerca das formas de controle no período, entre outras coisas, o modo como a razão e a tecnologia estavam vinculadas ao poder político. O século XX viu, ainda, sob o toyotismo, que decorreu das necessidades de intensificação da exploração de trabalho vivo via operação de várias máquinas pelo mesmo trabalhador, de vitórias sobre crises financeiras sem aumento do número de trabalhadores, da introdução de técnicas de gestão de supermercados nas indústrias que possibilitaram produzir em menos tempo, da expansão desse método (kanban) a empresas subcontratadas e fornecedoras[5], o alcance maior das forças produtivas em relação ao fordismo, uma vez que se conseguiu atender à produção de bens diferenciados e a pedidos pequenos com menos tempo por se saber o que deveria ser produzido e reposto conforme técnicas de supermercados introduzidas na indústria (produção determinada pela demanda). A produção flexibilizada e o atendimento a várias máquinas ao mesmo tempo tornaram os operários, concomitantemente, polivalentes e desespecializados, colocaram-nos sob o trabalho em equipe e subserviente à produção automatizada, intensificaram a exploração ao mesmo tempo em que os direitos foram flexibilizados, reduziram o número de trabalhadores ao mesmo tempo em que horas-extras, trabalhos temporários e subcontratados foram usados e deram origem ao problema do desemprego estrutural[6], cuja solução não ocorre mais pelo simples aumento da atividade econômica e que, assim, colocou as teses keynesianas em colapso. Em relação ao fordismo, o toyotismo diminuiu o abismo entre elaboração e produção, mas continuou veiculando a alienação e o domínio do capital sobre o trabalhador, além de intensificá-los: o antigo poder dos trabalhadores qualificados sobre a produção, que permitia-lhes a ideia de que poderiam organizar a sociedade sem a burguesia, foi vencido pela automação industrial e pela reestruturação produtiva que subtraíram da unidade fabril o poder econômico e o centro de decisão. Na fábrica se produz mercadorias cujas utilidades são desconhecidas e se mina a consciência do trabalhador concernente à atividade que desempenha: tal divisão do trabalho retira o poder dos trabalhadores ao submetê-los a uma atividade que não é fonte de poder e disciplina-os a não tentar ascender a ele, mas a obedecer ao maquinário e a supervisioná-lo. O trabalho é desqualificado à medida que a produção ocorre mais por conta do trabalho morto do que do trabalho vivo – somente alguns ramos da atual produção toyotista exigem maior qualificação do trabalhador, outros são desqualificados e caem na órbita do subemprego, do trabalho temporário, da terceirização. Quais as implicações das transformações tecnológicas das forças produtivas para a classe social que empreenderia a emancipação de acordo com o programa de 1844? Levar ao limite as mudanças da alteração orgânica do capital e enterrar o “defunto” do trabalho como se homem e natureza não mais realizassem nenhum intercâmbio ou continuar apostando que os trabalhadores, mesmo que não fabris, mesmo que jogados para setores que dificultam a aglutinação e que sejam impenetráveis ao sindicalismo fordista, mesmo que dedicando-se a atividades que antes não eram intermediadas pelo mercado e que, agora, estimulam a heteronomia (“neoproletariado pós industrial”[7], de acordo com os termos de André Gorz), mesmo que sem consciência de classe e sem sentimento de pertencimento a uma classe social, assuma o programa emancipatório? Na segunda metade do século XX, ainda sob a hegemonia da tecnologia fordista, mas vislumbrando tendências que seriam comuns ao toyotismo, Herbert Marcuse diagnosticara que ocorria com o trabalhador, nas sociedades industriais avançadas cujo maquinário já se caracterizava pela automação, a economia do dispêndio da energia física e o aumento do dispêndio de energia psíquica, o isolamento e a despolitização, atomizando-o, fenômenos combinados com o consumo de falsas necessidades. Assim, ao invés de negar a categoria trabalho, supondo a inexistência da ação humana no mundo; de negligenciar que a relação entre trabalho vivo e trabalho morto se alterou, colapsando a tese marxiana de proletarização, uma vez que os trabalhadores integraram-se às classes médias e aumentaram o número de trabalhadores no setor de serviços (se reduzida ao absurdo, a automação supõe o fim da mediação pelo trabalho, uma vez que a produção seria determinada pela máquina); ao invés de imputar voluntariosamente ao proletariado um projeto do qual este foi blindado, Marcuse mostrou que uma “escravização magistral[8] manteve o trabalho alienado e impediu a rebelião. Do fordismo ao toyotismo, a tecnologia aperfeiçoou-se como forma de controle e empreendeu a manipulação dos trabalhadores qualificados que persistiram em seus postos e não abrindo mais as portas para aqueles que os perderam. Estes novos estratos estão sob condições sociológicas que os integram ao status quo da maneira que o antigo proletariado fordista foi integrado ou estão precarizados, uma vez que a microeletrônica diminuiu, também, o número de colarinhos-brancos, e assim, podem desejar uma mudança qualitativa na sociedade, diminuindo a potência da escravidão magistral? “E agora, José?”[9]  


* ANDRADE, Carlos Drummond de. “José” In: MARICONTI, Ítalo (Org.) Os cem melhores poemas brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p.109.

[1] GORZ, André. Adeus ao proletariado: para além do socialismo. Tradução de Angela Ramalho Vianna e Sérgio Góes de Paula. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1982, p. 16.

[2] Dois exemplos: 1) GRUPO KRISIS. Manifesto contra o trabalho. Tradução de Heins Kieter Heidemann e Claudio Duarte. São Paulo: Labur – Depto. De Geografia da FFLCH/USP, 1999. 2) OFFE, Claus. “Trabalho como categoria sociológica fundamental?” In: Trabalho & Sociedade. Rio de Janeiro: Tempo brasileiro, vol. I.

[3] ANTUNES, Ricardo. Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. 4° ed., São Paulo/Campinas: Cortez, Unicamp, 1997, p. 54.

[4] HABERMAS, Jürgen. “Técnica e ciência como ideologia” In: BENJAMIN, HORKHEIMER, ADORNO, HABERMAS Os Pensadores. Tradução de Zeljko Loparic, São Paulo: Abril Cultural, 1975.

[5] ANTUNES, Ricardo. Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. 4° ed., São Paulo/Campinas: Cortez, Unicamp, 1997, pp. 23-24.

[6] Automação, robótica e microeletrônica compõem em tal grandeza a substituição de trabalho vivo por trabalho morto que o Grupo Krisis declarou que o primeiro agora encontra-se como “defunto”, “supérfluo”, “obsoleto”, “deixa de ser regra e passa à exceção”. GRUPO KRISIS. Manifesto contra o trabalho. Tradução de Heins Kieter Heidemann e Claudio Duarte. São Paulo: Labur – Depto. De Geografia da FFLCH/USP, 1999, p. 11 et seq.

[7] GORZ, André. Adeus ao proletariado: para além do socialismo. Tradução de Angela Ramalho Vianna e Sérgio Góes de Paula. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1982, p. 89.

[8] “Masterly enslavement”. MARCUSE, Herbert. One-dimensional man: studies in the ideology of advanced industrial society. 2° printing. London/New York: Routledge, p. 28.

[9] ANDRADE, Carlos Drummond de. “José” In: MARICONTI, Ítalo (Org.) Os cem melhores poemas brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p.109.