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“Máscara de folha-de-flandres”*

2 de setembro de 2010

O ferro ao pescoço e ao pé, funcionando como coleira, e a máscara de folha-de-flandres foram tecnologias comuns à escravidão, conforme Machado de Assis descreveu[1]. Entre nós, uma nova máscara de folha-de-flandres, atualizada tecnologicamente, impede, além do paladar, a visão, serve para embriagar, e não para manter a sobriedade: a urna eletrônica aparenta racionalização, mas legitima o domínio de uma pequena matilha sobre o país inteiro. Não é pela escolha de quem serão os próximos senhores que os eleitores deixam de ser dominados. Da máscara de folha-de-flandres à urna eletrônica, o fio-condutor é o descompasso entre progresso técnico e liberdade: a advertência e a denúncia que fizeram Rousseau, no século XVIII, e a Teoria Crítica, no século XX,  desmistificaram a neutralidade do avanço tecnológico e o explicitaram como instrumento de dominação. É verdade que tanto nos tempos de Rousseau, como nos de Marcuse, o progresso tecnológico construiu, objetivamente, ainda mais comodidades, mas também é verdade que, subjetivamente, fez com que as pessoas se importassem menos com a ausência de liberdade a que foram submetidas ou que sequer a percebessem: tornou-se possível viver com “euforia na infelicidade”[2], conforme Marcuse argumentou. Atualmente, se há compasso do progresso técnico com algo, é com a administração, não com a liberdade: os mesmos que aproveitam-se das comodidades são mobilizados para trabalharem além de um tempo que é desnecessário de acordo com o estágio atingido pelas forças produtivas – eles são a prova viva de que a produção é mais importante que as pessoas, uma vez que, mesmo que se perca a liberdade, se reproduz capital. Na produção, a máquina se sobrepõe ao trabalhador e a tecnologia é uma ferramenta política de dominação social à medida que funde-se com a prática, corporifica/sedimenta/coagula a dominação e transfigura-a em administração sob o véu da ordem objetiva das coisas: a dominação é inerente à tecnologia por conta do programa desta em guiar as pessoas, controlá-las e adestrá-las com movimentos e pensamentos heterônomos, coisficando-as, embora aparente ser neutra graças à formalidade de seu funcionamento: a penetração da tecnologia no corpo e na alma dos trabalhadores expressa-se nos gestos mecânicos e na racionalidade maquinal e tecnológica (autocontrole) que adquiriram sob a exigência da eficiência produtiva e distributiva do capitalismo monopolista. Na política, a administração ocorre pelo amálgama de partidos que regulam-se, aprioristicamente, pelo funcionamento da tecnologia-estado de dominação social: a arbitragem de todas as questões sociais por instituições-máquinas-ferramentas reduzem a individualidade daqueles que apenas têm de se adaptarem à imanência da produção e distribuição de comodidades (falsas necessidades). Os conflitos sociais, cada vez mais raros nos últimos anos, uma vez que aqueles que julgam-se progressistas, mas que regulam-se pela imanência do sistema de produção de comodidades, são Medusas para sindicatos e entidades estudantis que “dirigem” e, assim, contribuem para a administração tecnológica da mobilização para elevar o padrão de vida – à direita e à esquerda, os partidos políticos capitulam ao status quo aprioristicamente tal como a dominação na produção é, também, a priori. Administram-se depressões, estabilizam-se conflitos e toleram-se as contradições estruturais do capitalismo tal como um operário se adapta à máquina. O a priori tecnológico e o a priori político projetam a natureza e o homem como objetos de controle: tudo é organizado e administrado sob o véu da eficácia e neutralidade científicas, no trabalho ou no “tempo livre”.

Vão, átomos sociais, à urna eletrônica, serem administrados na vida!


* ASSIS, Machado de. “Pai contra mãe” In: A cartomante e outros contos. 3° ed. São Paulo: Moderna, 2004, p. 35.

[1] “A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dois para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um  cadeado. Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dois pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas”. Ibidem, p. 35.

[2] “Euphoria in unhappiness”. MARCUSE, Herbert. One-dimensional man: studies in the ideology of advanced industrial society. London/New York: Routledge, 2002, p. 07.

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