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“Orgulho de servilidade”*

1 de agosto de 2010

A servidão voluntária é mais comum às sociedades cujas subjacências afastaram a escolha, a autonomia e a liberdade uma das outras do que foi na época de La Boétie. Sob a base material da divisão do trabalho, os liberais, os cristãos e Sartre entrelaçaram liberdade e “autonomia de escolha”[1]; porém, um inventário de fenômenos expressa que aqueles que pensam e desejam ser livres, sob a atual opulência do capitalismo monopolista, perdem a liberdade precisamente ao escolherem, conforme Marcuse expôs na segunda metade do século XX[2]: Trabalhadores 1) escolhem e anseiam atividades estupefacientes em uma ordem cujas forças produtivas poderiam anulá-las e, assim, escolhem a perpetuação da labuta; 2) escolhem votar contra si mesmos em eleições parlamentares e/ou escolhem partidos que julgam representá-los, mas que aliam-se com o opressor e, assim, escolhem a perenidade da servidão; 3) escolhem e anseiam atividades de descanso e lazer que apenas resultam em mais cansaço e, assim, escolhem a permanência da exaustão; 4) escolhem mercadorias nas gôndolas de supermercados acreditando que ainda há livre-concorrência em uma sociedade administrada por monopólios que controlam o mercado desde as matérias-primas, tal como também escolhem produtos de grife e utensílios verdadeiramente desnecessários e, assim, escolhem a permanência da produção e reprodução de mercadorias; 5) escolhem qual veículo de comunicação consumir em uma imprensa livre que se autocensura e, assim, escolhem a obscuridade, a despeito de se manterem informados. Fenômenos mais recentes mostram a atualidade do argumento de Marcuse para o início do século XXI: 1) as pessoas escolhem quais telefone celular, email e páginas de relacionamento virtual usar e, assim, escolhem quais coleiras eletrônicas subtrairão suas liberdade e privacidade; 2) escolhem qual fast food consumir para terem mais tempo a dispor para o senhor e menos consigo mesmas; 3) escolhem qual atividade física ou cultural farão para esquecerem do amargor da sociedade do capital e, assim, escolhem qual dos grilhões da indústria cultural e da biopolítica as acorrentarão e as desprivatizarão de seus “tempos livres”. É justamente pela liberdade de escolha que os átomos sociais são subjugados em uma sociedade opulenta: trata-se de um instrumento de dominação que disciplina as pessoas à vida sob o status quo e propaga a labuta e a barbárie. Quanto mais se escolhe, menos se é livre e feliz sob uma conjuntura em que reinam falsas necessidades e fruições escolhidas pelos átomos sociais: estas são o disciplinamento que transfiguram interesses sociais de reprodução de capital em interesses individuais de felicidade, aplanando[3] as dimensões do universal e do particular[4]. Menos se é feliz porque as fruições, mediadas pelo mercado, têm um caráter de classe e, assim, um enorme contingente da humanidade tem acesso apenas às mercadorias mais baratas, o que forma um grupo de pessoas companheiras da mesma miséria, que não pode realizar todas as fruições, uma vez que a sociedade correria risco de funcionar mal se as fruições não fossem demarcadas para o que é socialmente útil (o que também ocorre com a redução do erotismo em sexualidade): a indústria cultural mutila e barbariza os átomos sociais à medida que estes consomem construtos estéticos ancorados na reprodução de capital e não na qualidade artística do bem. Trata-se de um ardil para substituir a felicidade pela reprodução de capital e, assim, para substituir a fruição pelo que é socialmente útil, cujo resultado é a corrupção do prazer dos átomos sociais: eles regozijam-se em humilhar o outro, em consumirem quinquilharias e um infindável gênero de atividades substitutivas do erotismo, em submeterem-se ao autossacrifício, em assumirem etnocentrismo, nacionalismo e regionalismos – a sociedade antagônica é a da fruição que embrutece, que combina dessublimação e repressão. Menos se é livre porque cada escolha coloca o átomo social no programa de adaptação e integração à sociedade, embutindo a ausência de liberdade no homem e formando uma estrutura psíquica que o disciplina. Trata-se de uma liberdade totalitária: liberdade de autorrenúncia, de autossacrifício, de voluntariamente desejar a servidão. O totalitarismo transfigurado em liberdade apresenta, na moral, a liberdade de renunciar a si mesmo e se adequar ao socialmente aceitável; na política, a liberdade de lutar pela existência com violência e usar o outro como meio ou obstáculo; no pensamento, a liberdade de controlar a natureza e outros homens. O denominador comum destes exemplares de liberdade totalitária é a não-liberdade transfigurada em liberdade e que faz com que cada escolha circunscrita pelo status quo – e mesmo contra ele, uma vez que símbolos de oposição podem ser convertidos em mercadorias reproduzidas em massa – seja veículo da não-liberdade, forma de controle social.


* ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Abril, 2010, p. 312.

[1] SARTRE, Jean Paul. O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenológica. Tradução de Paulo Perdigão, Petrópolis: 1997, p. 595.

[2] MARCUSE, Hebert. One-dimensional man: studies in the ideology of advanced industrial society. 2° printing. London/New York: Routledge, 2002, p. 28.

[3] “(…) Se o trabalhador e seu patrão assistem ao mesmo programa de televisão e visitam os mesmos pontos pitorescos, se a datilógrafa se apresenta tão atraentemente pintada quanto a filha do patrão, se o negro possui um Cadillac, se todos leem o mesmo jornal, essa assimilação não indica o desaparecimento de classes, mas a extensão com que as necessidades satisfeitas que servem à preservação do Estabelecimento é compartilhada pela população subjacente” (If the worker and his boss enjoy the same television program and visit the same resort places, if the typist is as attractively made up as the daughter of her employer, if the Negro owns a Cadillac, if they all read the same newspaper, then this assimilation indicates not the disappearance of classes, but the extent to which the needs and satisfactions that serve the preservation of the Establishment are stared by the underlying population). Ibidem, p. 10.

[4] “(…) As pessoas se reconhecem em suas mercadorias, encontram sua alma em seu automóvel, hi-fi, casa em patamares, utensílios de cozinha. O próprio mecanismo que ata o indivíduo a sua sociedade mudou, e o controle social está ancorado nas novas necessidades que ela produziu (“The people recognize themselves in their commodities; they find their soul in their automobile, hi-fi set, split-level home, kitchen equipment. The very mechanism which ties the individual to his society has changed, and social control is anchored in the new needs which it has produced”). Ibidem, p. 11.