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Para Calabar*

1 de julho de 2010

Se a memória e a vontade são dois pilares da fidelidade, conforme o argumento de André Comte-Sponville de que é impossível ser fiel ao que não se lembra e ao que não se deseja sê-lo[1], as relações sociais da ordem vigente empreendem a erosão da fidelidade ao terem como o único critério válido para compromissos o mercadológico, esvaziando a memória e a vontade ou colocando-as em segundo plano. Concernente à memória, há esvaziamento por conta da primazia do imediato em relação ao mediato, da lógica de alcance das metas de longo prazo ser interrompida pela necessidade ao atendimento das metas de curto prazo à medida que nichos de mercado são identificados – a reformulação da ideia de tempo subtrai da memória o fio condutor ao qual a pessoa se agarrava e, assim, potencializa a mudança, a transformação, a infidelidade. O império do presente em relação ao futuro e ao passado, de forma mais radical que as Confissões de Agostinho empreendeu, uma vez que ocorre fundindo a técnica com a política, enfraquece a memória e, assim, embarga a fidelidade: em Agostinho, a concepção subjetiva do tempo garantia a existência e a possibilidade de fidelidade do presente em relação ao presente do passado e ao presente do futuro[2]; na era do capitalismo monopolista que produz e distribui de acordo com a flexibilidade do tempo de longo prazo, um presente do futuro é deveras secundário diante da necessidade de acumulação hic et nunc – ademais, se, de um lado, Agostinho e o cristianismo contribuíram com a edificação o sujeito ocidental, de outro, a acumulação flexível ocorre na era em que o mesmo declinou e não possui mais o ego de outrora. Concernente à vontade, por que desejar ser fiel à empresa que se dispõe à incorporação por empresas maiores ou a incorporar as menores, ameaçando ininterruptamente colocar qualquer um de seus “colaboradores” no exército industrial de reserva? Por que desejar ser fiel ao replanejamento e à reengenharia da empresa que, ao invés da segurança e da estabilidade da antiga carreira profissional, oferece contratos marcados por regras e objetivos fugazes/flexíveis e que facilita, por isso, a demissão? Por que adiar a satisfação em nome da incerteza? A erosão do longo prazo nas relações sociais de produção, subjacentes na flexibilidade e não mais no fordismo, redundou em uma flexibilização, também, da fidelidade (a despeito da propriedade privada perpeturar-se): ela e o compromisso são “virtudes de longo prazo”[3] e sem compasso com a lógica de curto prazo que inclina capitalistas à demissão de modo tão rápido como uma necessidade de mercado que inclina-os a contratarem, à troca de empregos que proletários fazem à medida que encontram posição ou remuneração melhor em outras empresas – a associação temporária é mais útil que a fidelidade. Fora do ambiente produtivo, outras esferas sociais mostram-se colonizadas pela mesma lógica de curto prazo: na instituição familiar a fidelidade também é relaxada pela lógica da argumentação do trabalho em equipe transportada para o lar, somente importam a resolução dos problemas imediatos, contribuindo para a perda da autoridade dos pais: relações horizontais (melhor dizendo, pseudo-horizontais), e não mais hierárquicas, minam o compromisso e o respeito às regras de convívio. Em âmbito sexual, tal como a fugacidade do curto prazo na acumulação flexível, casais se formam e se desfazem tão rapidamente como muda a estratégia produtiva para atender as exigências do mercado – obsolescência do fordismo e do namoro, emergência da acumulação flexível e do “ficar”.


* BUARQUE, Chico; GUERRA, Ruy. Calabar: o elogio da traição. 22° ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996.

[1] COMTE-SPONVILLE, André. Tratado das grandes virtudes. Tradução de Eduardo Brandão, São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 27.

[2] “O que agora claramente transparece é que nem há tempos futuros nem pretéritos. É impróprio afirmar que os tempos são três: pretérito, presente e futuro. Mas talvez fosse próprio dizer que os tempos são três: presente das coisas passadas, presente das presentes, presente das futuras. Existem, pois estes três tempos na minha mente que não vejo em outra parte: lembrança presente das coisas passadas, visão presente das coisas presentes e esperança presente das coisas futuras”. AGOSTINHO, Santo. “Confissões” In: Os Pensadores. Tradução de J. Oliveira Santos, S.J., e A. Ambrósio de Pina, S. J., São Paulo: Abril, 1973, p. 248 (Cf. XI, 20, 26). Grifo nosso.

[3] SENNET, Richard. A corrosão do caráter: consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo. 6° ed. Tradução de Marcos Santarrita, Rio de Janeiro: Record, 2002, p. 27.