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“Lídia! Lídia!”*

1 de abril de 2010

    O itinerário rousseauniano da origem das corrupções na alma humana considera que, nos inícios, o sentimento próprio a cada um de nós era o da conservação: o homem conservava-se antes de qualquer coisa e, na iminência de um risco, colocava um pé atrás; não se diferenciava dos outros animais no seu primeiro e natural sentimento. Conservador e vivendo em uma natureza hostil, que exigia grande dispêndio de energia, não possuía força nem agilidade: teve de lançar mão de artimanhas para se autoconservar e, por isso, fez instrumentos – galhos de árvores e pedras tornaram-se armas. O sucesso foi tal que, além de sobreviver, o homem ainda obteve vantagem em relação à natureza: arco, flecha, linha, anzol, pele de animais vencidos que tornou-se proteção contra o frio, domínio do fogo – uma série de novidades dotou-o de considerável poder. Sentiu-se superior em relação aos outros animais e, assim, tornou-se orgulhoso. Para Rousseau, o esclarecimento foi tamanho que novas indústrias formaram-se: machados, cabanas, endurecimento do barro e da argila – o homem pôde, assim, fixar-se em um lugar e deixar a dispersão própria ao estado de natureza para viver, desde então, em cabana e em grupo. Eis a propriedade, a família e os sentimentos que decorreram de ambas, a saber, amor conjugal e amor paternal. E com o amor vinculado à propriedade, o ciúme.  A vida em habitações trouxe consigo vizinhos e a decorrente necessidade de estima pública: além do ciúme, formaram-se as ideias de mérito, beleza e preferência, os sentimentos de discórdia, vaidade, desprezo, inveja e vergonha – eis o preço da vida em grupo e da propriedade, das artes e das técnicas, da necessidade de consideração. Seria possível se divertir com a teia conceitual de Rousseau para notar o encadeamento de cada revolução com as corrupções decorrentes na alma humana – ele argumentara, antes de Marx, que as forças produtivas não eram o substrato do homem, mas apenas uma de suas formas históricas, algo que o marxismo ortodoxo recusa compreender. Mas limitar-nos-emos ao ciúme: desde a época da origem da família e da propriedade, o amor continuou vinculado a eles e, por isso, houve tamanha falta de escrúpulo e ar de naturalidade de Clotilde quando declarou a seu marido, João (enciumado), na peça Última noite, de João do Rio: “Faze o que quiseres; eu sou tua mulher, um objeto teu. Pode agir como entenderes”[1] – ela naturalizou-se como propriedade de outrem[2]. O ciúme foi um sentimento caro ao liberalismo porque a propriedade privada continuou na subjacência da organização social: o sujeito da livre-concorrência e que vivia sobre a liberdade de comercializar e de estabelecer contratos, empreendia um negócio e considerava-se proprietário da situação – as mercadorias que produzia e distribuía eram suas obras, o que adquiria no mercado graças à potência orçamentária  que possuía era seu e, assim, todo o mundo era, para ele, objeto de poder e controle. Ai daquele que invadisse sua empresa, sua casa, ai daquele que ousasse se aventurar com sua mulher e seus filhos! Olegário, em Uma mulher sem pecados, cujo ciúme o levou a fingir uma paralisia por sete meses, período em que maltratou Lídia, sua mulher, testando a paciência e a fidelidade incondicionais dela, disse com a voz do sujeito que dominava o objeto:

“Foi uma experiência… Uma experiência que eu fiz com Lídia… Precisava saber, ter uma certeza absoluta, mortal… Agora sei, agora tenho a certeza… Há, no mundo, uma mulher fiel… É a minha… E perdão, Maurício… Chama a tua mãe… Ela que me perdoe também… Vou-me ajoelhar diante de Lídia… (exaltado) Milhões de homens são traídos… Poucos maridos podem dizer: ‘Minha mulher’… eu posso dizer – a minha! (riso soluçante) Minha mulher (corta o riso, sente-se na cadeira) (grita) Lídia! Lídia!”[3]

Bentinho, em Dom Casmurro, cismava, via que seu filho, Ezequiel, se parecia deveras com Escobar, morto há poucos dias: Bentinho olhava para o filho, mas via o falecido; desejava matar tanto Ezequiel como Capitu, sua mulher; desejava o suicídio e, a sua frente, a fotografia de Escobar o impulsionava; ofereceu café envenenado a Ezequiel e, em seguida, recuou, mas, enfim disse: “(…) Eu não sou teu pai!”[4] Adiante, houve a briga e a separação entre Bentinho e Capitu. Foi a dúvida hiperbólica na qual o Eu mergulhou que inclinou Bentinho a colocar-se como impenetrável a ponto de nem precisar da argumentação de Capitu – a mesma dúvida que Descartes teve na Primeira Meditação, assegurado de pacífica solidão para, pelo pensamento, procurar a equação que explicaria o universo. Também aqui o sujeito dominou o objeto, de Descartes a Machado de Assis a visão liberal do mundo hipostasiou o Eu e o fez dominar tudo que lhe era exterior. O homem burguês que julgava-se amadurecido precocemente, colocando-se em primazia perante o outro ou mesmo negando o exterior aprioristicamente, era a megalomania da imaginação narcisista que redundava na infantilização da vida adulta, na compulsão à repetição. Os denominadores comuns entre os enciumados João, Olegário e Bentinho eram o aceno à propriedade que temiam perder e a iniciativa liberal para (tentar) evitar o prejuízo: o sujeito é o que tinha um objeto a dominar.

     Porém, sob a era dos monopólios, o homem não empreende, não experimenta, em uma palavra, não mais é o sujeito que João e Olegário foram; mesmo a dúvida que caracterizou Bentinho não pode mais ser levantada, uma vez que nada é justificável fora do império positivista dos fatos. Resta adequar-se à produção e distribuição de mercadorias em larga escala e tentar sobreviver sob o aparato dos grandes conglomerados. Para a alma humana, a história do liberalismo ao monopolismo pode ser escrita como a história do sujeito autônomo e empreendedor ao átomo social como apêndice administrado dos conglomerados produtivos e distributivos. O ideário liberal apregoava que a propriedade privada e as instituições concernentes a ela (livre-concorrência, liberdade de contrato e liberdade de comércio) garantiam a perenidade da vida social. Contudo, se era possível a propriedade dos meios de produção e, por ela, o exercício do poder sobre outrem, estava implícita na liberdade de contrato o direito à associação, à cartelização e aos trustes; estava implícita na liberdade de comércio a monopolização e a eliminação dos concorrentes[5]. A despeito de Adam Smith ter trovejado contra a concorrência que resultava na destruição do competidor, ela mostrava-se inerente ao capitalismo. Sob a era dos monopólios, a produção, a distribuição de mercadorias e o mundo não pertencem ao átomo social, tal como não é sua também, integralmente, a esposa, agora integrada ao mercado de trabalho – ambos são administrados. Hoje, Olegário seria traído pelos monopólios, não pela concorrência que ele temia; Bentinho ainda mais casmurro, resignaria – perderia o filho para as agências extrafamiliares, não para Escobar e Capitu. Na era liberal, o complexo de Édipo sob a família burguesa identificava a criança à figura do mesmo sexo e, assim, formava-se o ciúme por conta da concorrência entre criança e pai em relação à mãe. Um tempo em que, conforme Freud argumentou em Contribuições à Psicologia do amor, houve até casos de personalidades caracterizadas pela necessidade de gratificar “impulsos de rivalidade e hostilidade ao homem de quem a mulher é arrebatada” e casos em que o ciúme tornava-se mesmo uma “necessidade”[6]. Na era dos monopólios, a identificação da criança com os mecanismos extrafamiliares que monopolizaram a socialização e a formação do superego desde o berço, diminuiu a identificação e o conflito (concorrência) com o pai e, assim, a formação do ego se debilitou. Se Olegário tinha um ciúme propriamente doentio – segundo os termos da Psicologia operacional – e se Bentinho levou a dúvida à certeza da traição; hoje, o homem unidimensional, mais do que testar a fidelidade da esposa, se adéqua com ela à ordem – ambos se submetem aos grandes conglomerados, ambos se mutilam ao interiorizarem a castração que garante a autoconservação e a dessublimação (repressiva). Os dois submetem-se à dominação racionalizada e higiênica dos grandes conglomerados e que não extirpa a alienação: se adaptam a ela (o máximo de paciência e resignação lhes torna menos suscetível à demissão), tal como seus filhos também se adaptam por força da indústria cultural e das agências extrafamiliares, escolando-se em uma resignação apriorística. A castração interiorizada do homem que, hoje, controla o ciúme também é doentia, pois a conduta metódica e disciplinada do superego próprio ao átomo social é automática como as máquinas que o rodeiam – o power, o off e o stand by o canalizam para este ou aquele canal, esta ou aquela música, filme, game… O superego automático o canaliza para este(a) ou aquele(a) parceiro(a) – e ambos já disciplinados mascaram o ciúme que sentem, uma vez que o(a) parceiro(a) é objeto da sociedade unidimensional e não lhe pertence integralmente – como o Eu é formado na imitação de outrem e das agências extrafamiliares, aqueles que pensam ser autênticos são inautênticos na autenticidade. A infantilização na era dos monopólios é mais corrente que a na era liberal, uma vez que a compulsão à repetição não exige mais a recusa do mundo exterior por um Eu autônomo – não se trata do amadurecimento precoce que recai em manutenção da menoridade, mas de sequer amadurecer. Os Olegários de hoje interiorizaram de tal forma a castração que apenas podem administrar o ciúme tal como administram sua posição sob a empresa monopolista da qual dependem, eles calaram e consentiram; mesmo quando querem testar a fidelidade da esposa, agenciam a experiência com serviços de investigação; os Bentinhos de hoje são tão inferiores em relação aos fatos que nada podem supor ou duvidar fora do domínio da empiria, apenas seguem o regulamento, a unidade de procedimento e, se quiserem se separar da esposa, o processo é agenciado pela indústria da advocacia. O denominador comum entre os enciumados da era dos monopólios é o aceno à posição heterônoma que temem perder sob a ordem administrada: resignados à condição de apêndice, a objetos de controle, comportam-se diante do ciúme de maneira padronizada, agenciada e disciplinada – e se houver alguma idiossincrasia subsistente, oriunda da era liberal, ela é condenada pela moral monopolista e pela Psicologia.


* RODRIGUES, Nelson. “A mulher sem pecado” In: Teatro completo I: peças psicológicas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981, p.103.

[1] RIO, João do. “Última noite” In: Teatro de João do Rio. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p. 8 (grifo nosso).

[2] Para a resignação, ver Carne de segunda para pessoas de terceira.

[3] RODRIGUES, Nelson. “A mulher sem pecado” In: Teatro completo I: peças psicológicas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981, pp. 102-103.

[4] ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. Rio de Janeiro: MEDIAfashion, 2008, p. 312.

[5] NEUMANN, Franz. Behemoth: the structure and practice of National Socialism, 1939-1944. Chicago: Inan R. Dee, 2009, p. 255 et seq.

[6] FREUD, Sigmund. Cinco lições de Psicanálise; Contribuições à Psicologia do amor. Tradução de Durval Marcondes, J. Barbosa Correa, Clotilde da Silva Costa, Jayme Salomão e Davi Mussa, Rio de Janeiro: Imago, 1997, p. 67.