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“Carne de segunda para pessoas de terceira”*

1 de março de 2010

Átomos sociais são administrados e disciplinados pela ordem tecnológica de forma tão eficiente que aceitam, e mesmo amam, conviverem com o peso de bolsas e mochilas no ir e vir do trabalho, com o desconforto e a rusticidade do jeans, com um relógio de pulso(1) e ajustá-lo ao horário de verão, com um celular como coleira eletrônica, ficarem online o máximo de tempo que puderem e, assim, receberem as orientações de seus superiores na divisão do trabalho – desejam instrumentos que funcionam como tutores. Tais fenômenos expressam o sadomasoquismo e a resignação que os caracterizam: interiorizam a violência exterior e física como uma das “sublimes manifestações da alma humana”(2) e suportam o jugo por quanto tempo for necessário – eis um dos veículos que ajudam a sedimentar e perpetuar a dominação, tornando o passado onipotente e formando nos átomos sociais o desejo de servir que é tão peculiar ao capitalismo monopolista, conforme Eric Fromm e Horkheimer argumentaram. O capitalismo(3) (tanto na era liberal como na monopolista, mas principalmente nesta), a família burguesa (na era liberal, instituiu-se a obediência e a resignação desde cedo na criança por conta da força do pai e do seu papel de provedor – curvar-se ao pai significava adquirir vantagens, a despeito da subserviência; assim, a criança aprendia o respeito à hierarquia e à propriedade, aprendia o masoquismo de se entregar às autoridades, a interiorizar a culpa quando algo dava errado e a não colocar a responsabilidade na estrutura social, fenômenos fundamentais à manutenção do status quo. Acerca da era monopolista, o poder foi concentrado em poucas mãos e coube ao restante da sociedade adaptar-se para alcançar a autopreservação) e o cristianismo são formas de controle social, o denominador comum entre todos é a “prática metódica da resignação”(4) : o capitalismo e a família indicam a conduta de castração que garante a autopreservação na dimensão profana; o cristianismo, a castração que garante o reino dos céus (desde Santo Agostinho o homem ocidental é educado a ter fria impiedade contra si mesmo, fenômeno radicalizado ainda mais na Reforma(5) : com o protestantismo, os sentimentos de trabalho, de lucro, de poder e de obediência por si mesmos transformaram-se em valores que, além da resignação, integraram-se ao próprio espírito do capitalismo, conforme Max Weber argumentou). Em nome da autopreservação, a subserviência tornou-se interessante aos subservientes. Um teste que mostra o veemente poder da resignação, no Brasil, é o transporte público: ele opera com estojos em movimento que constringem a massa (sobre)vivente do trabalho, tal como as leis do mercado monopolizado também a constringem fora (e dentro) dele. Os empresários do setor, concomitantemente ao lucro adquirido, ofertam condições degradantes às quais seus funcionários e usuários se submetem com um ascetismo invejável até mesmo a Augusto Matraga(6) e um masoquismo invejável àqueles que, em uma sex-shop, buscam produtos que agradem sua compulsão à repetição – tanto os funcionários como os usuários precisam do trabalho para a autopreservação (colocada em dúvida, uma vez que morrem milhares ao ano nas ruas e estradas do país: em 2008, foram 37.585 de pessoas[7] ). Os que viajam em pé nos trens, metrôs, ônibus e balsas – motorizados e em pé, como bovinos, suínos e ovíparos em caminhões –, os que são pressionados em assentos feitos segundo critérios quantitativos que imperam nestes meios de transporte e na classe econômica dos aviões, resignam-se diante de tal situação assim como suportam outras mercadorias de mau gosto, produzidas e distribuídas em massa: casas populares e apartamentos que encerram os moradores em espaços que mimetizam o que é ofertado em lojas de decoração a tal ponto que os mesmos moradores habitam o que já não lhes pertencem e que expulsam suas idiossincrasias, que pressionam os habitantes em sofás em frente à televisão e que impedem que as pessoas tenham algum tempo verdadeiramente livre; filas das instituições bancárias e hospitalares onde cada um é um objeto a mais a ser administrado tecnicamente (como eram os judeus em campos de concentração e como são todos atualmente nas democracias plebiscitárias); posição inferiorizada no trabalho (alienado) e/ou nos bancos escolares (também alienantes) e a submissão à lei fria e objetiva do capital; enquadramento em sites de relacionamento que os apresentam uniformemente; mau atendimento que recebem em lanchonetes e restaurantes; bens padronizados pela indústria cultural que, ao não cumprirem a promessa de gratificação por aprisioná-la ao tino comercial, conduzem a diversão à resignação. Assim, a massa de trabalhadores, ela mesma ascética e sadomasoquista, comprimida e degradada, é cada vez mais humilhada conforme unida/pressionada em maior quantidade nos meios de transporte em massa que levam a eventos de mutilação também em massa, onde a individualidade é, mais uma vez, corroída: estádios e ginásios esportivos, casas noturnas, shopping centers, shows, cinemas, clubes e associações, universidades e escolas, indústrias e comércios, hospitais e clínicas, igrejas, eventos ao ar livre aos fins de semana e feriados… Em suma, os usuários do transporte público, indo e vindo de suas casas a alhures, partem de um lugar que exige ascetismo e masoquismo, usam meios de transporte que fazem a mesma exigência e que os levam para lugares que continuam a exigir – talvez nem mesmo Jó e Augusto Matraga suportariam o transporte público aqui existente, se por aqui caíssem de paraquedas e tivessem de sair de casa muito antes do realmente necessário para chegar ao destino a tempo. Este teste de resignação mostra que ela é um termidor psíquico, um grilhão interno aos átomos sociais tão forte como são os grilhões externos que os acorrentam, com a diferença de que o primeiro garante a autorrenúncia e torna os átomos sociais, além de vítimas, veículos de dominação na medida em que, por ele, o status quo se perpetua.

* CALLADO, Antonio. A Madona de Cedro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 4° edição, 1981, p. 15.

(1) José de Alencar não escondeu sua ojeriza: “Entusiasta da liberdade, não posso admitir de modo algum que um homem se escravize ao seu relógio e regule as suas ações pelo movimento de uma pequena agulha de aço ou pelas oscilações de uma pêndula”[1]. ALENCAR, José. Cinco minutos. São Paulo: McGraw-Hill, 1975, p. 1.

(2) HORKHEIMER, Max. “Autoridade e família” In: Teoria Crítica I: uma documentação. Tradução de Hilde Cohn, São Paulo: Perspectiva, 2008, p. 183.

(3) Autopreservação conquistada pela resignação diante de uma autoridade irracional, uma vez que se fundamenta nas posses e não na razão: “O simples fato (…) de alguém ter dinheiro, poder, relações que o elevam acima dos outros, é que coage os outros ao seu serviço”. Ibidem, p. 210.

(4) MARCUSE, Herbert. Eros e civilização: uma interpretação filosófica do pensamento de Freud. Tradução de Álvaro Cabral, Rio de Janeiro: Zahar, 7° edição, 1978, p. 200.

(5) Lutero considerava o homem como um ser duplamente constituído ao portar uma natureza interior (espiritual) e uma exterior (corporal), sendo a primeira superior em relação à segunda por permitir a relação com Deus e, assim, não pode ser afetada por nada exterior (corporal). Cabe à dimensão interior disciplinar a exterior: “Se considerarmos o homem interior e espiritual para ver em que condições é um cristão justo e livre e merece esse nome, é evidente que nenhum elemento exterior pode torná-lo livre nem justo, pois sua justiça e  liberdade, contrariamente a sua maldade e sua sujeição, não são nem corporais nem exteriores”. LUTERO, Martinho. A liberdade do cristão. Tradução de Ciro Mioranza, São Paulo: Escala, 2007, p. 22.

(6) “(…) Sim, era melhor rezar mais, trabalhar mais e escorar firme, para poder alcançar o reino-do-céu”. ROSA, João Guimarães. “A hora e a vez de Augusto Matraga” In: Sagarana. Rio de Janeiro: José Olympio, 1965, p. 341.

(7) Disponível em: http://fantastico.globo.com/Jornalismo/FANT/0,,MUL1441697-15605,00-ESPECIALISTAS+APONTAM+MEDIDAS+PARA+DIMINUIR+MORTES+NO+TRANSITO.html>. Acesso em 10-02-2010.

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