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“Nunca o povo esteve tão longe de nós”*

1 de janeiro de 2010

Em As meninas, de Lygia Fagundes Telles, a personagem Lia, estudante de Ciências Sociais, lamenta que o povo não acompanhe a agenda e os projetos dos políticos de esquerda e da meia-dúzia de intelectuais ligados a eles. Tivesse ela estudado com mais rigor, não lamentaria. Ou lamentaria pelo motivo correto: a passagem dos indivíduos a átomos sociais que, reunidos, formam a massa – ou o que Lia chama de povo. Quando Freud, em Viena, explicou o aparelho psíquico do indivíduo segundo suas hipóteses onto e filogenéticas, ele tratou de um indivíduo que não existia mais – na era dos monopólios, o antigo indivíduo autônomo com o qual o Iluminismo sonhou entrou em erosão e se identificou com o status quo – por isso Adorno notou que “em muitas pessoas já é um descaramento dizerem ‘Eu’”** . De um ponto de vista ontogenético, a antiga estrutura mental, tal como exposta por Freud, com a divisão tripartite em id, ego e superego, descrita com pulsões primárias do id sublimadas pelas duas outras partes e redirecionadas para dentro pela última, processo do qual emergiram o complexo de Édipo, a consciência, o sentimento de culpa, a necessidade de autopunição e a extensa série de patologias psíquicas da era liberal, se alterou, na era dos monopólios, para uma divisão em apenas duas partes, uma vez que o ego foi corroído: como os “indivíduos” se formam não mais sob o controle do pai provedor e da sua empresa familiar, mas sob os monopólios e instituições gigantescas, eles se mimetizaram a elas para conseguir se autopreservar – a produção e a distribuição em massa formou, também, pessoas com um superego pré-formado e com um ego encolhido a ponto de serem administradas e controladas de tal forma que se limitam à escolha automática entre as mercadorias disponibilizadas no mercado. A socialização, na era liberal, ocorria na luta entre a criança e o pai e deste confronto a primeira formava sua personalidade; sob a era dos monopólios, ocorre a administração direta da sociedade e sem luta entre ela e os “indivíduos”, por isso, enfraquece de tal maneira o ego que este não se diferencia mais do id ou do superego, transformando o antigo indivíduo em um átomo social (que reunido a outros átomos forma a massa) sem a menor capacidade crítica, uma vez que está mimetizado com a sociedade e não vê a menor necessidade de empreender uma sociedade diferente (algo psiquicamente impossível de conceber para o átomo, uma vez que está fundido). De um ponto de vista filogenético, Freud expôs uma metapsicologia que mostrou a vereda hipotética da constituição da civilização ocidental: a antiga dominação do pai sobre os membros da família, a rebelião dos filhos, a edificação do matriarcado, a contrarrevolução patriacal e a institucionalização do sentimento de culpa e da autopunição, uma vez que as pulsões de morte introjetadas tencionaram o superego inflacionado contra o ego e promoveram o retorno do reprimido. Mas a antiga família burguesa foi substituída, na era dos monopólios, por agências de educação que controlam diretamente o indivíduo desde o berço e mudaram o quadro da filogênese freudiana: a escola, a indústria do entretenimento com a mídia e o tempo absurdamente grande que ela dedica ao esporte e aos clichês culturais, os bandos de jovens, os clubes e as associações, os jogos eletrônicos e a internet, em suma, todas as agências extrafamiliares, operam uma socialização direta da sociedade sobre um ego que, ainda não desenvolvido completamente e cooptado desde cedo, torna-se enfraquecido e adere automaticamente à sociedade. O complexo de Édipo é característica da sociedade liberal; o parricídio, da monopolista. Ir à escola, teclar on, start, play, fazer um download, gritar gol, reunir amigos para ir ao shopping é dizer sim à sociedade e não à antiga família liberal, mas não se trata de um sim e de um não após a reflexão, tal como pediam um Rousseau ou um Kant, e sim um sim e um não automáticos e sem a mediação do próprio Eu – de pessoas assim Lia não precisava se lamentar por tê-las distante. Reunidos, os átomos sociais não formam uma comunidade, mas uma massa que perverte a individualidade***.

* TELLES, Lygia Fagundes. As meninas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 16° edição, 1985, p. 13.
** ADORNO, Theodor. Minima Moralia: reflexões a partir da vida danificada. Tradução de Luiz Eduardo Bicca, São Paulo: Ática, 2° edição, 1993, aforismo 29, p. 42.
*** MARCUSE, Herbert. “Algumas implicações sociais da tecnologia moderna” In: Tecnologia, guerra e fascismo. Tradução de Maria Cristina Vidal Borba, São Paulo: UNESP, 1999, p. 73.
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